Herbert Moraes
Herbert Moraes

Um ditador em apuros

Com o avanço dos rebeldes e do Estado Islâmico, e sem tropas suficientes, a situação do ditador Bashar al-Assad vai se complicando, e o fim parece cada vez mais próximo

Bashar al-Assad: situação  do ditador na guerra nunca esteve tão ruim e seus dias parecem estar contados | Foto: Yuri  Kadobnov/AFP

Bashar al-Assad: situação
do ditador na guerra nunca esteve tão ruim e seus dias parecem estar contados | Foto: Yuri Kadobnov/AFP

Discussões violentas no trânsito muitas vezes terminam em tragédias. Aqui em Israel, depois que um homem foi assassinado porque brigou com outro motorista por uma vaga de estacionamento num shopping center há 6 anos, a Universidade Hebraica de Jerusalém resolveu ir a fundo no assunto, e estudos mostraram que o desentendimento entre motoristas pode resultar não somente em morte violenta, como também em uma parada cardíaca tão mortal quanto a bala de um revólver. Mas, quando uma briga de trânsito acontece na Síria, o desfecho pode ser ainda pior, até mesmo catastrófico.

E foi justamente isso que aconteceu na semana passada, quando o general Hassan Mahmoud al-Shaikh foi assassinado por um parente próximo do ditador sírio Bashar al-Assad.
Segundo testemunhas, Shaik não teria permitido a ultrapassagem de Suleiman al-Assad. Quando finalmente conseguiu passar o carro do general, Assad interrompeu o trânsito, saiu do veículo apontando a arma para o militar e atirou na cabeça dele, bem em frente da esposa e dos filhos.

Nos últimos cinco anos de guerra civil, a Síria foi e é o palco de atrocidades e mortes ainda mais violentas que a de Shaik, e a morte dele certamente não repercutiu entre os familiares das 250 mil pessoas que já morreram no conflito. No entanto, para o ditador, o assassinato do general não poderia ter vindo em pior hora.

O militar de alta patente comandava voluntariamente a Força de Defesa Nacional em Latakia, região considerada o último bastião que ainda apoia o governo de Bashar al-Assad, onde praticamente toda a população é de origem alauita, o clã ao qual o presidente sírio também pertence. Eles representam 10% da população do país. A Força de Defesa Nacional tem um nome pomposo, mas trata-se de gangues armadas, conhecidas também por “Shahiba”, espalhadas por todo o país, primeiramente para conter os protestos antigoverno e, hoje, para combater os rebeldes juntamente com o exército sírio.

Para complicar ainda mais a situação de Bashar al-Assad, o assassino do general é filho de um primo do presidente, Hilal al-Assad, um ex-comandante da mesma Força de Defesa Nacional de Latakia, que foi morto pela Al-Qaeda em 2013. Hilal foi substituído pelo filho Suleiman al-Assad, que tratava a população local como sua propriedade, instalou postos de controle em vários vilarejos, ameçava e matava quem não seguisse suas ordens. Desde a quinta-feira passada, quando matou o general, que na escala hierárquica das milícias era seu chefe, Suleiman al-Assad fugiu para o Líbano e desapareceu.

O assassinato provocou protestos violentos, não somente em Latakia, mas também nas regiões que o governo sírio ainda controla, e que representam apenas 25% do que a era a Síria cinco anos atrás. Nos últimos dias o número de deserções de voluntários que lutavam junto à Força de Defesa Nacional não para de subir. Os que lutavam por Assad, agora estão se juntando aos rebeldes. Uma dor de cabeça muito maior para o ditador do que apenas acalmar a família da vítima, que exige a execução do assassino. As acusações inundaram as redes sociais, e as ameaças também. Os alauitas estão divididos entre os que apoiam o governo e os que são contra a morte dramática do general que os defendia.

Latakia é um distrito controlado por importantes famílias. A morte do membro de uma delas pode provocar reações em cadeia que certamente vão terminar em revolta, numa das poucas regiões que ainda está sob o controle geral do governo sírio. Ciente disso, Bashar al-Assad passou para sua irmã Bushra al-Assad (talvez o único membro da família que ainda tem boa reputação) a missão de acalmar o distrito. Bushra enviou o filho Basel para conversar com a família da vítima e encerrar a crise que pode incendiar Latakia.

Em outros tempos, antes da guerra que destruiu o país, se um fato como esse acontecesse, certamente nenhum dos Assad se preocuparia em se desculpar com a família do morto. Mas com a forças rebeldes se aproximando das fronteiras de Latakia, o esfacelamento do exército sírio e o número de soldados reduzido, Assad não se pode dar ao luxo de perder mais homens por deserção e muito menos abrir caminho para uma revolta em seu último território.

A situação do ditador na guerra nunca esteve tão ruim. Enquanto os rebelde do Exército Livre da Síria avançam de um lado, o Estado Islâmico, também conhecido por ISIS ou ISIL, continua a expandir na área rural do distrito de Homs e está bem próximo de conquistar a cidade de Homs. Assad não possui tropas suficientes para bloquear o avanço nem dos rebeldes nem do ISIS. Latakia ficará isolada. E foi por isso, que nos últimos dias o ditador acenou para a possibilidade de uma iniciativa diplomática encabeçada pela Rússia e Irã para tentar negociar com os rebeldes. Mas é tarde demais, os inimigos de Assad acreditam que ate o fim do verão, que termina no mês que vem, terão conquistado boa parte do território sírio. A era Assad na Síria parece estar com os dias contados.

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