País de maricas

Me faltam rimas, falta o som de belas palavras/Fica o horror do som dos gritos de quem perdeu alguém que tanto amava

Daniella França

Me faltam rimas, falta o som de belas palavras

Fica o horror do som dos gritos de quem perdeu alguém que tanto amava

Ficou o desespero de não saber se dormia e depois acordava

E o choro calado de quem sofria enquanto cuidava

O povo perdido em meio as notícias

Não sabia quem mentia, em quem acreditava

E a todo tempo tantas grandes e falsas profecias

Falsos profetas, monstruosos, disseminavam

Ouvi dizer que tudo isso passaria logo

E foi exatamente o que eu disse pro meu filho

E dói no peito ver, agora, depois de um ano

Os olhinhos dele, cansados, perderem o brilho

Crianças perdendo o brilho, a esperança

Perdendo amigos, pais e mães, avô e avó,

Perdendo a casa, a escola, a perseverança

Perdendo a gana de viver num país melhor

Ouvi dizer que essa tal doença

Era só uma gripezinha, uma grande frescura

Mas quem perdeu aqueles que tanto amava na vida

Sabe que para a morte nós não temos nenhuma cura

Enquanto isso, no hospital, um batalhão de anjos

Tenta salvar o máximo de vidas que é possível

Mas também estão adoecendo e deprimindo

Tentando ser nossos heróis fortes e imbatíveis

O Grito, de Munch

Nas nossas ruas aparece cada vez mais gente

Que não tem o que comer e nem onde morar

Pois sabemos que o plano desse presidente

É com todos nós, maricas, logo acabar

Gente morrendo de fome, morrendo de vírus

Da falta de amor e falta de esperança

Mas nada tem matado mais nesse país

Do que a falta de governo e de liderança

Vacinas indo pros países do mundo inteiro

Imunizando as nações e devolvendo a vida

Mas parece que o nosso povo, o brasileiro

Não tem tanto direito a dose, tanto pedida

E ao mesmo tempo que a ciência salva esses povos

Alguns falam que a terra é mesmo toda plana

Criam a ideia suja que a vacina mata

Espalhando descarada ideia leviana

Parem agora com as festinhas, imediatamente

Vocês estão contribuindo com morte da gente

Não corte a fila, deixe o idoso vacinar

Não seja hipócrita de a ciência ignorar

Fique em casa, amigo, pelo amor de deus

Se mantenha isolado pra proteger os seus

Saia apenas quando extremamente necessário

Nós estendemos que é preciso ganhar um salário

Por falar nisso, presidente, idiota banal

Pare de falar asneira, seja racional

Diga pro seu governo tosco e disfuncional

Devolver ao pobre o auxílio emergencial

Depois me faça um favor, seu abestalhado

Pare de seguir fazendo tudo, tudo errado!

Você não passa de um mongo, um arruaceiro

Não merece nem o título de brasileiro!

Daniella França é cientista, professora, mãe de dois filhos, esposa, filha, irmã e em isolamento social. É colaboradora do Jornal Opção.

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