Alisson Azevedo
Alisson Azevedo

Congresso retrô

Apesar do segundo turno lá e cá, a parte desta eleição que realmente poderia fazer a diferença para o Brasil e para Goiás acabou.

E acabou tão melancolicamente como a entrada de um ingênuo palhaço no malicioso picadeiro da política.

No Congresso Nacional eleito, em quase nada diferente do atual, o palhaço é o menor problema: ele é no máximo um sintoma do cinismo generalizado em relação à política, tão característico do nosso tempo. (Toma lá, dá cá.)

Um problema que se agrava no legislativo federal é a progressiva onda demagógico-conservadora. Em todo o país, os puxadores de votos para a Câmara federal carregam numa verborragia sem charme, insistem no malogrado casamento entre moral e política, e apresentam soluções simples para problemas complexos. (A julgar pelo que se viu no horário eleitoral gratuito, o problema da segurança pública estará resolvido já depois do carnaval.)

Um especialista dirá que os puxadores de votos não refletem a média do pensamento do Congresso. Ainda bem… Mas será que eles não refletem a média do pensamento dos eleitores?

Os partidos dão guarida aos campeões de votos, para aumentar o quosciente partidário e eleger mais parlamentares. A manobra começou com o nanico e neofascista PRONA (partido da retificação da Ordem Nacional) e seu (“meu nome é”) Enéas, funcionou e foi assimilada até pelas grandes legendas.

Em Goiás, o delegado Waldir bateu recorde histórico de votos (274.625). Eleito pelo PSDB, na campanha ele disse coisas que fariam corar os tucanos ortodoxos de plumagem uspiana.

A começar pelo slogan que criou para divulgar seu número – 45 do calibre e 00 das algemas –, o deputado federal goiano mais votado do partido cujo cardeal (FHC) defende a legalização do uso da maconha adotou a linha do “eu prendo e arrebento”.

Já por aqui, a gana justiceira do delegado não há-de causar espécie entre os tucanos graduados. Aliás, ele terá até um par “neocon” na bancada.

Trata-se do deputado federal reeleito João Campos, também delegado. Evangélico e mais discreto que seu novo colega, ele se destacou pela defesa de um projeto de lei que propunha a “cura” dos homossexuais. Ruborizados, os tucanos nacionais o isolaram. Mas seus eleitores, não.

A cada quatro anos, sempre surgem artigos e comentários críticos sobre o crescimento da bancada conservadora no Congresso. E ela cresce a cada eleição, com a cumplicidade ou a omissão dos grandes partidos.

O mais surpreendente é que essa tendência continue, mesmo depois das ruidosas manifestações de junho de 2013. É com essas bancadas retrô que o Brasil vai fazer reformas para o futuro? Faz não…

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