Herbert Moraes
Herbert Moraes

Rússia, EUA e Israel criam “poligamia” política que reduz crise e pode gerar paz

As palavras de Donald Trump podem não ser meras bravatas, pois contribuem para rearticular nova geopolítica no Oriente Médio

Benyamin Netanyahu, Vladimir Putin e Donald Trump: articulação dos 3 políticos pode gerar um período mais pacífico no Oriente Médio; e o belicismo pode ficar circunscrito mais às palavras, à retórica política

Há meses que o premiê de Israel, Benyamin Netan­yahu, vem passando por uma fase difícil nos assuntos internos do país. A situação no norte, na fronteira com a Síria, nunca esteve tão tensa. No sul, na fronteira com Gaza, o fogo, provocado por balões incendiários lançados por militantes do Hamas, já queimou florestas, reservas, fazendas e chegou aos vilarejos. Bibi, como é chamado pelos israelenses, junto com a mulher, Sara Netanyahu, enfrenta várias investigações sobre corrupção, troca de favores e até maus-tratos a funcionários. A polêmica lei que declara Israel como Estado estritamente judeu está, literalmente, explodindo na cara do primeiro-ministro, que agora enfrenta a ira de outras minorias, como os drusos e os beduínos. Tudo isso faz da vida doméstica de Netanyahu um mar de problemas, que pode inundar os planos políticos do primeiro-ministro nas eleições de 2019.

No entanto, se em casa os dias são inglórios, no cenário internacional uma aura branca cobre o premiê, e faz dele a chave diplomática das conversas entre duas superpotências. Netanyahu tornou-se o elemento indispensável na relação problemática entre o Kremlin e a Casa Branca. O israelense é o único líder mundial exaltado tanto por Donald Trump quanto por Vladimir Putin, com quem negocia de igual para igual. Nunca, na história de Israel, houve um primeiro-ministro com tanta influência global como Netanyahu.

As arestas com Putin foram compostas ainda nos tempos de Barack Obama, quando a relação entre o Estado judeu e os Estados Unidos chegaram ao pior nível devido as diferenças que marcaram o presidente democrata e o líder israelense. A eleição de Donald Trump gerou um salto quântico. Diferente de Obama, Trump compõe com Netanyahu, o elogia incessantemente e faz questão de mostrar isso para o mundo. Bibi, por sua vez, já deixou para trás os insultos da era Obama e emergiu como articulador, conselheiro-mor e até consultor secreto para o presidente americano. Enquanto o mundo inteiro criticou o encontro entre Putin e Trump em Helsinque, Netanyahu foi o único a elogiar. O mesmo aconteceu com os tweets de Trump sobre o Irã, quando o republicano ameaçou destruir o país persa. Até os americanos não gostaram, mas Bibi estava lá para dizer que a ameaça do presidente foi dura e precisa.

A Síria é o terreno onde o premiê israelense encontrou espaço para circular entre as duas potências. A Rússia, a partir de agora, controla o país, e quer Bashar al-Assad no poder como seu fantoche. Mas a possibilidade de uma guerra entre Israel e Irã pode colocar tudo a perder. Em outros tempos, o Kremlin estaria, neste momento, negociando com os Estados Unidos uma saída que pudesse colocar os dois lados na mesa de negociação. Mas, na era Trump, Putin prefere falar com Netanyahu, para que faça a ponte entre a Rússia e os Estados Unidos.
No vácuo de tudo isso, ainda está indiferença de Trump com o que ocorre na Síria. O americano já deu a entender que não está nem aí, e vai deixar que os russos terminem o que começaram nas terras de Assad. A maior preocupação do presidente americano é retirar, o mais rápido possível, os mais de 2 mil soldados americanos estacionados na região norte do país em guerra.

A essência de tudo é que Trump delegou autoridade a Netanyahu para negociar em seu nome com Putin. É como se o líder americano estivesse dizendo à Rússia e a Israel que fechem um acordo. Ele o assinará. Às vésperas do encontro de Helsinque, Netanyahu e Putin acertaram os ponteiros sobre a Síria. De Moscou mesmo o premiê ligou para Trump para explicar o que estava sendo negociado. Ao fazê-lo, conseguiu criar um elo entre os dois líderes que foi de­monstrado no encontro na Finlândia. No retorno, o premiê conseguiu com que Putin se comprometesse publicamente com a segurança de Israel e ganhou vários elogios do amigo Trump.

Há quem acredite que a mensagem ameaçadora do presidente americano contra os aiatolás tenha sido uma ideia do primeiro-ministro de Israel. O tweet de Trump dizia que os iranianos iriam sofrer consequências jamais experimentadas em toda a história do país. Ironi­camente, em Israel, o rugido de Trump contra a República Islâmica foi recebido com bocejos, seja porque esse tipo de ameaça do presidente americano pela internet já se tornou comum, ou porque os israelenses sabem que não devem levar os tweets de Trump tão a sério.

Se o benefício da dúvida for dado a Trump talvez seus tweets apocalípticos tenham alguma razão, e façam parte de um movimento sincronizado com Israel e a Rússia sobre o Irã. Por enquanto, conseguiu manter os persas na linha.

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Paulo

“O rudigo de Trump foi recebido com bocejos…” porque “os israelenses sabem que não devem levar os tweets de Trump tão a sério”? Não seria porque os israelenses agora podem contar com a proteção dos EUA e da Rússia? Sua matéria foi boa mas no fim mostrou sua raiva de ter Trump no poder como todo esquerdista. Mas tudo bem o choro é livre.