Herbert Moraes
Herbert Moraes

O Irã e a bomba nuclear: é chegada a hora da verdade

Prazo para negociações está chegando ao fim e o que pode vir do impasse estabelecido é uma grande incógnita para todos

Aiatolá Ali Khamenei: seu veto às inspeções em bases militares pode pôr a perder toda a negociação entre Irã e superpotências  | AP Photo/Office of the Iranian Supreme Leader

Aiatolá Ali Khamenei: seu veto às inspeções em bases militares pode pôr a perder toda a negociação entre Irã e superpotências | AP Photo/Office of the Iranian Supreme Leader

Na próxima terça-feira, dia 30 de junho, o diálogo entre o Irã e as seis potências mundiais chega ao fim. Foram 18 meses de conversas sobre o programa nuclear dos aiatolás, mas o desfecho das negociações ainda é incerto. Na semana passada houve um revés. O aiatolá Ali Khamenei, o líder máximo do Irã, que detém a palavra final em qualquer assunto do país, seja político ou religioso, disse não a futuras inspeções em bases militares, não a entrevistas com cientistas nucleares, não à interrupção do enriquecimento de urânio e sim à suspensão imediata das sanções econômicas que deixaram o Irã de joelhos e levaram o país à mesa de negociações. São essas as novas ordens do líder supremo ao seu time de negociadores, mas com o tempo do diálogo se encerrando, difícil prever qual o desfecho disso, mesmo que as conversas se estendam por mais alguns dias depois do prazo final.

Tudo é muito secreto, mas de acordo com um documento obtido com exclusividade pela Associated Press, as potências mundiais já concordaram em suprir o Irã com tecnologia nuclear avançada, vão construir um novo reator e abastecê-lo com combustível nuclear. Os países mais poderosos do mundo também já acertaram que a instalação nuclear de Fordow, que fica dentro de montanhas secretas, será convertido apenas para a produção de isótopos, e ainda vão ajudar o Irã nas pesquisas que envolvem a medicina nuclear. Tudo isso em troca da abertura de suas instalações para o monitoramento contínuo de técnicos da Agência Internacional de Energia Nuclear e ao fim do enriquecimento de urânio a 3,5%.

Só a publicação desse rascunho do documento final, que pode não ser parte do acordo, já provocou uma tempestade. Os que são contra afirmam que nessas condições o Irã poderá converter rapidamente o urânio enriquecido para fins militares, muito mais rápido do que vem dizendo o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Poucos dias depois da prévia do acordo vir a público, cinco ex-membros da equipe de negociações da Casa Branca, entre eles Dennnis Ross, que era o conselheiro direto de Obama na questão do Irã, e David Petraus, o ex-che­fe da CIA, publicaram uma carta aberta endereçada ao presidente americano. O texto expressa grande preocupação e temor de que com o acordo o Irã conseguirá, rapidamente, avançar com seu programa nuclear, e que o que está por vir não será um bom negócio.

O debate sobre o programa nuclear iraniano envolve muitas questões técnicas que, sem dúvida nenhuma, são importantes, mas ignora o contexto político por que passa o Irã, que nos últimos dois anos foi obrigado a negociar com o Ocidente e a entrar em um acordo para que as sanções econômicas fossem suspensas. A possibilidade de um ataque militar às suas instalações nucleares também é um dos motivos reais que levaram o país a se fingir de “bonzinho” e menos beligerante. O premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, que desde o início das conversas faz um discurso contra o acordo, numa solenidade de formatura de novos pilotos de caças reiterou a possibilidade de um ataque mesmo se o acordo acontecer.

Aparentemente o Irã não tem outra saída. Se não ceder, as sanções deverão continuar e a ameaça de um ataque militar deverá crescer ainda mais, a reabilitação de seu crescimento econômico deverá se arrastar por alguns anos e sua eterna competição com os sauditas sobre a hegemonia no Oriente Médio entrará em colapso, colocando em risco até mesmo a sobrevivência do regime.

Se o acordo for assinado, o Irã volta a ser uma potência produtora e exportadora de petróleo. Passa a ser também, legitimamente, um país pronto para acordos comerciais com qualquer outra nação. E, o mais importante, a economia, que hoje amarga 40% de desmpregados, será reabilitada. É esse o atual dilema do aiatolá Khamenei. O que virá, saberemos em breve.

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