Herbert Moraes
Herbert Moraes

Uma armadilha chamada Síria

Ao abater o caça russo, a Turquia mostra as garras, expõe a frágil relação com os russos e se torna mais um problema na região que está prestes a explodir

Há exatos dois meses, os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, foram fotografados juntos na cerimônia de inauguração da grande mesquita de Moscou. Naquele dia, Putin discursou sobre o Islã e aproveitou para descredenciar qualquer tipo de conexão entre o grupo Estado Islâmico e a religião dos muçulmanos. Quando saíam da mesquita, o porta-voz do Kremilin chegou a dizer que o encontro não poderia ter sido melhor, que produziria cooperação econômica em larga escala para os dois países, e que Erdogan e Putin haviam encontrado a solução para a guerra na Síria. No começo deste mês, os dois se reencontraram na cúpula do G20 em Antália, na Turquia. E lá, mais uma vez, demonstraram que estavam juntos na guerra contra o inimigo comum, apesar das diferenças. Na terça-feira, 24, assim que foi confirmado que o jato abatido pelas forças turcas na fronteira da Síria com a Turquia era russo, ficou bem claro que vai demorar muito tempo para que os dois líderes façam pose de “amigos para sempre” em frente às câmeras.

O incidente detonou o que restava de aparências. Na verdade, há algum tempo as relações entre a Rússia e a Turquia iam de mal a pior. Logo que voltou de Moscou, Erdogan declarou que não se importava que o governo de transição na Síria tivesse a presença de Bashar al-Assad. Foi uma guinada no discurso da Turquia, que desde o início da guerra civil no país vizinho exigia a saída de Assad antes de qualquer tipo de discussão sobre o futuro da Síria. No entanto, no dia seguinte, o presidente turco recuou e afirmou que a política da Turquia para a Síria continuava a mesma. Moscou exigiu uma retratação de Ancara, mas recebeu respostas ambíguas. No final de setembro, assim que começou os bombardeios na Síria, a Turquia reclamou afirmando que os russos estavam atingindo forças rebeldes e não o Estado Islâmico, e que a intenção dos russos era garantir Bashar al-Assad no poder.

Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do Estado Islâmico, deve estar satisfeito com os últimos acontecimentos no front. Afinal, o que seria melhor para o grupo terrorista do que uma guerra entre a Turquia e a Rússia? O homem que tomou parte do Iraque e da Síria agora pode respirar aliviado e relaxar no buraco em que deve estar escondido, para assistir, de camarote, a guerra diplomática que deverá tragar também os Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e a OTAN.

Outro que também está contente com os fatos é o presidente-ditador Bashar al-Assad. O que restou do seu território agora conta não apenas com a defesa da força aérea russa, mas também com mísseis balísticos lançados do Mar Cáspio. As baterias antimísseis S-400 que ele tanto queria, e a comunidade internacional não permitiu, agora estão estacionados ao longo de toda a fronteira de seu território e devem garantir a defesa contra ataques aéreos dos inimigos. O acerto de contas que Assad prometeu a Erdogan assim que a guerra civil terminasse está sendo feito pelos russos, que já impuseram sanções à Turquia, proibindo que seus cidadãos visitem o país. E a Rússia deverá congelar todos os investimentos em comum.

As gravações que provam que houve comunicação entre os pilotos da força aérea turca e os do jato russo, apresentadas pelo governo da Turquia, não amenizaram o clima com a Rússia. Vladimir Putin quer saber por que o ministro da Defesa da Turquia não usou o telefone vermelho diretamente ligado ao Kremlin e ao Ministério da Defesa da Rússia (instalado desde setembro) para informar as coordenadas aéreas corretas. E mesmo que o avião russo tivesse invadido o espaço aéreo turco, isso justificaria abater a aeronave, quando se sabe que ela não tinha intenções de atacar a Turquia? Os russos concluíram que a ação turca foi uma punição planejada, a fim de chamar a atenção de Moscou pelo apoio a Assad. Os turcos só estavam esperando a oportunidade.

O único problema para os russos é que eles precisam da Turquia econômica e também diplomaticamente, para implementar seu plano que visa encerrar a guerra civil na Síria. A Turquia tem grande influência sobre as milícias rebeldes sírias desde que passou a ajudá-las com armamentos e dinheiro. Se a Turquia se negar a cooperar com o plano russo, os esforços diplomáticos serão em vão. Dois dias depois do incidente foi a vez de Vladimir Putin escancarar de vez, ao dizer que o Estado Islâmico conta com “a proteção militar de uma nação inteira” . Não é preciso muito esforço para entender que o presidente russo se referia diretamente à Turquia.

Os turcos têm todos os motivos para tentar conter a crise com a Rússia, isso, é claro, se quiserem ter algum tipo de influência sobre os esforços para encerrar a guerra na Síria. Mas, assim como em outras vezes, considerações racionais deverão ser esmagadas pelo ego de Erdogan ou o de Putin.

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