Herbert Moraes
Herbert Moraes

A queda de Aleppo

Cidade é importante para os russos e para Bashar al-Assad, que poderá impor aos Estados Unidos uma negociação que lhe permita continuar no poder na Síria

Foto: REUTERS/Obeida Al Naimi

Foto: REUTERS/Obeida Al Naimi

A batalha por Aleppo ainda não acabou, mas, nas últimas semanas, os avanços das tropas do governo sírio sob a batuta russa, na parte leste da cidade, indicam que a vitória está próxima. As forças rebeldes já perderam metade da área que ainda era controlada por eles em Aleppo. Nos últimos dias, milhares de pessoas conseguiram fugir para a parte oeste da cidade que já está sob o controle do governo, assim como para algumas vizinhanças que contam com a proteção de milícias curdas, e a expectativa é que mais civis abandonem as ruínas de Aleppo nas próximas semanas. Mesmo assim, calcula-se que outros 200 mil civis ainda estão na zona de conflito, no meio do fogo cruzado.

O controle total de Aleppo marca uma virada na guerra civil que já matou 300 mil pessoas e criou milhões de refugiados. Aleppo é importante não somente pelo seu tamanho e localização geográfica: ao norte, a cidade está na rota de estradas que ligam a Síria a Turquia e a leste possui inteligações que levam a Raqqa, a capital do grupo terrorista Estado Islâmico na Síria.

Símbolo da resistência contra Assad, Aleppo é também o principal palco de disputa entre a Rússia e os Estados Unidos. Uma eventual vitória do regime na cidade será visto como um fracasso americano, já que são os Estados Unidos o país que mais apoia os rebeldes nessa disputa.

Os russos contam com a queda de Aleppo nos próximos dias. A intenção de Vladimir Putin é literalmente limpar a área antes da posse de Donald Trump na Casa Branca, que será no mês que vem. Com a situação em Aleppo sob controle do governo sírio, a Rússia acredita que será mais fácil reiniciar negociações diplomáticas com os Estados Unidos e pôr um fim ao conflito que começou em março de 2011.

Com a tomada de Aleppo, o ditador Bashar al-Assad desfere o golpe final contra seus opositores. Fortalecido, Assad poderá ditar as regras de um futuro acordo que irá garantir sua permanência no poder.

Há várias razões que explicam o enfraquecimento dos rebeldes em Aleppo, mas a principal delas é a ausência dos Estados Unidos da arena militar regional que foi totalmente ocupada pelos russos. As promessas feitas por Obama aos rebeldes não foram cumpridas. O presidente americano preferiu focar no combate ao Estado Islâmico e deixou de lado a luta em Aleppo. Foi esta decisão que levou as milícias moderadas lideradas pelos Exército Livre a Libertação da Síria a bater em retirada do leste de Aleppo, para lutarem nas fronteiras da Jordânia, Turquia e Iraque contra os terroristas do Estado Islâmico. O Exército Livre é financiado pela Arábia Saudita e os Estados Unidos, e foi forçado a obedecer ordens dos americanos para bater em retirada de Aleppo. Ao mesmo tempo, os dois países também reduziram drasticamente o financiamento da milícia, que se viu obrigada a pedir ajuda ao grupo Jabhat al-Sham ou Al Nusra, que é um braço da Al Qaeda, que também atua na guerra síria. Foi justamente essa união suspeita que deu ao russos a convicção de que o Exército Livre para a Libertação da Síria também cooperava com os grupos islâmicos terroristas que atuam no país árabe. Os americanos tentaram convencer os rebeldes a se desvincularem do Jabhat al-Sham, mas não conseguiram. O enfraquecimento da oposição levou também outros grupos que lutavam contra Assad a se unirem a ele. A dispersão dos rebeldes pavimentou o caminho para a ocupação final de Aleppo. Para os milhares de civis que ainda estão na cidade, a tomada total pelas tropas do governo pode significar também a esperança de um longo recomeço e um caríssimo processo de reablitação. Já existe um consenso internacional de que Assad faz parte da solução diante da impotência dos rebeldes. A guerra na Síria não termina com a tomada de Aleppo, mas quando isso acontecer de fato, começa uma nova fase, onde a diplomacia deverá entrar em ação.

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