Herbert Moraes
Herbert Moraes

O fim do califado

Estado Islâmico está fraco, mas engana-se quem pensa que acabou

Califa Abu Bakar Al Bagh­dadi: o arquiteto do terrorismo do ISIS | Reprodução

O califado acabou. O Esta­do Islâmico governou por ape­nas quatro anos. Tem­­po suficiente pra fazer um estrago monumental por onde passou, tanto no Iraque como na Síria. Nes­se período, o califa Abu Bakar Al Bagh­dadi e seus emires controlaram, com mão de ferro, milhões de pessoas espalhadas numa área correspondente a mais da metade do Iraque e da Síria, incluíndo aí grandes cidades como Mossul e Raqqa, além de campos de petróleo que renderam aos terroristas milhões de dólares.

Em apenas pouco meses eles foram de um “time juvenil”, como Barack Obama os definiu, em janeiro de 2014, para se tornar a maior ameça da segurança global. Em um determinado momento nesses últimos quatro anos, o Estado Islâmico chegou a ter em suas fileiras de combate mais de 60 mil homens, pelo menos a metade eram estrangeiros.

A retomada de Raqqa, a capital do ISIS na Síria, marco o fim do califado, mas a franquia continua. Sem dúvida nenhuma, agora, sem terrtório, o grupo se enfraquece e não poderá mais, por exemplo, alojar milhares de jovens muçulmanos em campos de treinamento, o sequestro de estrangeiros também ficou limitado, assim como os vídeos que assustaram o mundo e que não poderão mais contar com super produções. Milhares de miliantes estão fugindo dos campos de batalha, outros milhares preferiram se esconder em pequenos vilarejos que ainda são controlados pelo grupo, localizados ao longo do vale do Rio Eufrates, bem na fronteira entre o Iraque e a Síria. Alguns fujões tentam voltar pra casa, mas quando são pegos por militares alegam que foram manipulados e que estão arrependidos.

É provável que o Estado Islâmico resolva “dar um tempo” enquanto passa pelo processo de transformação de um Estado para uma forma mais tradicional de jihadismo. Mas isso não significa que o grupo acabou. Pelo contrário, o ISIS está vivo e bem longe do fim. Eles ainda contam com bases espalhadas na Líbia, no Sinai e no Iêmen, além de outras regiões onde o vácuo de poder permite que se instalem. Por enquanto, não há a mínima possibilidade de que possam estabelecer um novo califado num futuro próximo, mas quando ressurgir, o ISIS 2.0 não será uma entidade com uma geografia.

Através da internet e das re­des sociais, é provável que o Es­ta­do Islâmico se estabeleça com franquias on line pra que possa manter o recrutamento. Militan­tes mais graduados, que certamente voltarão para os seus respectivos países, servirão como treinadores e fonte de inspiração para milhares de futuros jovens jihadistas. Os soldados do terror poderão se alistar pela web antes de se explodirem em alguma missão suicida. Alvos não faltarão. No Oriente Médio, onde, por um período, todos queriam se livrar do problema, há fissuras que podem ser exploradas pelo grupo, principalmente entre as comunidades sunitas. O Irã, que mandou centenas de milhares de soldados xiitas para lutarem contra o ISIS, também está na lista, além dos países que enviaram aviões para bombardear o califado. A Copa do Mundo do ano que vem na Rússia, certamente, será o evento esportivo mais ameaçado pelo terrorismo na História. Mas pode acontecer agora. Em qualquer lugar.

Engana-se quem pensa que o Estado Islâmico seja um fenômeno com propósito puramente religioso. Há nuances salafistas. Mas foi a interpretação radical do Corão que deu carta branca para que os soldados do califa implantassem um regime de terror, com direito a estupros, pilhagem e assassinatos, o que na verdade não é muito diferente de ditaduras como as de Assad na Síria e do já falecido Saddam Hussein no Iraque , com execção das barbas e das bandeiras negras.

Para os jovens muçulmanos insatisfeitos, espalhados por toda a Europa, o caminho entre um estilo de vida ocidental e a radicalização é muito curto, e fácil, o que deixa em dúvida se realmente há um significado espiritual para esses jovens que escolhem o Islã extremista como condutor.

O Estado Islâmico não é uma ideologia como a Al Qaeda, e também não é fonte de inspiração religiosa. O ISIS é uma criatura, uma doutrina mutante, que vai permanecer mesmo sem território.

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