Herbert Moraes
Herbert Moraes

Plano russo para a Síria inclui retirada de forças do Irã do país

A Rússia dá as cartas no Oriente Médio e faz da Síria o palco principal de um plano que já está em jogo

Vladimir Putin (foto) e Bashar al-Assad: o czar da Rússia exerce um poder praticamente pós-colonial na Síria | Foto: Kremlin

A Rússia deu o sinal, na semana passada, de que a Síria está pronta para reativar o processo político, e que é chegada a hora das forças estrangeiras, estacionadas em diversas regiões, iniciarem sua retirada do país.

O presidente Vladimir Putin planejou todo o show. Há três semanas, mais precisamente no dia 9 de maio, encontrou-se com o premiê israelense Benyamin Netanyahu, em Moscou. Cinco dias depois, foi a vez de acertar os ponteiros com ministro de Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, e, no último dia 17, convocou o ditador Bashar al-Assad a Sochi para comunicá-lo do que foi acertado entre Rússia, Israel e Irã, além, é claro, de instruí-lo sobre como deve agir nos próximos meses, a fim de permitir que o líder russo possa se movimentar, taticamente, no tabuleiro de xadrez chamado Síria.

O poderoso chefão da Rússia quer, por exemplo, que a Constituição da Síria seja modificada o mais rápido possível. Sua intenção é que seja criada uma lei que garanta mais direitos e representação política para diversos grupos étnicos. Uma delegação de juristas russos já está em Damasco para “ajudar” Assad a formular novas emendas.

Putin também quer o mercado sírio aberto para os investidores russos que vão iniciar a reconstrução do país em ruínas. Ele postula que Assad dê prioridade para os investidores, construtoras e outras companhias russos em todos os projetos. Assad ouviu do aliado que o Irã deve sair de cena do território sírio. Putin deixou claro para Assad que ele deve “baixar a bola” e evitar, a qualquer custo, um conflito entre Israel, Síria e Irã em seu país.

As palavras de Putin para Assad servem de ultimato para o Irã. O país deve retirar suas forças da Síria. Mas, bem ao modo russo de fazer política internacional, o Kremlin, ao mesmo tempo que permite que a conversa entre o presidente russo e o ditador seja divulgada, orienta os diplomatas russos que fazem o jogo sujo e interpretam as palavras de seu líder de modo controverso a sugerirem que Putin está se referindo à retirada de países cuja presença na Síria vai contra a lei internacional. Neste caso, não são os iranianos que têm de se retirar da Síria, e sim as tropas americanas e turcas.

O plano russo, neste momento, não exige que forças estrangeiras deixem a Síria imediatamente, mas se refere a um processo que se inicia com encontros de representantes dos rebeldes, da oposição e do regime. Os lados deverão assinar um acordo de reconciliação ou de rendição. Com a conclusão desse estágio, um governo transitório será formado e novas eleições serão convocadas. Depois do pleito, segundo o plano russo, aí, sim, as forças estrangeiras terão de deixar a Síria.

Se Israel e os Estados Unidos esperam que o Irã deixe a Síria, os dois terão que colaborar com a Rússia, dar o apoio necessário ao plano e torcer para que Putin consiga impor-se sobre as dezenas de milícias espalhadas pela Síria, ato que até agora foi repelido por eles.

Israel, Estados Unidos, Rússia e Irã concordam que Assad deve permanecer no poder. Os quatro países também chegaram à conclusão que, no momento, não há nenhuma alternativa senão dar sobrevida ao ditador, mesmo sabendo de todos os crimes contra a humanidade que ele cometeu nos oito anos de guerra civil.

Já se passaram quase três anos desde que a Rússia resolveu se envolver na guerra da Síria. Um tempo razoável comparado ao sucesso da intervenção. Nesse período, os russos tiraram os americanos do palco principal, assumiram a arena síria, ressuscitaram o regime que estava aos frangalhos, que hoje já recuperou o controle de praticamente o país inteiro. A Rússia também assumiu o monopólio diplomático da questão síria e acredita que o conflito será resolvido entre conversas e acordos.

A estratégia de Moscou tornou-se o salvo conduto que poderá impedir e prevenir uma guerra entre Israel e o Irã na Síria e poderia evoluir para um conflito direto entre o Irã e os Estados Unidos. Resta saber se os iranianos irão ouvir os russos, já que, se realmente deixarem a Síria, pode parecer que não houve uma coordenação com a Rússia, e sim que tiveram que atender um ultimato dos Estados Unidos.

Além disso, como o Irã vai proteger seus interesses na Síria sem a presença de suas tropas para defendê-los? Até agora, ninguém respondeu a essas perguntas. A única certeza no meio de toda essa confusão é que, a partir de agora, Síria, Israel, Irã e Estados Unidos respondem ao “czar” Vladimir Putin. É ele quem dá as ordens e decide os rumos do Oriente Médio. Novos tempos.

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