Herbert Moraes
Herbert Moraes

Paz? Com o Hamas?

Em meio a rumores de negociações secretas, o inimigo pode se tornar um parceiro para a paz. Mesmo que ela tenha prazo de validade

Afinal, Israel e o Hamas estão ou não negociando um acordo de “paz” duradoura? Essa é a pergunta, que desde a semana passada, permeia desde o gabinete do primeiro-ministro israelense aos vilarejos e cidades que ficam bem perto da fronteira com a Faixa de Gaza.
O governo turco e o Hamas afirmaram que há diálogos intensos entre autoridades israelenses e líderes do grupo islâmico. Ao saber das conversas “secretas”, a Autoridade Palestina, que governa a Cisjordânia, passou a acusar o Hamas de tentar implantar um novo Estado em Gaza com o apoio de Israel. O gabinete israelense negou imediatamente a acusação, mas sem mais delongas.

“Não há contato direto ou indireto com o Hamas”, disse o premiê de Israel, que negou qualquer tipo de con­versa com os inimigos. Mas, como no Oriente Médio tudo é possível, não deu pra ficar impressionado com a “firmeza” de Benyamin Netanyahu ao afirmar que com o Hamas não há diá­logo. Porque mesmo que nesse mo­mento não haja nenhum contato, isso não significa que não tenha havido alguma aproximação, ou que não possa haver, em um futuro bem próximo.

Quando Israel negociou a libertação do soldado Gilad Shalit, que ficou cinco anos nas mãos do Hamas em Gaza, e ,depois foi trocado por mil prisioneiros palestinos ou até mesmo todos os acordos de cessar-fogo, inclusive o atual, não surgiram do nada. Quando rumores, como o dessa semana se tornam fortes, nem mesmo o primeiro-ministro consegue disfarçar.

Negociações que podem levar a um longo cessar-fogo interessam à política implantada pelo governo israelense. Afinal, construir um novo porto marítimo na Faixa de Gaza não requer retirar os colonos dos territórios ocupados, o reconhecimento do Estado Palestino ou a garantia dos direitos civis dos quase 2 milhões de residentes de Gaza. A reabilitação econômica do território palestino controlado pelo Hamas, a ideia de troca da paz pelo crescimento e desenvolvimento econômico, interessam ao gabinete israelense. E o motivo não é ideológico, pelo contrário, o que estimula Netan­yahu é a possibilidade de conseguir trazer tranquilidade para os moradores do sul de Israel. É mesmo inconcebível que verão sim, verão não, uma guerra se inicie em Gaza. Alcançar um acordo não é somente interessante para Israel, mas também para o Hamas, seus líderes e toda a população da Faixa de Gaza que sofre pela falta de moradias (destruídas na guerra do ano passado) e desemprego.

As forças de Defesa de Israel, mesmo antes do último conflito em 2014, já vinha pedindo ao governo que facilitasse a entrada e saída de comida, remédios e materiais de construção através da fronteira, o que vem sendo implementado diariamente há algumas semanas, sem interrupções. Recen­temente, o Hamas passou pelo teste de interromper o terrorismo dentro de seu próprio território. E sucedeu de forma exemplar. Provou que tem habilidade para interromper grupos radicais que atuam na Faixa de Gaza lançando foguetes contra o sul de Israel. Ideologicamente o grupo está agindo contra a própria natureza, e intermamente está dividido, porque enquanto mantém a calma na fronteira israelense, agora teme o vizinho Egito, que luta contra o “pai” do Hamas, a Irmandade Muçulmana, e por isso que volta e meia fecha a única passagem que ainda resta aos palestinos de Gaza. Uma janela de oportunidade se abre diante dos olhos de Israel.E para o Hamas também. A máquina militar do grupo já pode estar até reabiliitada, mas não há nenhuma movimentação da comunidade internacional de reconstruir o enclave que ficou devastado na última guerra. Apenas promessas não cumpridas. Entre a população de Gaza há tanto ressentimento contra o Hamas, que uma rebelião contra o governo pode começar a qualquer momento. Um acordo com Israel parece ser a melhor proposta. talvez a única.

E como não há limites para a ironia, vejam só: o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, chegou à conclusão e declarou recentemente que não há mais chances de conduzir um processo de paz diplomático com o governo de Benyamin Netanyahu. O Hamas, surpreendentemente, surge como um sério parceiro. Se a notícia de que Abbas pretende visitar o Irã em outubro se confirmar, então Israel poderá acusar o líder palestino do que vem fazendo há anos, e dizer que Mahmoud Abbas não é um parceiro para negociar a paz com os palestinos. Será o enterro diplomático de Abbas, e então eis que surge o Hamas, de inimigo mortal a parceiro para a paz… sem escalas.

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