Herbert Moraes
Herbert Moraes

Os terroristas agora querem governar o Iraque

Grupo Estado Islâmico do Iraque e do Levante provoca conflito que atinge os países do Oriente Médio

Jihadistas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante num checkpoint na cidade de Mossul | Foto: REUTERS/STRINGER

Jihadistas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante num checkpoint na cidade de Mossul | Foto: REUTERS/STRINGER

A guerra que começou nos últimos dias no norte e centro do Ira­que, entre militantes de uma facção ligada à Al-Qaeda e as forças armadas do governo iraquiano, é sem dúvida uma virada estratégica e um dos fatos mais importantes da história recente do Oriente Médio, que poderá fortalecer os grupos terroristas que “pipocam” por aqui.

O conflito talvez até não tenha um vencedor, mas já está provocando ondas que atingem todos os países vizinhos, e que fazem os Estados Unidos repensarem a política americana para a região. Há um número em excesso de jogadores no tabuleiro de xadrez que é o Oriente Médio, mas o choque provocado pela tomada de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, por insurgentes sunitas, certamente trará uma mudança no cenário caótico que ameaça se espalhar por todas as fronteiras, ruir alianças e estabelecer uma nova ordem.

Na terça-feira passada, uma organização de jihadistas sunitas, conhecida como Estado Islâmico do Iraque e do Levante, tomou a cidade de Mossul no norte do país. Na quinta-feira eles avançaram um pouco mais e conquistaram Tikrit e Baiji, que ficam próximas à capital Bagdá. Em pânico, o exército iraquiano deixou a responsabilidade da cidade petroleira de Kirkurk nas mãos de forças curdas, que tentam em suas regiões autônomas no Iraque conter o avanço dos jihadistas.

O primeiro-ministro Nuri al Maliki imediatamente declarou Estado de emergência, pediu aos cidadãos que lutassem voluntariamente e que o ajudassem na lu­ta contra a Al-Qaeda, prometendo armá-los. As facções insurgentes já ocupam uma grande á­rea entre as fronteiras da Síria e do Iraque, formando uma espécie de front sunita, de onde controlam uma boa parte do território dos dois países. A ameaça não é só a Bagdá, mas também a Damasco.

Para a comunidade internacional os problemas no Iraque são mais desconcertantes do que a carnificina que acontece na Síria. Até porque os últimos acontecimentos foram inesperados e provocaram surpresas. O país árabe é também um dos maiores produtores de petróleo do mundo, e um conflito pode provocar um efeito negativo na economia mundial. O colapso das forças iraquianas também é outra preocupação que certamente vai afetar os países vizinhos.

A nova geração da Al-Qaeda

Abu Bakr al-Baghadadi, o líder do movimento islâmico que assola a região, montou duas estratégias vitoriosas. Estabe­leceu um forte comando na Síria, que acabou virando alvo não só de Assad, mas de outros grupos islâmicos que também atuam na guerra civil. E ao fazer isso, sem querer, ele qualificou o presidente sírio como uma peça importante para o Ocidente na luta contra grupos terroristas. Logo depois da conquista de Mossul e de toda província de Nínive no Iraque, o líder jihadista ameaçou convocar eleições “democráticas” e estabelecer um novo governo. Al-Baghdadi representa a terceira geração de jihadistas treinados pela Al-Qaeda no Afeganistão, que ainda busca por um líder depois da morte de Osama bin Laden e da cegueira de seu sucessor, o médico egípcio Ayman al-Zawahri. Ao contrário das ações terroristas que matavam em massa, uma característica marcante da Al-Qaeda sob o controle de Bin Laden, a nova geração não se contenta apenas com ataques em menor escala e guerrilha, a Al-Qaeda agora quer governar.

Iraque, Síria, Iemen e Afe­ganistão são os países onde os sucessores de Osama estão estabelecidos, e em todos eles não há mais alvos ocidentais que possam ser atingidos, com exceção do Afeganistão, que deverá assistir a retirada das tropas americanas até o fim do ano. Agora os alvos são os governos locais, que contam com exércitos enfraquecidos e não têm como deter as organizações terroristas.

Os Estados Unidos acreditavam que poderiam fazer parte desse cenário apenas provendo ajuda militar e de inteligência. Ataques, somentes com os drones, aqueles aviões não tripulados que provocam grandes estragos e que abrem o caminho para que as tropas locais avancem. Os americanos também pensavam que ao eliminar líderes terroristas deixariam os seguidores deles desnorteados e sem disposição para lutar. Mas eles estavam errados: apesar da morte de um incontável número de jihadistas, a motivação e a infraestrutura do terror permaneceram.

Muitos analistas acreditam que a guerra na Síria ainda vai durar uma década, mas que a ameaça real vem do Iraque, que aparentemente deverá perder um bom pedaço de seu território para as gangues sunitas. Uma situação que automaticamente ameaça a Turquia, as regiões autônomas curdas, os interesses iranianos e talvez até mesmo a própria existência do Iraque.

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simone

É triste saber que as guerras surgem apenas por ganância….

vera

De onde vem as armas para os terroristas? Se extirpar a raiz o câncer morre. Algum Pais está fornecendo armas.