Herbert Moraes
Herbert Moraes

O Estado Islâmico a caminho de Bagdá

Já está bem claro que para conter os extremistas será preciso o enfrentamento em terra. Teremos uma guerra de verdade?

Estado Islâmico toma Ramadi, a capital da maior província do Iraque, e estão mais próximos de invadir Bagdá

Estado Islâmico toma Ramadi, a capital da maior província do Iraque, e estão mais próximos de invadir Bagdá

Quem pega a estrada que liga Bagdá a Ramadi normalmente consegue completar os 126 quilômetros em menos de uma hora e meia. Mais seis horas em direção ao oeste e o motorista chega à divisa da Jordânia com o Iraque. Se você der uma olhada no mapa da região, vai perceber que, por aqui, as distâncias não são tão extensas e que, por isso, talvez não sejam um dos maiores obstáculos para a organização terrorista Estado Islâmico, que já controla quase todo o deserto da província de Anbar. Agora, com a conquista de Ramadi, a capital do distrito de Anbar, os extremistas tem duas opções: marchar rumo a Bagdá ao leste ou se posicionarem na fronteira do Iraque com a Jordânia, a oeste.

Mas para chegar a Bagdá, o grupo também conhecido como Isis primeiramente terá de capturar a cidade de Habanya, a leste de Ramadi, para depois investirem contra Falluja, onde eles já foram derrotados uma vez, pelas milícias xiitas locais. Se conseguirem atravessar o bloqueio, terão, então, de cruzar as linhas defensivas do exército iraquiano espalhadas por todo o perímetro de Bagdá. Caso sejam bem sucedidos, a partir dali terão de lutar rua a rua, num confronto de guerrilha urbana contra forças superiores, e ainda terão de lidar com os ataques aéreos da coalizão liderada pelos Estados Unidos, além de enfrentar milícias, voluntárias, tanto xiitas quanto sunitas. Esta, sem dúvida, será uma missão bem diferente do que a simples tomada de Ramadi ou Mosul.

Nos últimos dias 3 mil homens, membros de milícias xiitas treinadas e patrocinadas pelo Irã, se posicionaram nos entornos da cidade de Habanya, que está a 33 quilômetros de Ramadi. Outros mil sunitas de tribos locais também estão na área, que já conta também com bombardeios americanos.

Na semana passada, o mi­nistro da Defesa iraniano, Hus­sein Dehghan, esteve em Bagdá num rápido encontro com membros do governo iraquiano a fim de coordenar a possibilidade de um ataque com união de forças para liberar Ramadi e a partir daí bloquear qualquer tentativa do Estado Islâmico de avançar em direção a Bagdá.

O governo americano demonstrou inquietação com a entrada de milícias xiitas na luta por Ramadi, porque teme que, além da guerra contra o Estado Islâmico, violentos confrontos entre tribos sunitas e xiitas possam surgir e se espalhar pela região. Mas em Washin­gton ninguém consegue encontrar uma solução melhor para garantir a vitória contra o grupo.

Dois dias antes da tomada de Ramadi, os americanos comemoravam a morte do “ministro das Finanças” do Estado Islâmico, Abu Sayyaf, além da prisão da mulher dele. Mas o festejo durou pouco, e se evaporou assim que a queda de Ramadi foi anunciada. Uma grande conquista que expôs a frágil e fraca estratégia americana, que se resume apenas a ataques aéreos e do treinamento (em longo prazo) de tropas iraquianas. Insu­ficiente para expulsar o Isis dos territórios que já controla.

Já está bem claro que para conter os extremistas é preciso o enfrentamento em terra. As batalhas que aconteceram no norte do Iraque e da Síria, com confrontos diretos entre tropas curdas e milícias contrárias ao Isis, foram bem sucedidas e interromperam o grupo. Em alguns casos eles foram até expulsos de áreas que chegaram a controlar.

O Iraque possui um contigente considerável de homens que estão dispostos a lutar pelo país, mas, assim como aconteceu em Mosul em junho de 2014 e agora em Ramadi, ficou provado que o exército não possui know-how para enfrentar os jihadistas. Tanto em Ramadi como em Mosul os soldados iraquianos tiveram de fugir para não morrer. Não sabiam como lutar e deram um vexame ao abandonarem seus postos, deixando para trás veículos militares, grande quantidade de armamentos e munição, que acabaram caindo nas mãos do Isis.

Diante desse quadro caótico e da hesitação americana e árabe em enviar tropas ao Iraque, as únicas forças disponíveis que restaram vêm da direção do Irã — cujos aviões militares, nos últimos meses, estão treinando nos céus do Iraque. O Irã possui tropas bem equipadas.

Unidades que poderiam ser enviadas ao país vizinho, obviamente sob autorização do governo iraquiano. E é aí que os americanos se veem num dilema: encorajar o Irã a enviar forças terrestres ou agir sozinho, mas não somente com ataques aéreos. Só assim conseguirão expulsar o Estado Islâmico de Ramadi.

A captura da cidade atrapalhou os planos de uma grande campanha militar para libertar Mosul. Um plano dos governos iraquiano e americano, além de forças curdas, que vinha sendo elaborado há meses e que terá de ser adiado. Ramadi é agora uma ame­aça muito maior ao Iraque, devido à proximidade de Bagdá, enquanto Mosul já está sob ocupação há quase um ano. Liberá-la agora ou depois, na atual conjuntura, não faz diferença.

A queda de Ramadi para os ex­tre­mistas não foi apenas mais uma conquista do Estado Islâmico: o grupo conseguiu demonstrar também o despreparo e a incapacidade de luta do exército iraquiano, e forçou os líderes em Washington, Te­erã, Bagdá e em toda a Europa a tomarem uma decisão da qual todos estavam fugindo: entrar em uma guerra de verdade no Oriente Médio. l

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