Herbert Moraes
Herbert Moraes

Retirada dos EUA da Síria sugere que Rússia e Irã podem dizer “enfim sós”

O anúncio do presidente americano de que vai retirar as tropas da Síria deverá afetar todo o Oriente Médio e aumentar ainda mais a influência de Vladimir Putin na região

 

Donald Trump, ao retirar as tropas americanas, está deixando o premiê Benyamin Netanyahu se virar sozinho na questão da Síria | Foto: Kobi Gideon/GPO via Getty Images

Ha poucas semanas, o premiê israelense Benyamin Netanyahu declarou que a permanência de tropas americanas na região era fundamenta, mas agora, aparentemente, Israel terá que se virar sozinho.

Desde a época da campanha presidencial americana, há pouco mais de dois anos, o republicano Donald Trump se mostrou irredutível sobre a possibilidade da permanência de tropas americanas na Síria. Mas o anúncio de que os militares vão para casa tem uma importância estratégica não só para a Síria, mas para todo o Oriente Médio, já que o que está em jogo é a influência dos Estados Unidos e da Rússia na região mais explosiva do planeta.

Em abril deste ano, o presidente americano havia declarado que a retirada das tropas americanas do território sírio aconteceria de qualquer maneira, mas, desde então, mudou de ideia várias vezes. Por causa disso, vem batendo de frente com o Pentágono e o Departamento de Estado. Há três semanas, o enviado especial dos Estados Unidos para a Síria, James Jeffrey, disse que a saída do contingente americano dependia de uma solução diplomática que estabelecesse um governo que não atendesse os desmandos de Bashar al Assad e se alinhasse à administração americana. O argumento de que “vitória” sobre o Estado Islâmico — até então a justificativa da presença dos EUA na Síria — foi substituído por uma nova razão de permanência: a implantação de um novo governo na Síria.

Há dois meses, Trump chegou a anunciar que enviaria mais 4 mil soldados para a Síria. Agora, tudo mudou novamente, e, segundo o próprio Trump, os diplomatas americanos deverão deixar o território sírio em 48 horas e o último soldado americano deverá sair do país em até cem dias. O argumento do presidente dos Estados Unidos é que os militares que estão na Síria já cumpriram a missão de derrotar o Estado Islâmico e que por isso devem voltar para casa imediatamente. O califado já não existe mais, entrou em colapso. No entanto, apesar de milhares de jihadistas ainda estarem em atividade, eles estão espalhados, e não há como se reagruparem novamente — já que o comando do grupo está praticamente destruído.

De acordo com o secretário de Defesa, James Mattis, ao focar na destruição do Estado Islâmico, o caminho para a vitória de Bashar al Assad na guerra civil ficou mais fácil. O ditador pode retomar áreas no sul do país que estavam sob o controle dos terroristas. Com a derrota, os Estados Unidos mantiveram, até agora, a presença em duas regiões da Síria: o território onde estão os curdos, no nordeste do país, e um enclave no sul, onde os americanos possuem um base aérea, próxima à fronteira com o Iraque e a Jordânia. A presença de tropas dos Estados Unidos nessas regiões é vista como um bloqueio à expansão iraniana na Síria, principalmente na área onde estão os curdos, já que impede que os iranianos abram um corredor que vai desde o Irã, passa pelo Iraque e Síria, até o Líbano. Ha poucas semanas, o premiê israelense Benyamin Netanyahu declarou que a permanência de tropas americanas na região era fundamental, mas agora, aparentemente, Israel terá de virar sozinho.

Nos últimos meses, a Rússia tem pressionado o Irã a reduzir o contrabando de armamentos para o Hezbollah, no sul do Líbano, através do território sírio, mas é a presença americana no sul do país em guerra que tem ajudado, e muito, a conter a fome expansionista iraniana na região.

A lista de países preocupados com a retirada dos Estados Unidos desse cenário caótico é longa, e incluem Israel, Jordânia, os Curdos e a Arábia Saudita. A presença americana nesta região permitia certa elasticidade militar, não só para Israel, mas principalmente para os sauditas — que já estão em guerra com o Irã no Iêmen. A retirada das tropas americanas dessa região significa que, a partir de agora, qualquer investida militar dos Estados Unidos na Síria vai depender de uma negociação complexa e longa entre a Casa Branca e o Congresso americano, já que qualquer movimento neste sentido seria interpretado como uma declaração de guerra. Trump está, mais uma vez, cumprindo uma de suas promessas de campanha ao trazer as tropas para casa, mas, ao mesmo tempo, retira os Estados Unidos de uma arena cujo impacto pode ser profundo. Moscou passa a ser definitivamente o dono da bola, e o seu maior parceiro na região, o Irã, também já está em campo. No novo Oriente Médio, os dois países podem finalmente dizer: “Enfim sós”.

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