Debate sobre participação de mulheres na política enfrenta resistência no Brasil

Apesar de “pequenos avanços”, cientista política aponta necessidade de abordar assunto; nos últimos quatro anos, tema foi abafado no Congresso Nacional

Há resistência à participação de mulheres na política brasileira. | Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

A onda de conservadorismo que abarcou o Brasil nos últimos quatro anos refletiu na participação de mulheres na política. De uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) apelidada PEC das Mulheres para silêncio sobre o tema. A previsão de se formar vagas exclusivas para pessoas do gênero feminino não foi para frente no Congresso Nacional. Neste ano, faz 90 anos que esse grupo ganhou o direito de ir às urnas. Mesmo depois desse tempo, é possível ver resistência à temática.

Seja em um bar, em uma roda de amigos ou em discussões acadêmicas, a mulher apresenta manifesto contrário ao do homem. Logo se ouve: “mas você é tão bonita para falar esse tipo de coisa”. Argumento de quem não consegue argumentar. Não. Eles não querem dar o espaço para elas. O resultado desse tipo de atitude é apresentado em forma de competência. “Por serem muito cobradas a serem perfeitas e se aperfeiçoarem, quando as mulheres vão para política, levam essa bagagem de seriedade. No campo da política, são mais sensíveis e menos dadas à corrupção”, pontuou a cientista política Ludmila Rosa.

Toda diversidade deveria ser bem-vinda na política. Em um país democrático, espera-se que cada minoria seja ouvida. “Nosso dever, neste ano, é levantar esse debate. A política ganha com diversidade, não só de gênero, mas qualquer diversidade”, argumentou Ludmila Rosa.

Apesar do tema se limitar ao binômio “homem” e “mulher”, a especialista aponta que só isso é suficiente para ver tamanha discrepância no cenário político brasileiro. “Nos três poderes da República, as pessoas são majoritariamente do gênero masculino. Da última legislatura pra cá, o Congresso Nacional teve um ligeiro aumento de mulheres, mas a ideia de paridade de gênero encontrou resistência nos últimos quatro anos. Temos poucas prefeitas, uma governadora, apenas três Ministras”, analisou Ludmila Rosa.

A exemplo do mencionado pela cientista política pode-se citar a PEC das Mulheres. O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, falava em levar a proposta a votação antes do fim de seu mandato. O texto previa vagas exclusivas para mulheres no Congresso Nacional, ao invés de apenas a obrigação dos partidos em terem candidatas. A expectativa não prosperou.

Em troca do silêncio sobre o tema, foi aprovada a PEC 18/2021, que destina 5% dos recursos do fundo partidário a programas de promoção da participação feminina. Além disso, institui que 30% do dinheiro de campanhas eleitorais deve ser voltado para candidaturas de mulheres. Por outro lado, prevê que, se o dinheiro não for totalmente gasto em uma disputa, poderá ser usado para financiar a campanha seguinte.

Segundo Ludmila Rosa, a situação reflete o parlamento. “Foi um pequeno ganho, um pequeno avanço, mas dá para ir além. Teríamos avançado mais se nosso Congresso não tivesse 85% de ocupação masculina. Essa matéria seria melhor discutida com a sociedade”, lamentou a cientista política.

Exemplo a ser seguido

Não há como falar de participação feminina na política sem citar a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern. “Ano após ano, ela ganha em popularidade, seriedade, competência, escuta ativa à ciência. Deu uma aula para o mundo em como sair da crise de maneira ligeira, sem impactar a economia, sem abrir mão de medidas sanitárias. É a líder com maior popularidade na Nova Zelândia em anos”, definiu Ludmila Rosa.

Outros países fazem escola com mulheres líderes. Durante a pandemia, Angela Merkel, da Alemanha, e Sanna Marin, da Finlândia também foram destaque. “Há política de Estado que estimula a participação das mulheres na vida pública e na vida privada das empresas. Outras mulheres se veem como parte do poder”, analisou a cientista política.

Mais perto, o Chile tem se mostrado exemplo a ser seguido na América Latina. O país firmou a nova constituinte com participação igualitária de gênero. A redação foi dada por 50% de homens e 50% de mulheres. Além disso, o presidente eleito elegeu maioria mulher como parte do governo. “Foi algo inusitado. 14 de seus ministros são mulheres e dez homens. Foi ousado montar um time majoritariamente de mulheres. Isso chama atenção. Esperemos que dê certo, e faça escola para a América Latina e para os demais países do mundo”, ressaltou a especialista.

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A data merece ser celebrada. Mas não se pode esquecer que muitas batalhas formam a luta. “A trajetoria da mulher na política do Brasil sempre foi de muito percalços”, lembrou Ludmila Rosa.

Para a cientista política, não se trata de uma disputa de gênero, mas uma forma de somar conhecimentos. “Não é fazer o Clube do Bolinha contra o Clube da Luluzinha. As mulheres tinham de entender que esse exercício pode melhorar a vida de todo mundo, inclusive a delas mesmas. Apenas o fato de mulher não votar em mulher justifica esse rombo que a gente tem no campo da política”, lamentou a especialista.

Segundo Ludmila Rosa, é necessário duas coisas para o avanço da luta das mulheres:  “mudança de visão e de cultura”, finalizou a cientista política.

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