Herbert Moraes
Herbert Moraes

Uma nova era saudita

Novo coroado assume e deixa claro que quer que a Arábia Saudita torne-se o maior líder regional

Novo príncipe saudita Mohammed bin Salman: transmissão do poder sem derramamento de sangue real | Foto: Reprodução

Pouca gente notou, mas na semana passada, uma ocasião pra lá de importante aconteceu no palácio real em Ryad, na Arábia Saudita. Foi anunciado a coroação do novo príncipe saudita Mohammed bin Salman. Durante o evento ele se ajoelhou e beijou a mão do príncipe que saia de cena, Mohammed bin Nayef. Muita gente chegou a comparar a coroação com um outro evento que ocorreu no mesmo palácio em 1964 entre o rei Faisal, que começava ali o seu reinado, e o que estava de saída, seu irmão, o rei Saud, que preferiu o “exílio” na Grécia. Em 1964, o rei Faisal também beijou a mão de seu irmão, e logo depois disse: “que Deus te ajude”, o rei que deixava o trono, assim como ocorreu com o principe na semana passada, replicou: “que Deus te estime”.

É assim que funciona a democracia saudita. E para o crédito da família real, é importante registrar que a troca de poder entre os sauditas, mesmo quando houve o uso da força, nunca teve o sangue real derramado. Pelo menos entre a classe dominante. Entre os corredores do palácio corre a velha máxima de que o dinheiro cura as feridas. Os bilhões de dólares que são garantidos para o príncipe que deixa o poder é o que provém a manutenção da paz na família real saudita.

Mas as coisas estão mudando por ali, e não é pra melhor. É sabido que abastados como os príncipes sauditas, normalmente, tentam manter a aparência de que vivem modestamente. Isso, segundo a tradição local, é para afastar o “olho grande” dos invejosos e a revolta das massas que vivem na pobreza cercados de palácios reluzentes. Sempre foi assim. E dessa forma, por uma geração, os sauditas reais trabalharam quietos e mantendo as riquezas longe da cobiça alheia. Agora o reino decidiu expor seu lado beligerante, e passou a se comportar com brutalidade e impaciência, abandonando o velho provérbio árabe: “Não seja cabeça, porque ela sempre sentirá as dores”.

O novo príncipe coroado já recebeu todos os poderes que lhe são devidos, e ele deixou claro que quer que a Arábia Saudita torne-se o maior líder regional. Afinal de contas o país é tão ou mais rico e poderoso que outros países do Oriente Médio com mais influência, como a Turquia, Egito ou o Irã. Os primeiros passos nessa mudança de rumo começaram a ser dados em 2015, com uma grande operação militar contra a milícia rebelde Houthis no Iêmen. Mais de dois anos se passaram, e ao que parece deverá continuar ainda mais feroz e contra outros alvos. O palácio real chegou à conclusão de que só vai vencer os Hou­this se “limpar” seus arredores. E a limpeza passa pelo Catar. O cer­co ao país, que já começou, é apenas uma introdução do que está para vir e que começou a tomar formas: um conflito contra o Irã.

A questão é saber se os sauditas estão dispostos a assumir o posto de líder regional, e de usar o mesmo dinheiro, que durante anos, comprou regimes, movimentos políticos, líderes e intelectuais, para comprar tanques, aviões de guerra e todo tipo de armamentos. Aparentemente esse é o caminaho que a família real saudita deveré seguir. Vem aí uma nova Arábia Saudita.

O reflexo da mudança de rumo do reino saudita no mundo árabe será negativo. Os outros países, muito mais pobres, não vão conseguir caminhar juntos. A corrida armamentista que isso vai provocar na região deixará os outros países que compõe o mundo árabe ainda mais pobres. Para cada rifle comprado, uma criança está fadada a viver na miséria e com fome. Mas nesse caso, o bem-estar social pode esperar, pensam os sauditas.

No passado, também, nos tempos em que a política era feita à portas fechadas, a Arábia Saudita limitou-se a ditar as regras do jogo na região exportando o fanatismo religioso na forma da ideologia Wahhabi, a mãe de todos os movimentos fanáticos. Por outro lado, eles se alinharam completamente, em todas as áreas, com os britâncos e depois com os americanos. O fundador da Arábia Saudita, rei Abdulaziz, formou uma aliança com o movimento Wahhabi, e ao mesmo tempo, engenhosamente, explicou que suas ações estavam de acordo com o espírito do Islã. Certa vez, durante seu reinado, pediram uma explicação do emir sobre o dinheiro que ele recebia do Reino Unido. Ele respondeu ex­plicando que o que recebia na verdade era um tipo de taxa que ele impôs aos britânicos infiéis e pecadores. Com relação à exploração do petróleo por compahias britânicas, os clérigos sauditas durante anos explicaram aos súditos, em nome do rei, que o óleo é uma espécie de ouro negro, e que é proibido pelas leis divinas mantê-lo debaixo da terra. Agora, também, a realeza saudita deverá contar com o stablishment religioso pa­ra apoiar as atividades do novo príncipe.

Os anos 1970 são considerados a era de ouro do reino saudita, e assim co­mo o petróleo que jorrava, bilhões de dólares foram desperdiçados. Mas toda bênção vem acompanhada de uma maldição, e depois de ter iniciado uma série de conflitos, no Iemên e no Catar, a era saudita, gradualmente, está acabando. Uma prova de que até os super-ricos podem empobrecer.

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