Herbert Moraes
Herbert Moraes

Os russos estão chegando

Enquanto a Rússia se impõe no Oriente Médio ao apoiar Bashar al-Assad, a apatia americana na Síria levanta questionamentos mundo afora sobre o verdadeiro comprometimento de Washington com seus aliados

Cidade de  Aleppo está sendo destruída pelo exército sírio, que tem ajuda das forças russas | George Ourfalian/AFP

Cidade de Aleppo está sendo destruída pelo exército sírio, que tem ajuda das forças russas | George Ourfalian/AFP

Bombardeios aéreos ininterruptos na Síria. Ata­ques cibernéticos sofisticados com a intenção de in­fluenciar a eleição americana. No­vas evidências de envolvimento direto na queda do voo da Malasia Airlines abatido quando sobrevoava a Ucrânia.

O comportamento da Rússia nas últimas semanas trouxe de volta os ecos da Guerra Fria que terminou em 1991 com o colapso da União Soviética. O presidente Barack Obama, que recentemente encontrou-se pessoalmente com o presidente Vladimir Putin, chegou a dizer para seus assessores que a impressão que ele tinha era que o líder russo parecia satisfeito em manter o conflito entre os dois países em “fogo baixo”, mas aceso.
Obama referia-se à Ucrânia quando fez o comentário, mas a observação também serve para todas as arenas onde o presidente russo resolveu se meter a fim de complicar os planos americanos ao redor do mundo.

A tragédia de Allepo na Síria é apenas mais um episódio nessa complexa batalha global, liderada pela Rússia, que resolveu bater de frente e desafiar a hegemonia americana. A luta pela sobrevivência do regime de Bashar al-Assad, bancada pela Rússia, Hezbollá e o Irã, está diretamente ligada aos interesses de Moscou. Vladimir Putin acredita que o crepúsculo em que se encontra Washington (entre a o fim do mandato de Barack Obama, as eleições no dia 8 de novembro e a posse do presidente eleito em janeiro do ano que vem) era o que precisava para criar novos fatos, novas disputas, que um presidente de saída não terá como resolver.

A última grande ofensiva da parceria entre a Rússia e o governo sírio foi planejada. A matança indiscriminada de civis em Allepo já é considerado crime de guerra e um flagrante da lei internacional. Aviões russos e do regime bombardeiam indiscriminadamente hospitais, ambulâncias, equipes de resgate, purificadores de água, depósitos de suprimentos e até quem se arrisca a pegar as filas para o pão que se formam diariamente no que restou de algumas padarias. Nas raras vezes em que comboios de ajuda humanitária receberam permissão para se aproximarem de Allepo, também foram bombardeados, e a Rússia, no seu jogo cínico, continua a insistir que está apenas combatendo terroristas.

O regime sírio faz uso extensivo de de barris com combustível que são lançados de helicópteros so­bre os bairros controlados por re­beldes em Allepo. Ataques químicos também são diários em vá­rias regiões do país. A destruição to­tal de Allepo e de seus residentes, a fome que assola a todos, não só em Allepo mas nas áreas dominadas pela oposição, deverá criar uma nova e imensa onda de refugiados. Uma fuga em massa deverá a­contecer em breve, e quando chegar à Europa e minar a estabilidade da frágil União Europeia, deverá dar a Putin mais pontos no jogo sujo que ele desenvolve pelo mundo.

Chechênia
Os métodos dos russos de 2016 não são substancialmente diferentes da estratégia russa quando enfrentou a Chechênia em duas guerras. A única diferença é que naquela época, entre 1994 e 1996, não existiam as redes sociais, e as informações, sempre fragmentadas, sobre os massacres, demoravam a chegar ao Ocidente.

Enfrentamentos diretos, ho­mem a homem, ainda são bem li­mi­tados em Allepo, aparentemente porque o regime sírio e seus aliados têm medo de colocarem em risco as poucas tropas que restaram. O poder de combate aéreo rus­so pode ser sentido em outras regiões do país em guerra. A Rús­sia posssui três grandes bases aé­reas em atividade, em Alawi, no­ro­este da Síria. Em Tartus estão sob o controle do principal porto ma­rítimo e a base aéra de Khmei­mim, pró­ximo à Latakia, além de um outro centro de logística. Todos es­ses lugares são guardados por milhares de soldados prontos para retaliarem qualquer ataque rebelde. Bashar al- Assad voltou a mostrar as garras no fim do mês passado, logo depois do fracasso do cessar-fogo acordado entre os Estados Unidos e a Rússia. Ao que pa­rece, a intenção da Rússia com os novos bombardeios é manter as áreas que estão sob o domínio do governo sírio e expandir alguns bol­sões no norte do país. Dessa forma a Rússia pretende ditar as regras e as condições para uma fu­tu­ra negociação com o novo presidente americano que toma posse em janeiro. Talvez os russos pensem que Hillary Clinton tentará provar ser mais durona do que O­ba­ma quando o assunto for o Oriente Médio. E só Deus sabe o que eles pensam de Donald Trump.

Ao demonstrar poder de fogo, a Rússia está, ao mesmo tempo, protegendo seus interesses na Síria, particularmente garantindo um porto sob seu controle no Medi­ter­râneo, e provando que está sempre ao lado dos aliados. Nos bastidores está também o desejo de reconquistar o reconhecimento de ser uma superpotência militar que não pode ser ignorada. Por outro lado, Vladimir Putin e seus generais estão apreensivos sobre os próximos movimentos dos Estados Unidos na Organiazação do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que nos últimos meses instalou sistemas antimísseis nas fronteiras dos países que antes faziam parte da União Soviética. A carnificinina em Allepo está interconectada com a invasão russa na Crimeia e o leste da Ucrânia. Moscou faz ameaças diárias não só aos ucraninos mas aos países bálticos.

Recentemente o jornal americano “The New York Times” ouviu especialistas que disseram que Putin pode ser um megalomaníaco, mas não tem tendências suicidas, em referência a um provável confronto direto entre Rússia e Estados Unidos, que os russos certamente perderiam. Os experts concluíram que o líder russo não arriscaria um confronto militar direto com os americanos que provocaria a morte de milhões de pessoas e arruinaria a economia global, no entanto naõ deixaram de salientar que a relação entre os duas potências nunca esteve tão ruim, e já atingiu um nível ainda mais baixo desde que os russos invadiram o Afeganistão em 1979. l

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