Alisson Azevedo
Alisson Azevedo

Males Menores

Nada é pior para um corpo displicente do que um mal sem gravidade.

Passo pela idade de Cristo, e não passo bem. Mas não posso dizer que passe mal.

São pequenos achaques, é a dor menor das inflamações sem risco – tendinite, sinusite (ou rinite?).

E para males menores, pequenos procedimentos: consultas de emergência, evasivos diagnósticos, licenças do trabalho, tão breves quanto envergonhadas. E comprimidos a perder de vista. (Aliás, acabo de perder uma caixinha cheia deles, e não posso alegar a falta da vista: a cegueira, como a loucura, tem seu método. Eu é que não.)

“A tendinite é calcária”, me diz o médico, peremptório. Desconfio de umas balas que trago alojadas no peito, mas que se deslocam corpo afora, ou melhor, corpo adentro — sem remédio.

A sinusite é uma “inflamação dos seios da face”, me ensina o Google. Desconfio de certa carência de seios que me acomete desde a primeira infância até a idade de cristo — sem remédio.

Perco a hora dos remédios. Onde uma esposa fiel que me ajudasse a ministrar tantas pílulas, meu Deus? (Mas não foi para Deus que a perdi?)

“Você não queria autonomia?”, me diria minha mãe, ligeiramente contrafeita.

Queria, até me inflamarem os seios da face. Agora preciso é de seios sãos… E maternos é que não são.

Perco o cartão do plano de saúde. Em que recepção o terei esquecido? Já vejo aquela recepcionista mignon a trazê-lo – e a ministrar as pílulas que faltam. “Quanta loucura por tão pouca aventura”, toca o rádio impertinente.

Agora é o whatsapp. Onde a paz dos moribundos? Agora é a musa! Que delírio? Que delícia!

E quer conversar, virtualmente. Inacessível, ainda e sempre – não importa se por carta ou pelo whatsapp.

Ainda assim é melhor que a esposa fiel, melhor que a recepcionista mignon. Melhor é esquecer a “inflamação dos seios da face”.

A princípio não falo de inflamações. Em nome da minha propalada autonomia, alego uma gripe que não inspira maiores cuidados.

Mas falo da perda do cartão do plano de saúde. Será que a musa não poderia me ajudar a revirar a casa, as coisas, os móveis… em busca do cartão perdido?  O combinado não era me emprestar os olhos, se eu precisasse?

Oportunista é o que sou, ecoa um irado superego. Bem sei que perdi o dito cartão numa recepção qualquer – provavelmente a daquela recepcionista mignon.

E não preciso dos olhos da musa, mas de seios… quer dizer, dos seios da face, novamente sãos.

Ah, musa incauta! Quer por tudo me ajudar a revirar a casa, as coisas, os móveis… em busca do cartão perdido.

Confesso meu pecado nada original, mesmo sob o risco de perder o paraíso – e perco.

Mas a musa – porque é musa – compreende a humana falibilidade, a humana queda para o ridículo, a humana inflamação dos seios da face.

A ela – à musa – sou só gratidão. Amanhã seguirei, recepções afora, minha solitária e autônoma busca do cartão perdido – e da recepcionista mignon.

Por hoje está feita a crônica dos meus males menores. Para males menores, aliás, nada melhor que o gênero menor.

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