Alisson Azevedo
Alisson Azevedo

Guerras de Conquista

Estar solteiro depois dos trinta anos me parece um bom pretexto para um mergulho (in)seguro no perigoso aprendizado da conquista.

Não a exuberante caça selvagem — esse admirável esporte de rendimento para o qual jamais tive a menor vocação. mas sim a conquista de alguém que realmente valha a pena nesse imenso oceano de tédio e superfície que em regra costuma ser o do garimpo de pessoas disponíveis, interessantes, singulares.

O encontro, apesar de implodir o tédio e transcender a superfície, não garante a conquista. A não ser pra quem nasceu alemão, negão, Chico Buarque — ou com algum outro singular distintivo de sorte.

Aos mal nascidos resta se conformarem com o encontro sem entrega, ou aprenderem com outros mal nascidos, porém bem-sucedidos na “difícil, dangerosíssima” arte da conquista.
Mal nascido que sou, mas suficientemente abusado para não desistir de tentar transformar um raro encontro aprazível numa entrega sem par, opto por aprender com os mestres malditos da boa conquista.

Danusa Leão foi talvez a mais bela e cobiçada mulher de seu tempo. Musa de Di Cavalcanti e irmã de Nara Leão, a diva da bossa nova, Danusa foi cortejada por grandes cabeças e bons corpos dos meados do século XX.

Acabou por se casar com o poderoso jornalista Samuel Wainer, dono do jornal “Última Hora”, criado para defender o derradeiro e combalido governo Vargas.

Após alguns anos, três filhos e muito glamour, a mais cobiçada mulher do Brasil de então foi seduzida pelo cronista, compositor, poeta e gorducho Antônio Maria — funcionário do jornal de seu marido.

Era o improvável, também porque Antônio Maria era o antípoda e rival da bossa nova da qual Danusa fora musa e anfitriã. Mas ele tinha coração e ouvidos. E esgrimiu um argumento poético e definitivo à amada: “Não consigo viver sem você”.

Não era qualquer um, não era qualquer uma. Danusa largou tudo e foi viver com seu poeta, enquanto durou o amor.

Outro mal nascido que teve que se virar em suas guerras de conquista foi o genial Ray Charles, meu colega de cegueira.

Nascido negro e pobre numa Geórgia absurdamente racista, Ray teve que aprender a lidar com seu talento, com sua cegueira, com o dinheiro, com as mulheres — que ganhou e perdeu.
“Ray” (Taylor Hackford, 2004), sua magistral cinebiografia, mostra bem como aquele gênio incompleto e fora do padrão se torna um poderoso conquistador de ouvidos — e de belas mulheres.

A partir de sua sensitiva busca da beleza, Ray Charles logra divisar algo que precede a conquista: o encantatório momento do encontro.

Cego, , Ray não se contenta com a falácia diversionista da “beleza interior”. Ele deseja, demanda, conquista — as partes da beleza apreensíveis pelos quatro sentidos que lhe restam. E persegue a radiância, o “quê da coisa”, existente como energia extrassensória em tudo que é belo.

Aprendiz de Ray Charles, encontro a mulher que guarda em si a beleza que me mobiliza. E porque aprendo com Vinicius que “Uma mulher tem que ter alguma coisa além da beleza / Qualquer coisa feliz / Qualquer coisa que ri / Qualquer coisa que sente saudade”, descubro mais.

Descubro que ela já leu Machado, que em política está quase à minha esquerda, que não rejeita um trago, que não recusa um verso, que pretende morar na filosofia, que cremos no mesmo Deus.

Agora é conquistá-la, agora é que são elas. Não posso dizer, como o poeta de Danusa, que não viveria sem ela — meu tempo é outro, a vida é outra.

Mas posso dizer, sem pudor e com olhos ardentes, que morreria se desistisse dela — da busca que ela representa. Com ou sem conquista, bem ou mal nascido, farei por merecer, sempre.

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