Herbert Moraes
Herbert Moraes

Sauditas afirmam que xiitas não são muçulmanos

A batalha entre os sunitas da Arábia Saudita e os xiitas já dura 13 séculos e parece que não vai acabar nunca

Milhares de muçulmanos se encontram na peregrinação do Haji, na Arábia Saudita: caminho aberto para tragédias

Milhares de muçulmanos se encontram na peregrinação do Haji, na Arábia Saudita: caminho aberto para tragédias

“Estou morrendo, preciso de água”. “Estão me pisoteando, socorro”. Esses são pedidos desesperados que muitos dos muçulmanos que conseguiram sobreviver à tragédia do ano passado em Meca, na Arábia Saudita, ainda se lembram. Sob o sol escaldante do deserto, naquele terceiro dia de penitências a Alá, milhares de pessoas foram esmagadas por outros milhares durante a peregrinação do Haji, um dos pilares do Islã, que leva milhões de pessoas, todos os anos, a Meca e Medina. É um dever de quem segue a religião de Alá, visitar os lugares sagrados por onde Maomé passou, pelo menos uma vez na vida.

Era 24 de setembro de 2015, du­ran­te a peregrinação, que dura cinco dias, a data mais mortal da história do Haji, uma onda humana se encontrou com outra na interseção de uma ponte que faz parte do caminho da peregrinação: Jamarat, onde os fiéis muçulmanos arremessam pedras contra três pilares num ritual que simboliza o apedrejamento do demônio. Milhares de pessoas morreram esmagadas. Foi um dos piores acidentes do mundo, em décadas. Quase um ano depois, mi­lhões de muçulmanos estão de volta, e os sauditas ainda não conseguiram explicar o que de fato aconteceu. Não conseguiram, sequer, atualizar o número de mortos. Muitas vítimas vinham do Irã, inimigo mortal da Arábia Saudita. A tragédia acabou criando ainda mais tensão entre os dois países e levou o Irã a proibir que seus cidadãos participassem do Haji este ano.

Em 2006 um encontro de massas também ocorreu no mesmo lugar e deixou 360 mortos. Na época, os sauditas prometeram encontrar uma solução para prevenir outras calamidades, e a ponte foi expandida. Tudo correu bem nos Hajis que vieram, até que no ano passado, “o diabo” de Ja­ra­mat voltou a entrar em ação, e lá se fo­ram outros milhares de peregrinos. Os números oficiais, segundo o go­verno saudita, chegam a 769 mortos naquele dia, mas outras fontes falam em 2.400 peregrinos mortos de mais de 30 países. Mas apesar das críticas e acusações de má administração dos locais mais sagrados do Islã, a realeza saudita insiste em manter o controle total ao supervisionar o Haji. Para os reis sauditas isso é um direito, já que a família seria descendente direta de Maomé. Nos últimos anos, os sauditas investiram bilhões de dólares para expandir o local onde fica a Kaaba, que é um pedra negra em forma de cubo situada bem no centro da principal mesquita de Meca. A cada Haji, 3 milhões de pessoas, durante cinco dias, dão várias voltas em torno dessa pedra, que nada mais é do que um meteorito.

Esta semana, dois dias ante do início do Haji, um alto líder religioso saudita declarou que os iranianos não são muçulmanos. A fala veio como insulto aos ayatolás que responderam de imediato, afirmando que os sauditas são despreparados e não têm competência para supervisionar a maior celebração do mundo islâmico. A troca de farpas provocou ainda mais tensão entre o reino sunita e a potência xiita revolucionária. O aiatolá Ali Khamenei, a autoridade máxima do Irã, chegou a dizer em seu mais recente discurso, que peregrinos iranianos que morreram no Haji do ano passado foram assassinados pelas autoridades sauditas, e ainda complementou chamando a família real de pessoas “sem Deus, sem religião”. Para os guardiões de Meca e Medina a fala de Khamenei é mais que um insulto, é praticamente uma declaração de guerra.

Ao responder uma pergunta do jornal saudita “Makkah”, o Grande Muftida da Arábia Saudita, sheik Abdullazzis al-Sheik escancarou o que os árabes pensam dos persas há mais de 13 séculos: “Temos que entender que eles não muçulmanos… Seus maiores inimigos são os seguidores de Sunnah (sunitas)”. O sheik ainda alfinetou salientando que os iranianos e seus líderes são filhos de “magus”, uma referência ao zoroastrismo, que era a religião dominante na Pérsia até a invasão dos árabes há 1.300 anos.

As autoridades sauditas normalmente evitam esse tipo de discussão, se os xiitas são muçulmanos ou não, mas implicitamente os reconhece e ainda permitem que participem do Haji. A tensão en­tre as duas potências do O­riente Médio aumentou no início do ano quando Ryiad cortou relações com Teerã depois da invasão e destruição da embaixada da Arábia Saudita na capital iraniana, logo após a execução de um clérigo xiita que estava sob a custódia do reino.

A divisão entre os dois maiores grupos do Islã, xiitas e sunita, vem desde a morte do fundador da religião: Maomé. Enquanto os sunitas se dizem os verdadeiros seguidores do profeta, os xiitas acreditam que os descendentes de Maomé, como Ali seu sobrinho e o preferido para sucedê-lo são, na verdade, os immans que formam uma linhagem divina. Até hoje, são esses mesmos motivos que ainda provocam guerras e disputas no mundo muçulmano. A divisão é tão latente que nem mesmo a interpretação da lei islâmica é a mesma entre eles. O ensinamento wahhabi que os sunitas e o clérigo saudita seguem sobre o Islã é incompatível com a doutrina xiita sobre os immans, que são as autoridades religiosas. Para os sunitas, ao reverenciarem homens como semideuses, os xiitas deixam de seguir o conceito monoteísta da religião: um só Deus, um só profeta.

O governo iraniano quer a punição dos sauditas sobre o massacre do ano passado. Hassan Houhani, o presidente do Irã, foi duro quando falou sobre o assunto durante a última reunião de seu gabinete, acusando os sauditas de não fazerem absolutamente nada enquanto pessoas morriam pisoteadas em Meca. “Infelizmente esse país não se dignou sequer em pedir desculpas ao mundo muçulmano pela tragédia”, disse um Houhani enfurecido. Coisa rara de ser ver, já que o presidente é conhecido por sua calma permanente. Nas redes sociais o ayatolá Khamenei foi ainda mais longe e criou alguns hashtags que certamente deixaram os sauditas ainda mais fastidiosos: #alSaudiHijacksHaji que nada é mais do que um “vocês se­ques­traram o Haji” e ainda ordenou que alguém ou alguma entidade islâmica que não os sauditas administrem o Haji. E a celebração só está começando!

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Marcelo Emanoel

Lendo essa matéria, não sei se o jornalista está falando sério contando a história ou sendo sarcástico com o Islamismo.