Herbert Moraes
Herbert Moraes

Obama quer destruir o Isis. Só não sabe como

Presidente norte-americano não dá mostra de que vá enviar tropas para lutar na Síria e no Iraque contra o Estado Islâmico

Foto: Michael Reynolds/EPA/Agência Lusa

Foto: Michael Reynolds/EPA/Agência Lusa

Foi a terceira vez desde que foi eleito presidente, há sete anos, que Barack Obama usou o Salão Oval da Casa Branca para fazer um pronunciamento à nação. Segundo a tradição, ocasiões como essa só ocorrem quando o presidente quer enviar uma mensagem muito importante aos americanos. E era exatamente isso que todos esperavam. Só que, mais uma vez, Obama não surpreendeu e também não apresentou uma estratégia real para “destruir o Isis” (Estado Islâmico do Iraque e do Levante, ou Estado Islâmico do Iraque e da Síria) como ele gosta de repetir ultimamente. Mas o presidente americano, aparentemente, não vai voltar atrás no discurso de que tropas não serão enviadas para lutar na Síria ou no Iraque.

De acordo com o próprio Obama, os EUA vão continuar com os ata­ques aéreos em alvos específicos e diretamente relacionados ao Estado Islâmico. Os combates em terra, segundo o presidente americano, continuarão sob a responsabilidade dos grupos rebeldes formados por sunitas moderados, que os EUA apoiam, e os curdos. Para Obama, isso é o suficiente para “destruir o Isis”, como ele insiste em dizer. Acon­tece que essa tese já ficou velha e mostrou-se insuficiente quando foi testada na Síria, quando os EUA come­çaram sua campanha aérea no país árabe — assim que a organização terrorista começou a cortar cabe­ças de cidadãos ocidentais, entre eles americanos, em meados do ano passado. Desde então, a coali­zão liderada pelos EUA e países árabes vêm bombardeando de forma sistemática o território que o Estado Islâmico chama de califado. Desde setembro, a Rússia também tem feito o mesmo, e até com mais intensidade e, mesmo assim, o Estado Islâmico não dá sinais de enfraquecimento.

De acordo com relatórios dos serviços de inteligência dos países envolvidos no combate na Síria e no Iraque, os novos voluntários que se juntaram ao grupo (quase todos muçulmanos europeus) já superam o número de terroristas mortos nes­ses ataques aéreos que vão “destruir o Isis” como Barack Obama costuma dizer. Com exceção das áreas em que os aviões de combate dos países ocidentais dão cobertura, como a região controlada pelos curdos no norte do Iraque e nordeste da Síria, o Estado Islâmico ainda não perdeu áreas significativas que estão sob seu controle nos dois países, nos últimos dois anos e meio.

Se os americanos es­tão descrentes com a capacidade de luta dos sunitas moderados, que mesmo com o apoio dos EUA não conseguem avançar, os russos também estão tendo a mesma dificuldade. Em outubro, o serviço secreto da Rússia organizou e efetuou um ataque, com tropas, no norte da Síria, que se integraram às Forças da Guarda Revolucionária do Irã, além de milícias xiitas. Mas eles foram derrotados e bateram em retirada, mesmo com a apoio de ataques aéreos.

Até agora, ninguém sabe, de verdade, como combater os terroristas. Para alguns experts no assunto, talvez não seja possível eliminá-los completamente, mesmo com uma longa campanha militar. Além disso, os registros de vitória apenas com bombardeios aéreos são casos escassos, dos quais o mais conhecido é aquele com que a Otan fez a Iugoslávia se retirar do Kosovo em 1999, após 78 dias de bombardeios.

Engana-se quem pensa que Obama é o único americano que não quer que suas tropas lutem contra o Isis. Uma pesquisa recente mostra que a maioria da população também não quer ver jovens morrendo, mais uma vez, no Iraque e na Síria.

Depois que ficou claro que o ataque a um centro comunitário, na pacata San Ber­nardino, na Califórnia, foi realizado por um casal de muçulmanos que apoiava o Isis, os americanos ainda estão com dificuldades para entender o terrorismo islâmico individual. Um fenômeno que já é conhecido como: “faça a sua própria jihad”. É o terror dentro de casa, que pode acontecer a qualquer momento, em qualquer lugar, assim como em Paris.

Todos já sabem que é a internet e suas redes sociais o canal de comunicação e de incitação, e que o Estado Islâmico sabe usar muitíssimo bem. Nos tempos de Bin Laden, quando a Al-Qaeda mandava uma mensagem, tudo era feito através de vídeos primários, gravados em lugares desconhecidos no Afeganistão e no Paquistão. Agora, a propaganda do terror conta com Facebook, Twitter e tantas outras redes sociais que ajudam a propagar o sonho do califado e a radicalização. E mesmo com toda a tecnologia de que dispõem, nem a CIA, nem o FBI nem a NSA (a Agência de Segurança Nacional) têm ideia ainda de como combater esse novo tipo de terrorismo. Se em casa os americanos estão confusos, o discurso de Obama complicou muito mais, e deixou claro que nos próximos 14 meses, tempo que resta a ele na Casa Branca, a não ser que aconteça algo como o 11 de Setembro, os EUA não vão se envolver mais do que já estão fazendo para “destruir o Isis”, como o presidente mais banana da América gosta de dizer. l

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Damir

Quem criou, desenvolveu , treinou, equipou e colocou essas facções em condições de operar em terra foi a Coalizão Ocidental já na Lìbia, onde o sucesso foi completo, a aviação da OTAN pelos aviões e as facções e outros grupos que se juntaram a elas por terra. Na Síria uma das facções, o Estado Islâmico começou a se destacar e a assumir a liderança, o que foi contestada pelas demais, e dai a rivalidade tão sòmente de comando, mas que se estendeu quando a Coalizão Ocidental passou a dizer que só as demais facções, das mais antigas, é que eram… Leia mais