Herbert Moraes
Herbert Moraes

O direito de resistir

Humilhações e falta de perspectivas de um futuro melhor são a realidade dos palestinos há quase 50 anos

Foto: AP Photo / Majdi Mohammed

Foto: AP Photo / Majdi Mohammed

Imagine que você é um palestino. Talvez residente da parte oriental de Jerusalém, onde ficam os bairros árabes da cidade e onde há 47 anos a vida é bem difícil. À sua frente, a perspectiva de um futuro melhor é praticamente inexistente. A tirania israelense, que dita os rumos do seu destino, faz questão de lhe deixar bem claro que a situação em que você se encontra vai permanecer do mesmo jeito e que não haverá mudanças. Suas cidades continuarão sob ocupação. O governo que o subjuga, apesar de dizer o contrário, afirma por outros meios que um Estado palestino jamais vai existir e essa informação certamente vai chegar até você.

Imagine que você é um palestino e suas crianças estão em perigo. Frases como “morte aos árabes” foram pichadas no muro bem ao lado da sua casa. Para qualquer lugar que você vá, um soldado ou um policial de fronteira certamente vai berrar com você. Noite sim, noite não, sua casa será invadida brutalmente e vasculhada meticulosamente. Você será humilhado, intimidado, seus bens poderão ser destruídos, talvez você seja até preso, possivelmente sem julgamento. Nos últimos anos, 500 palestinos como você estão sob prisão administrativa, um recorde. Se você não está entre eles, mas tem um parente no grupo que cumpre pena sem ter ido à Corte, talvez seja melhor desistir de visitá-lo. Os obstáculos são praticamente intransponívies. Mas se você conseguir passá-los, vai ter exatos 30 minutos para conversar com o parente preso através de uma janela de vidro. Caso ele esteja em prisão administrativa, é melhor aproveitar o encontro, porque você jamais saberá quando ele será libertado. Mas isso tudo, pra você que é palestino, já é o trivial; afinal, você se adaptou a viver assim.

Talvez, você já tenha se acostumado também à ocupação de suas terras. Há quase 50 anos, um colono pode invadir o que é seu, “tocar” fogo nas suas plantações ou destruir o que resta de árvores em seus campos. E ele não será levado a julgamento por isso. Os soldados que estavam ali no momento que suas terras foram danificadas, e que deveriam te proteger, não fazem nada. Assistem, estáticos, assim como você. Não se esqueça também que a qualquer hora você pode receber uma ordem de demolição da sua casa, sem aviso prévio. Uma ordem de despejo também não está descartada. E não há nada que você possa fazer.

Não há sonhos, muito menos desejos. Suas crianças têm uma pequena chance de conseguirem “vencer na vida”, mesmo que frequentem a universidade. O que os espera assim que se formarem é mais uma humilhação: o desemprego.

Essa é sua vida, e não há nenhuma perspectiva de um futuro menos ruim pela frente. Israel é um país forte, os Estados Unidos, seu maior parceiro. E, pra piorar sua situação, as lideranças que o conduzem na forma da Autoridade Palestina são fracas. O outro (Hamas) está isolado e praticamente pulverizado na Faixa de Gaza. Pra ficar ainda pior sua situação, o mundo está perdendo o interesse na sua causa. E o que você vai fazer ?

Há somente duas possibilidades: ou você aceita esse destino e desiste de lutar ou resista pela sua liberdade. Imagine que você é um palestino. Você tem todo direito de resistir. Na verdade esse é um dever civil, não há o que discutir. É um direito natural, assegurado pela história e pela lei internacional. As únicas restrições são sobre a maneira com que essa resistência vai se dar. E os palestinos já tentaram quase todas, para o bem e para o mal: negociações, terrorismo. pedras, paus, facas, fogos de artifício, demonstrações ou ataques suicidas. Tudo em vão.

E aí, vai desistir? A história prova que não. Por isso, a resistência deverá continuar. Às vezes por meios sangrentos, outras vezes legais. Afinal, você tem o direito de resistir.

1
Deixe um comentário

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors
simone

Triste realidade , mas nunca se deve desistir sem ao menos tentar …