Herbert Moraes
Herbert Moraes

Visita de príncipe inglês visa usar Israel como ponte para melhorar relação com Trump

O futuro rei William, além do aspecto político, visitou o país onde está enterrada uma parente, a princesa Alice, que era surda, salvou judeus e se tornou freira

O príncipe William, sua parente Alice Battenberg e Sigmund Freud: ela era ninfomaníaca e chegou a dizer que havia feito sexo com Jesus Cristo

Entre tantas histórias que envolvem a família real britânica, uma das mais interessantes e heroicas conta a saga da sogra da rainha Elizabeth II, a princesa Alice de Battenberg. Ela nasceu no palácio de Buckingham em 1885 e está enterrada em Jerusalém, precisamente na igreja ortodoxa de Santa Maria Madalena, no Monte das Oliveiras, onde, na semana passada, o duque de Cambridge, William, prestou homenagens a bisavó.

Até hoje, muitos procuram evitar o nome de Alice de Battenberg pelos corredores de Buckingham e Windsor. Trata-se daquele parente, no caso membro da família real, do qual ninguém fala porque segue um caminho atípico.

Alice nasceu surda, e sua mãe ensinou-lhe, desde cedo, leitura labial. Por isso, a princesa sempre pôde conversar normalmente, sem dar a impressão de que não escutava absolutamente nada.

Além do inglês, a mãe do príncipe Philip falava também francês, grego e alemão. Alice casou-se com o príncipe Andrew da Grécia e Dinamarca aos 18 anos, em 1903. Teve seis filhos, cinco meninas e um menino, o futuro marido da rainha da Inglaterra, Philip.

Mas a princesa era infeliz, pois a demora para engravidar de um varão desgastou o casamento. O rei da Grécia tinha várias amantes, e Alice, esquecida pelo marido, tornou-se obcecada por assuntos religiosos e sexo. Os membros da família real tachavam-na de histérica. O fato de dizer que teve relação sexual com Jesus Cristo não pegava bem para uma princesa.

Alice acabou internada numa clínica psiquiátrica, onde foi tratada por ninguém menos que o psicanalista vienense Sigmund Freud. O especialista, acreditando que o problema de Alice era hormonal, sugeriu que a solução era aplicação de radiação intensa nos ovários.

Depois da “terapia”, Alice foi trancada num hospício na Suíça e impedida de ver os filhos, inclusive Philip, durante anos. Quando, finalmente, “aprendeu a conter” sua libido, a família real autorizou a saída.

A princesa voltou para a Grécia, onde fundou uma instituição de caridade que ajudava feridos de guerra. Foi nessa época, em 1943, que a princesa escondeu em seu palácio, em Atenas, três judeus, durante a ocupação nazista na Grécia.

Alice usava a surdez para despistar a Gestapo. Quando os oficiais batiam à sua porta para realizar buscas, os convencia de que não podia entendê-los, e por isso não poderiam checar a propriedade. Por causa desse e outros esforços, a família Cohen foi salva e hoje seus descendentes moram na França.

As ações da princesa colocaram seu nome no rol dos justos entre as nações, uma homenagem de Israel e do Museu do Holo­caus­to, em Jerusalém, aos não judeus que salvaram judeus du­rante a Segunda Guerra Mundial (entre os justos estão os brasileiros Souza Dantas, embaixador na França, e Aracy Moebius de Car­valho Guimarães Rosa, mulher de Guimarães Rosa, que era cônsul em Hamburgo, Alemanha).

Alice continuou a dedicar sua vida a ajudar os outros. Criou uma ordem religiosa, virou freira e missionária. Em 1967, quando a família real da Grécia foi expulsa do país, seu filho, que já estava casado com Elizabeth havia 20 anos, levou a mãe de volta a Buckingham, onde ela morreu, aos 89 anos. De 1969 até 1988, os restos mortais de Alice estavam em Londres. Em 1989, atendendo um pedido da mãe, Philip a enterrou novamente Jerusalém.

Jogada política

O duque de Cambridge foi o terceiro membro da família real a prestar homenagens a Alice na cidade santa. Além de Philip, o príncipe Charles também visitou a cripta real, no Monte das Oliveiras, em 2016, logo após o funeral do ex-presidente de Israel Shimon Peres.

O que pouco se fala é que, apesar da princesa até hoje receber todas as honras pelo ato heroico, três de suas cinco filhas casaram-se com integrantes de alta patente da SS, a tropa de elite dos nazistas. Uma foto da época mostra o jovem príncipe Philip no cortejo fúnebre de sua irmã e marido pelas ruas de Berlim.

Antes do casamento de Elizabeth, em 1947, havia rumores e preocupações “reais” de que Philip não poderia ser o marido da futura rainha da Inglaterra dado os laços de sua família com os nazistas.

Uma irmã de Philip, Sophie, que era casada com um oficial próximo a Hitler, deu o nome de Karl Hitler ao segundo filho, numa homenagem explícita ao führer nazista.

Mas tudo isso é história, e muitas, que envolvem a família real, são de arrepiar. A vida da princesa que era surda e ninfomaníaca e virou freira é apenas uma delas.

A cripta da princesa foi a última parada da visita oficial do futuro rei da Inglaterra, William, em Israel. Foi a primeira vez, em 70 anos, desde a criação do Estado judeu, que um membro da família real visitou o país oficialmente.

A cortesia é do governo da primeira-ministra da Inglaterra, Thereza May, que, num gesto amigável, enviou o segundo na linha de sucessão do trono britânico para celebrar os 70 anos da criação de Israel. Ao contrário do que se pensa, a família real não pode decidir para onde ir nas visitas oficiais internacionais. A viagem do duque de Cambridge ao Oriente Médio foi, desde o início, uma decisão diplomática com o aval do governo britânico.

Os tempos são outros. O Reino Unido, que se prepara para deixar a União Europeia, nunca se sentiu tão isolado, e precisa, mais do que nunca, de aliados. Israel, é um desses parceiros, que, na atual situação geopolítica mundial, é seminal ter ao lado.

A premiê britânica Thereza May, que tem uma péssima relação com o presidente americano Donald Trump, não enviou William a Israel sem motivos fortes.

A Inglaterra precisa dos Estados Unidos para sobreviver, e nada melhor do que adular o melhor amigo de Donald Trump: o primeiro-ministro de Israel, Benyamin “Bibi” Netanyahu.
Londres acredita que Bibi pode fazer a ponte para uma nova relação entre o Reino Unido — pós-Brexit — e os Estados Unidos de Donald Trump. Se William cumpriu a missão? Vamos saber nos próximos dias. l

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