Herbert Moraes
Herbert Moraes

O Oriente Médio mergulhado em trevas procura uma saída que aparentemente não existe

É hora de o mundo fazer algo pelo qual nunca antes se interessou: diagnosticar o que torna as regiões do planeta tão diferentes

O que provoca esse novo êxodo? Por um lado, a história do Oriente Médio; por outro, o próprio Ocidente | Massimo Sestini

O que provoca esse novo êxodo? Por um lado, a história do Oriente Médio; por outro, o próprio Ocidente | Massimo Sestini

A catástrofe humanitária do mundo árabe está nesse momento migrando do Oriente Médio para a Europa central. Milhões de refugiados estão em busca de abrigo e percorrem o caminho à pé. Mi­lhares já se afogaram no mar Me­di­terrâneo. Há duas semanas, um garotinho de apenas 3 anos foi um deles. A imagem, chocante, despertou a consciência latente de um mundo obtuso.

No entanto, mesmo com todo esse pandemônio de horrores, com botes decrépitos, trens superlotados, fome e desespero, até agora ninguém ousou explicar, honesta e seriamente, o que de fato está acontecendo por aqui. Por que agora? O que levou o mundo a testemunhar um exôdo tão doloroso como esse, em pleno século 21?

O principal motivo nasceu na região que agora muitos querem abandonar. O desastre humanitário é consequência direta da falência do sistema político do mundo árabe. Quais opções os 22 países que compõem esse cenário podem oferecer aos mais jovens? Uma monarquia reacionária, ditaduras militares, teocracias islâmicas ou o caos assassino. Para eles, o Oriente Médio se tornou uma região de trevas, deprimente e sem esperança. Um lugar onde não existe direitos humanos e dignidade. Com a globalização e a internet, os milhões que agora migram, puderam ver e comparar o abismo que existe entre o mundo árabe em que eles vivem e o mundo europeu, bem ali ao lado. Por isso, se levantaram e se­guiram. Agora milhões contam apenas com os pés para fugir da falência colossal do projeto nacionalista árabe que não conseguiu parir sequer um único país onde prosperidade e liberdadade caminham lado a lado.

Outra razão para o desastre vem do mundo ocidental. Na segunda metade do século 20, a Europa e os Estados Unidos contribuiram para estabilizar um Oriente Médio pós-colonialismo. Mas a nova “ordem” era podre e corrupta. Estava baseada em acordos sombrios que apoiavam regimes de terror em troca do abastecimento ininterrupto de petróleo. Mas, de uma maneira distorcida, essa nova ordem podre e corrupta funcionou. Reduziu o número de guerras na região e restringiu o sofrimento humano. Até que, no começo do século 21, os Estados Unidos e a Europa derrubaram a velha ordem no Oriente Médio com uma guerra insana no Iraque, outra na Líbia e o apoio indireto à Irmandade Muçulmana. O resultado não foi uma ordem alternativa, que establizasse os regimes ditatoriais da região e que levasse a esses países os valores democráticos. Na verdade, a ação levou ao desastre e ao caos.

Surgiram conflitos que não se viam por aqui há séculos. Além das guerras civis e fanáticas, existem também a guerras entre tribos. A política idealista, irreal e ambiciosa que veio do ocidente abriu os portões para a destruição e a catástrofe nos últimos 12 anos no Oriente Médio.

A terceira razão para o desastre humanitário árabe é a falta de uma política correta para a região. Edward Said, um importante intelectual palestino, e seus seguidores causaram um estrago indescritível à capacidade e habilidade de pensar e falar a verdade quando o assunto é o mundo Árabe.

Em 1978, Edward Said publicou a sua obra mais conhecida, Orientalismo, na qual analisa a visão ocidental do mundo “oriental”, mais concretamente do mundo árabe. Segundo o autor, o Ocidente criou uma visão distorcida do Oriente como o ”outro”, numa tentativa de diferenciação que servia os interesses do colonialismo. Na construção do argumento central do livro, ele analisou uma série de discursos literários, políticos e culturais que iam desde textos das Cruzadas a Shakespeare, e encontrou um denominador co­mum: a representação dos habitantes do mundo oriental como “bárbaros”. Esse legado intelectual maluco não permite falar dos habitantes dessa região sem caracterizá-los como eternas vítimas. A grande nação Árabe, que é rica em história, que tem uma cultura profunda e poder econômico considerável, foi tratada como um adolescente, que não é responsável pelos seus atos. Por isso que todos os problemas e mazelas da política Árabe sempre foram atribuidos aos outros: imperialismo, colonialismo e aos Sionistas. Os governos árabes nunca se permitiram fazer uma autocrítica e ninguém nunca pediu ou exigiu que o fizessem.

A disfunção que fez a Síria tão diferente da Indonésia, e o Iraque da Coréia do Sul, nunca foi reconhecida, diagnosticada e tratada propriamente. Ao juntar a falência Árabe e a inércia do Ocidente, os países dessa região passaram a se dissolver, milhares foram assassinados e milhões perderam suas casas.

É hora de abrir os olhos. Não haverá solução isolada para a tragédia dos refugiados. A única resposta está no reconhecimento de que o Oriente Médio é uma zona de desastre e iniciar um novo Plano Marshall que poderá lidar com as disfunções que a cada dia consomem as vidas de residentes e refugiados.

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