Herbert Moraes
Herbert Moraes

Terror online

No século 21, para cometer um atentado terrorista, só é preciso apertar Enter

Omar Mateen: ao matar 49 pessoas numa boate, seu objetivo era garantir a máxima duração do show de horror

Omar Mateen: ao matar 49 pessoas numa boate, seu objetivo era garantir a máxima duração do show de horror

Pouco mais de uma semana depois do maior massacre da história moderna dos Estados Unidos, os americanos ainda têm perguntas que não foram propriamente respondidas pelas autoridades que cuidam do caso. Ao reconstruir os fatos da noite sangrenta no clube gay Pulse, em Orlando (EUA), informações sobre as três longas horas em que o terrorista Omar Mateen manteve reféns sob sua mira, dentro de um dos banheiros da boate, ainda não tinham sido disponibilizadas. As pessoas que estavam com ele no lavatório foram mortas, portanto só a polícia poderá contar o desfecho da tragédia que matou 49 pessoas e feriu mais de 50.

Por enquanto, somente informações parciais estão sendo disponibilizadas. Às 2 horas da manhã, Omar se entrincheirou no banheiro com dezenas de reféns que se esconderam ali durante o tiroteio incial, e acabaram mortos pelo americano de origem afegã. As 5h20, a polícia finalmente resolveu entrar no local. Matten foi morto em seguida. Segundo relatos de sobreviventes, a pista de dança da boate virou uma piscina de sangue com dezenas de corpos. O terrorista depois de matar as pessoas ainda atirava várias vezes nas vítimas para ter certeza que estavam mortas.

Ainda não se sabe, por exemplo, se houve negociação entre o terrorista e os policias para libertar os reféns. Nem se as 49 pessoas mortas foram atingidas por Mateen ou no meio do fogo cruzado. Uma situação de resgate de reféns como essa geralmente termina com mortes, e a polícia sabe disso. As autoridades americanas contam com unidades policiais de resgate, mas eles estão acostumados a lidar com violência doméstica e não com terror dentro de casa.

Ao que parece um novo tipo de terrorismo está emergindo, e os governantes e seus serviços de segurança de países que são alvo de atentados agora é que passaram a entender que o terror ganhou uma nova cara. Quem entra numa boite armado para cometer um massacre como Omar Mateen, sabe que o fim da história é a sua própria morte. Por isso, mesmo um lobo solitário como ele entende que ao manter reféns por algumas horas numa situação como a do clube Pulse, o objetivo não é de negociação, mas sim garantir a máxima duração do “show de horror” e do drama que a certa hora já estava sendo transmitido ao vivo. O assassino queria chocar e aterrorizar não só a comunidade gay americana, mas o mundo inteiro.

O ataque em Orlando não foi o último desse tipo. Outros virão e não só nos Estados Unidos. Com a a aproximação das Olimpíadas do Rio, o Brasil está na mira, e os serviços de inteligência como a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), sabem disso. Lobos solitários ou células de terror adormecidas, inspirados por grupos islâmicos radicais mas não propriamente afiliados a eles. Este é o novo perfil do terror que está forçando as autoridades a mudarem a doutrina operacional de combate ao terrorismo.

Enquanto isso, o debate que se estabeleceu na América para denominar o que aconteceu em Orlando continua. Não é apenas o politicamente correto Barack Obama a causa do problema. Sua hesitação ao lidar com os assuntos do Oriente Médio torna o trabalho dos investigadores ainda mais complicado ao não admitir o contexto radical islâmico por trás do ataque, apesar da montanha de evidências. Ao explorar o assunto em seu discurso, o candidato republicano, Donal Trump, aproveitou para criticar os democratas e mais uma vez anunciar o banimento de muçulmanos dos Estados Unidos caso seja eleito. O efeito foi imediato e fez com o que o presidente americano fosse a público se explicar, com muito mimimi, porque qualificou a ação de Mateen como um “ato de terror” e não terrorismo em nome de uma religião e seus radicais.

Segundo a investigação conduzida pelo FBI, durante as três horas que ficou no banheiro da boate com reféns, Mateen expressou, através de telefonemas para a polícia, soldariedade com diversos grupos radicais, sunitas e xiiitas, entre eles o Hezbolá no Líbano e o Al Nusra na Síria, e ju­rou lealdade ao Estado Islâmico.

Não é dificil qualificar o ataque. O que aconteceu em Orlando foi um atentado islâmico terrorista direcionado à comunidae LGBT. As vítimas eram homossexuais, mas os investigadores não trabalham com a possibilidade de crime homofóbico, apesar dos rumores de que Matten também era gay.

Ao mesmo tempo, é um exagero identificá-lo como um “soldado” do Estado Islâmico, como o próprio grupo tentou fazer ao anunciar a responsabilidade pelo ataque nas redes sociais. Assim como atentado em San Berna­dino em dezembro, na Califórinia, quando um casal muçulmano matou 14 pessoas, o massacre do clube Pulse foi inspirado pelo Estado Islâmico, mas a logística e a direção não foram providenciados pelos extremistas.

O jeito ISIS de fazer terror não necessita de comando, principalmente nos Estados Unidos, onde é tão fácil comprar armentos como o fuzil AR-15 utlizado por Omar Mateen. A incitação on-line já é suficiente para criar um exército invisível de terroristas prontos para entrar em ação. No século 21, para cometer um atentado terrorista, só é preciso apertar o Enter.

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