Herbert Moraes
Herbert Moraes

Quando o egoísmo e a intolerância são bem maiores que a compaixão

Chegou a hora de saber se solidariedade é apenas mais uma palavra usada para florear os discursos de líderes europeus

Foto de Aylan Kurdi que chocou o mundo: apesar de morto, o menino deu um rosto para os desesperados | AP

Foto de Aylan Kurdi que chocou o mundo: apesar de morto, o menino deu um rosto para os desesperados | AP

A foto do garotinho sírio de três anos, morto, à beira da praia de Bo­drum, na costa turca, chocou o planeta. A imagem do pequeno corpo de Aylan Kurdi sendo resgatado por um policial, além de toda a tristeza que provocou, também trouxe à tona sentimentos de fúria e frustração nas redes sociais. Todos perguntam: onde está a solidariedade dos europeus que fecham as portas para milhares de refugiados, famintos e desesperados, que veem na Europa a única alternativa para tentar sobreviver?

Em Budapeste, na Hungria, milhares lotam a estação central de trens e aguardam em vão, permissão para continuar a viagem até a Ale­manha; estão num limbo e a Hun­gria não sabe o que fazer com tanta gente. Na Áustria, outra cena chocante: um caminhão abandonado à beira da estrada trazia como carga seres humanos. Morreram asfixiadas 41 pessoas, entre mulheres, homens e crianças.

Todas essas histórias convergem para o mesmo ponto: a guerra na Síria, seus horrores e a tentativa de escapar vivo do inferno. Estamos no final do verão no Hemisfério Norte e, ao que parece, o Oriente Médio resolveu fazer uma visita à Europa. A multidão que se desloca para o Velho Continente, além de sírios, é formada também por sobreviventes e refugiados de crises e conflitos de países africanos que não recebem tanta atenção da mídia. Mas foi preciso a tragédia maior, de ver uma criança morta, afogada, para que o mundo despertasse para o problema dos refugiados. Aylan, apesar de morto, deu um rosto para os desesperados, abriu os olhos dos líderes europeus e deixou bem claro que nada será como antes. Depois de cinco anos de atrocidades, da “primavera árabe”, e das mudanças drásticas que ocorreram no mundo árabe, não há mais como garantir aos cidadãos desses países nem mesmo o direito a sobreviver. Quem não quer lutar foge, como milhões de pessoas que lotam campos de refugiados no Líbano, na Jordânia e na Turquia. E agora inundam os paises europeus, porque veem na Europa a “terra prometida”. Os refugiados estão chegando em massa porque já não há mais alternativas. Na Síria, metade da população foi obrigada a deixar suas casas. Pelo menos 4 milhões de pessoas já deixaram o país para nunca mais voltar. As minorias (curdos, cristãos e yazidis e outros) também estão fugindo não só da Síria como também do Iraque.

As imagens que chegam das cidades destruídas nos dois países, principalmente na Síria, já lembram, e muito, as cenas de destruição das cidades europeias no fim da Segunda Guerra Mundial. Sistemas de água, esgoto e energia elétrica entraram em colapso, assim como a educação e serviços básicos. A informação de que unidades de combate e uma frota inteira de aviões de guerra estão vindo da Rússia para ajudar Bashar al Assad, é um presságio de que a guerra vai continuar por muito tempo e talvez se torne ainda mais brutal. Não é difícil entender porque os sírios perderam a esperança em seu país. Uma outra onda de imigração para a Europa vem do Afeganistão e de outros países da ex-república soviética na Ásia central. Os migrantes desses locais fogem em busca de uma vida melhor.

E onde está Israel no meio de tudo isso? Vergonhosamente, para um país que foi basicamente formado por refugiados, pouco foi feito para ajudar os vizinhos sírios. Além das cercas e muros que foram erguidos para evitar atividades terroristas em suas fronteiras, o país continua sentado e, assim como os europeus, assiste de longe o abandono do povo sírio. A verdade é que o mundo inteiro gostaria de esquecer a Síria, mas os refugiados existem, já estão aí e não vão a lugar nenhum. Chegou a hora de saber se solidariedade é apenas mais uma palavra usada para florear os discursos de líderes europeus ou se de fato ela existe.

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