A poesia feminina e libertária de Valéria Valle e Lilly Araújo

Destaca-se em Valéria Valle a veia erudita que dialoga com o moderno e o prosaico. O talento de Lilly Araújo deriva de uma sensibilidade aguçada

Simone Athayde

Especial para o Jornal Opção

Dos escritores goianos contemporâneos, duas poetas ainda pouco conhecidas, Valéria Victorino Valle e Lilly Araújo, têm se destacado pela força expressiva e beleza de suas composições poéticas.

As obras das duas autoras se constroem a partir da evocação e da manifestação de diversas vozes, a maior parte delas femininas, que representam diferentes personagens e personalidades, status sociais e etnias, conflitos internos e com o mundo que as rodeia, partindo do indivíduo para abarcar questões universais profundas.

Valéria Valle: escritora | Foto: Divulgação

A escritura de Valéria Valle

Valéria Valle, presidente da Academia Anapolina de Letras, é professora formada em Letras com especialização em Literatura Brasileira, e possui um longo currículo de atividades culturais em diversas entidades literárias, participações em antologias, premiações, além de vários livros-solo. A bagagem acadêmica da autora transparece em seus poemas, nos quais é possível perceber a veia erudita que dialoga de forma orgânica com o tom moderno e o discurso prosaico. No livro “O Beijo Feminino da Poesia”, no prelo, podemos encontrar um mosaico de vozes femininas que vai desde a mulher da roça com seu dialeto estigmatizado até a poeta que luta por um espaço para mostrar sua arte.

Em “Branca de Neve”, a poeta faz uma paráfrase com o famoso conto de fadas para desconstruir a submissão da personagem, que ainda é apaixonada pelo príncipe, mas assume sem pudores o seu desejo e suas vontades e deixa de lado o papel passivo esperado dela. Por outro lado, em outros poemas desse livro encontramos amores sofridos, não correspondidos ou proibidos, porque o feminino, por vezes, é paradoxal: ora toma as rédeas da sua vida, ora se fragiliza diante do ser amado.

Embora o eu-lírico de muitos dos poemas de Valéria Valle seja apaixonado, pela vida, pela natureza ou pelo ser amado, sua obra apresenta um alto teor de preocupação com temas sociais. Em “Flor Negra” é a voz da mulher negra que aparece para testemunhar todo sofrimento imposto a ela, enquanto representante de uma raça escravizada e discriminada através dos séculos: “Neste reinado permanente da injustiça e da escuridão humana/ Tento, com as flores, curar o câncer da carne e da alma/ Que dissolve e nunca devolve/ O nosso direito de viver como rio e fogo…”. Já no poema Seca Vidas, é a personagem Sinhá Vitória, do livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, quem mostra sua voz, numa denúncia contra a miséria que ainda assola grande parte da população brasileira: “Fugir da seca é o destino/ e sobreviver é a obrigação. / O desaparecer da água,/ O aparecer da fome./ O padecer de fome./ Sonho do sobreviver nas pupilas femininas/ Que vontade de sepultar a morte…”

O papel da intertextualidade é muito importante para a construção da obra de Valéria. A autora vai buscar, em outras obras, em outros autores e em personagens alheios, os instrumentos que ratificarão as vozes da sua poesia. Esse exercício dialógico, por trazer em si uma alta informatividade, enriquece o tecido textual, mas causa certo hermetismo, pois pode fazer com que leitores que não conhecem as obras às quais a autora se refere percam parte do significado poético.

A representação da incompletude da vida não vivida em totalidade, que representa a voz das mulheres modernas, sobrecarregadas de afazeres, aparece em poemas como Encantoados: “Lemos e escrevemos durante a vida/ que passa esbaforida e sofrida,/ O  restrito e o obrigado./ Nunca livres, nunca nós…/ Prisão doentia na sensação de cumprir dever/ E nunca ser…/ É o espremer, o sufocar e o enterrar/ Dos enfeitiçados/ encantoados/ no encanto e na toada/ do tempo de amar.”

Lilly Araújo: escritora | Foto: Divulgação

A poética de Lilly Araújo

Lilly Araújo, bióloga por formação, tem uma poética intuitiva de grande força e expressividade. Mesmo para aqueles que não acreditam em vocação, ao ler os poemas da autora, é difícil não perceber um talento que mesmo sem ter o apoio de estudos em Teoria Literária, parece vir das entranhas de uma sensibilidade aguçada enriquecida por leituras pregressas. Autora dos livros “O Som do Coração” e de “Kafka FDP”, Lilly publica nas redes sociais seus poemas e minicontos, muitos deles premiados em concursos nacionais. A intensidade de muitos de seus textos vem da forma visceral e sem meias palavras com que retrata as situações vividas por seus eus-líricos femininos. O belo e triste “O renascido”, por exemplo, pode ser lido como um poema-denúncia frente ao racismo naturalizado, enquanto o longo “Faces de Mim” começa como uma descrição de elementos que compõem um bar de má reputação e vai se transformando na transfiguração destes elementos em muitos outros, numa maratona que faz referências ao universo marinho, passa por Hamlet, pela Tragédia Grega, pelo joelho ralado de menino, até chegar ao “O corvo”, de Edgar Allan Poe, tudo para dar voz a personagens marginalizados.

A poeta também passeia pelo erotismo, às vezes dissociado de qualquer romantismo, outras vezes elegante, como em “Ignis fatuus”: “Fogo-fátuo,/ reflexo azul no lago,/ chama ardente./ O Falo./ E na mudez incisiva/ do teu toque fálico/ calo.”

Capaz de dizer as coisas mais duras das formas mais belas, a autora também sabe ser leve e bem-humorada, como no criativo miniconto “Definitivo”: “O amor é um desaforado,/ chega sem convite e vai logo se impondo,/ pega pela cintura e enfia um beijo de língua,/ nem espera a alma escovar os dentes.” e no romântico Quebra contratual: “O trato era viver só o agora,/ sem questionamentos do depois,/ mas assim que apertamos as mãos eu esqueci o que era trato,/ e assim que apertamos os nossos corpos,/ esqueci o que era depois.”

No poema “Pátria” temos a biografia metaforizada de um ser feminino forte, que não tem medo dos desertos, e que bem pode representar a autora, à vontade em seu habitat criativo: “Oásis para mim é porto passageiro./ Sou filha do deserto,/ com boca de devorar areia,/ tenho pés de camelos obstinados,/ e olhos de serpente solitária./ Fiz das dunas minha pastagem,/ o resto, é apenas miragem.”

Na obra das duas poetas, as lutas femininas são um tema central. Lilly tanto volta no tempo para dar voz à mulher indígena catequizada à força por representantes de um Deus cruel, quanto retrata a submissão cotidiana e sempre presente das mulheres vítimas de feminicídio. Para Valéria, é a palavra/poesia que trará a redenção para essas vozes femininas diversas, que será a grande libertadora do cotidiano com suas obrigações e violências. Aliás, a arte poética enquanto espaço de luta transparece nas obras de ambas como forma de buscar uma vida plena e igualitária, como nos mostram esses versos:

“O masculino de/ Mulher é a Mulher mesma./ A maciez da rosa vale a dor dos espinhos./ Mas ainda há gigantes a serem mortos…” Transcendência, de Valéria Valle

E esse fragmento: “Eu me atrevi a nascer ‘mulher’, num mundo machista e castrador; […] Eu me atrevi a nascer com alma, num lugar onde todos só têm fome de carne.” O avesso das coisas, de Lilly Araújo.

Simone Athayde é escritora, membro da Academia Anapolina de Letras e da União Literária Anapolina. É colaboradora do Jornal Opção.

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