Poema “A vida”: a coroação póstuma e magnífica da obra de Cora Coralina

A par da subjetividade do gosto e da sensibilidade pessoais, há neste poema vários efeitos de estilo próprios da poesia de Cora aliados a uma belíssima narrativa alegórica

Simone Athayde

Especial para o Jornal Opção

Quando criança, minha filha gostava de fazer enquetes sobre nossas preferências. Às vezes, as perguntas eram fáceis: qual seu doce preferido: brigadeiro ou pé-de-moleque? Outras eram engraçadas e pueris: você beijaria o fulano de tal (alguém sempre muito feio) para ganhar 1 milhão de reais? As perguntas mais difíceis para mim eram as relacionadas aos meus gostos artísticos. Qual seu filme preferido? Qual sua música preferida? Se você ficasse presa numa ilha deserta e só pudesse levar um livro, qual seria? Eu, como boa geminiana, normalmente não consigo escolher uma obra apenas, e acabo sempre acrescentando à minha lista de preferidos mais algum livro impactante.

Porém, nos quesitos conto e poema não tenho dúvida em dizer que meus preferidos são duas obras de goianos, respectivamente: “Nhola dos Anjos e a Cheia do Corumbá”, de Bernardo Élis, e “A vida”, de Cora Coralina. A razão por ter escolhido essa composição de Cora é pela intensidade de emoções que me transmitiu desde a primeira leitura. Até há pouco tempo, era difícil para mim terminar a declamação sem chorar. Porém, a par da subjetividade do gosto e da sensibilidade pessoais, há neste poema vários efeitos de estilo próprios da poesia de Cora aliados a uma belíssima narrativa alegórica.

Essa obra só veio a ser conhecida após a morte da poeta, graças à bela atitude de seu médico particular que tinha o costume de, durante as consultas na casa da poeta, gravar as declamações de Cora num daqueles gravadores que nem existem mais. Em 2004, um jornal e uma emissora de televisão divulgaram a descoberta póstuma.

Cora Coralina: poeta | Foto: Museu Cora Coralina/divulgação

No poema temos a metáfora do rio como a vida. Essa metáfora não é novidade. A água e especialmente o mar são símbolos da vida e às vezes da morte. A própria Cora constata isso ao iniciá-lo assim:

Há tantas definições na vida

Bonitas, tristes, expressivas, inexpressivas

A vida.

Alguns já definiram a vida como um mar

Um mar revolto, encapelado

De ondas violentas

De naufrágios e tempestades

Um mar tempestuoso.

Outros definiram a vida um rio

O rio é a minha definição da vida

O rio imenso, farto,

Com as suas corredeiras e as suas margens.

Porém, nessa obra de Cora, o rio não é uma metáfora qualquer, mas constitui-se de paisagem e alegoria para o desfile das classes sociais, serve de reflexão sobre as desigualdades sociais, as mazelas humanas, a desvalorização e exploração dos pequenos trabalhadores, o papel da família e especialmente o da mulher-mãe. As partes do rio, ora mais agitadas, ora mansas, correspondem às etapas da vida humana:

E toda corredeira lança tudo para o remanso

O remanso aproxima-se da margem.

Da correnteza ao remanso, uma eternidade

Do remanso à margem, um pulo.

A ânsia dos moços que vão pela correnteza

A compreensão, a filosofia dos velhos lançados no remanso

E passados para as margens.

O eu-lírico, aquele que narra o que acontece no poema, é alguém que, como os outros, fez sua travessia epopeica pela “correnteza” do rio da Vida e vai descrevendo o que vê passar. Sim, todos fazem a travessia pelo curso d’água, mas as condições para cada um são muito diferentes. Primeiro, há os grandes transatlânticos, dirigidos pelos milionários, aqueles que dançam, cantam, se divertem e usufruem o “que os outros acumularam, que outros prepararam”. Depois, um bom barco que leva uma família próspera, alegre, bem constituída.

Cora Coralina: poeta que era admirada por Drummond de Andrade | Foto: Reprodução

Depois vem um barco menor,

Um barcozinho menor,

Com um motor de popa que já pertenceu a outros barcos que já foram desmontados

Vai fazendo a sua forcinha,

Vai fazendo a sua diligência

Passa também com seu esforço o grande rio da vida.

E assim outras embarcações vão se sucedendo, cada vez mais precárias, uma delas leva: Mulher, mãe pobre, pai, filhos, ilhos, ilhos. Essa sucessão de personagens e seus aparatos disponíveis para a travessia do rio gera uma representação de grande beleza sobre as diferenças sociais, o sofrimento causado pela miséria, a inglória luta dos despossuídos e pode suscitar a um ou outro leitor um exercício imaginativo: em qual embarcação estarei eu?

Até que passa a narradora e vamos nos encaminhando para a parte mais bonita e expressiva do poema:

Aí passa eu, bracejando

Água pelo queixo, e eu bracejava, bracejava

Quatro crianças no meu dorso,

Agarradas nos meus cabelos, nas minhas orelhas

Nos meus ombros, nas minhas carnes

Quatro crianças que eu levava comigo e que devia levar até o porto

E eu bracejava, bracejava

Fui a última? Não

Não fui a última

Porque bracejando,

Com aquelas crianças no meu dorso

Eu vi passar náufragos, pedaços de barcos destroçados

Náufragos agarrados numa tábua

Corpos mortos de famílias desajustadas, destroçadas

Especialmente nessa parte, fica interessante fazer uma comparação entre “A vida” e o conto de Bernardo Élis, que também narra a travessia trágica de uma família empobrecida e sem perspectivas durante uma cheia do rio Corumbá. Nhola dos Anjos, seu filho Quelemente e o neto tentam escapar da fúria das águas numa jangada improvisada com a porta do rancho de palha em que moravam. Nesse conto, escolhido para fazer parte da coletânea “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século” (trata-se do século 20), o autor constrói um cenário em que o rio, em outras ocasiões um amigo que provê a água e o alimento, se torna o algoz da pacata família ao inundar sua terra, adentrar a casa e derrubá-la, tirar-lhes violentamente a dignidade e até a sanidade, num final inesperado e excepcional.

A mãe-narradora do poema é a representação artística da mulher-provedora, da mãe-sofredora como Nhola dos Anjos, que tanto pode ser uma Carolina Maria de Jesus entre tantas mães-faveladas e excluídas, quanto uma que se faz mãe de tantos que não têm uma pátria-mãe, como é o caso de Irmã Dulce ou de tia Dag, fundadora da Casa do Zezinho, instituição que cuida da educação de crianças e jovens moradores de área de risco. Certa vez tia Dag disse em entrevista que o que a move é uma eterna indignação contra as diferenças sociais. A indignação, a estupefação diante do binômio exploradores- explorados têm gerado frutos humanitários exemplares e inúmeras grandes obras na literatura, como “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, “Germinal”, de Émile Zola, “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck, “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, “Quarto de Despejo”, de Carolina de Jesus, afinal, é papel da arte dar voz aos esquecidos e revelar o escondido, que pode, por fim, gerar um despertar para a situação dos que sofrem.

A vida, como narrativa simbólica, tem seu clímax nos últimos versos e um final que, a despeito do tom essencialmente melancólico e de denúncia social de toda a composição, tem algo de esperançoso. O que acontece com essa família formada por mãe e quatro filhos? Seria uma pena eu revelar aqui o final e retirar do leitor, com o perdão do trocadilho, a oportunidade de um mergulho na leitura completa dessa obra que pode até não ser o melhor dos poemas de Cora, mas encerrou com chave de ouro suas colaborações literárias ao nosso mundo.

Simone Athayde é escritora, membro da Academia Anapolina de Letras e da União Literária Anapolina. É colaboradora do Jornal Opção.

Confira a versão integral do poema de Cora Coralina
A Vida
Cora Carolina

Há tantas definições na vida

Bonitas, tristes, expressivas, inexpressivas

A vida.

Alguns já definiram a vida como um mar

Um mar revolto, encapelado

De ondas violentas

De naufrágios e tempestades

Um mar tempestuoso.

Outros definiram a vida um rio

O rio é a minha definição da vida

O rio imenso, farto,

Com as suas corredeiras e as suas margens.

A sua corredeira, sobretudo

E sobretudo os seus remansos.

Porque todo rio tem a sua veia corrente

O seu veio de corredeiras e tem seus remansos

E toda corredeira lança tudo para o remanso

O remanso aproxima-se da margem.

Da correnteza ao remanso, uma eternidade

Do remanso à margem, um pulo.

A ânsia dos moços que vão pela correnteza

A compreensão, a filosofia dos velhos lançados no remanso

E passados para as margens.

Eu fiz a travessia da minha vida

Do rio da minha vida

Na correnteza, como todos fazem

Passam os barcos, os grandes transatlânticos

Cantando, dançando

Mesa farta, música

Gente moça, gente despreocupada

Gente que acha o prato feito

E que tem apenas o trabalho de levar à boca aquilo que os outros fizeram

Que os outros acumularam

Que os outros prepararam.

São aqueles que recebem,

Por mercê de nascimento,

Todos os dons da vida.

Vão nos transatlânticos, despreocupados.

Depois seguem os barcos motorizados

Com um bom motorneiro na direção

A família amparada,

A família alegre, festiva

Mulher, crianças, noivos, sonhadores.

Sem pensar bem, vão acompanhando as classes

Um homem bem colocado na vida e que leva seu barco com segurança

Mulher, filhos à sua dependência

Vai guiando pelo espelho d’água pelo veio da correnteza

Com sua máquina, seu mundo

Aquelas paisagens todas, encantado com o panorama

Todos felizes, alegres, a família bem constituída

A família alheia às dificuldades do cotidiano

Vai esse barquinho.

Depois vem um barco menor,

Um barcozinho menor,

Com um motor de popa que já pertenceu a outros barcos que já foram desmontados

Vai fazendo a sua forcinha,

Vai fazendo a sua diligência

Passa também com seu esforço o grande rio da vida.

Depois um barco a remo, o remador.

Mulher, mãe pobre, pai, filhos, ilhos, ilhos.

Lá vai ele remando.

É um trabalhador, pai de família

Vai levando.

Depois descem os barquinhos fazendo água.

O homem no remo, a mulher com uma latinha para tirar a água.

Joga a água.

Vai fazendo água a ponto de afundar

Quem é o dono do barquinho?

É aquele pobrezinho

Mas ainda não é o último.

E ele vai levando o seu barquinho

Vai fazendo água, mas ele vai levando.

Aí passa eu, bracejando

Água pelo queixo, e eu bracejava, bracejava

Quatro crianças no meu dorso,

Agarradas nos meus cabelos, nas minhas orelhas

Nos meus ombros, nas minhas carnes

Quatro crianças que eu levava comigo e que devia levar até o porto

E eu bracejava, bracejava

Fui a última? Não

Não fui a última

Porque bracejando,

Com aquelas crianças no meu dorso

Eu vi passar náufragos, pedaços de barcos destroçados

Náufragos agarrados numa tábua

Corpos mortos de famílias desajustadas, destroçadas

E um dia,

Um dia a correnteza

Depois de muita luta, muito esforço

A correnteza me jogou no remanso

E o remanso me jogou para a margem

Senti uma solidez para os meus pés. Levantei

Saí da água escorrendo com a dor

Corridos, molhados, ainda sentindo no dorso aquelas quatro crianças

Depois pisei a terra firme da margem

As crianças saltaram do meu dorso

E o que eu vi nesta hora…

Esta hora foi a hora do deslumbramento

Eu havia carregado quatro crianças? Não

Quatro gigantes haviam me carregado.

Eu não carreguei meus filhos

Quatro gigantes me carregaram

Saltaram de meus ombros quatro gigantes

Eu vi

E compreendi que aquelas crianças que eu pensava que estava carregando

Agarradas aos meus cabelos, às minhas orelhas

Eram quatro gigantes que me carregavam.

Daí saiu de um canto um jovem e disse a uma das filhas:

Vamos fazer o nosso barco?”

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