Herbert Moraes
Herbert Moraes

A nova guerra santa e a batalha por Jerusalém

Onda de violência é mais perigosa e muito mais mortal do que o que vem ocorrendo em 66 anos na região

Seis pessoas foram mortas em ataque a sinagoga em Jerusalém (Foto: EFE/Abir Sultan)

Seis pessoas foram mortas em ataque a sinagoga em Jerusalém (Foto: EFE/Abir Sultan)

Os dois terroristas palestinos que realizaram um ataque sangrento a uma sinagoga de Je­rusa­lém, na terça-feira passada, não tinham passagem pela polícia e não há registros de que estavam vinculados a qualquer grupo jihadista.

Os dois primos, moradores da parte oriental da cidade, mataram cinco pessoas: quatro rabinos e um policial de origem druza, que chegou ao local durante a matança e acabou sendo atingido.

Um pouco depois do atentado, circularam notícias de que os dois palestinos faziam parte da Frente Popular para a Libertação da Palestina, um grupo armado, que nos últimos anos vem atuando discretamente na Cisjordânia. Eles assumiram a responsabilidade pelo ataque, mas ninguém acreditou, apesar dos dois militantes, que também foram mortos, serem sobrinhos de um dos líderes da Frente Popular, que está preso.

Mas, se há um grupo que possa ser vinculado ao atentado, mesmo que indiretamente, seria o Estado Islâmico, que opera na Síria e no Iraque. O massacre na sinagoga não foi idealizado pelo grupo islâmico, mas a inspiração, sim. Não há dúvidas de que foi um cri­me religioso e ideológico, acompanhado de um ódio mortal aos judeus. A sinagoga não foi escolhida aleatoriamente para ser o palco de mais uma ação terrorista. A intenção era mesmo chocar.

Mesmo que os dois assassinos tivessem agido por conta própria — assim como quase todos os atos de violência que vêm ocorrendo em Jerusalém nas últimas semanas e que já mataram dez israelenses —, o massacre de terça se diferencia pelo planejamento. O alvo foi escolhido e meticulosamente estudado. Junte-se a isso a influência da organização terrorista Estado Islâmico, que tem como “marca registrada” a decapitação e a declaração de uma guerra religiosa. O crime na sinagoga tem uma marca diferente do que vem acontecendo em Jerusalém; afinal o ódio religioso está vinculado a ele, assim como também esteve, há pouco mais de um mês, ao ataque a um ativista judeu que militava pelo direito de rezar no Monte do Templo, local conhecido pelos árabes como a Esplanada das Mes­quitas, onde está Al Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado do Islã. Os discursos de Yehuda Glick enfureceram os palestinos.

Um deles atirou quatro vezes contra o ativista, que sobreviveu para contar que ao ser abordado, o atirador lhe disse: “me desculpe, mas você é um inimigo de Al Aqsa e por isso deve morrer”.

O governo de Israel também tem culpa pela onda de violência que se espalha pelo país. O gabinete, composto majoritariamente pela direita e extrema-direita israelense, contribuiu ao permitir que o status quo da Esplanada das Mesquitas, que é administrada pelo governo da Jordânia, fosse discutido na Knesset, o Parlamento. Defender a mesquita de Al Aqsa acabou se tornando o álibi perfeito para justificar atos de terror. E é isso que vem acontecendo.

Uma guerra religiosa se reiniciou em Jerusalém. Quando judeus extremistas, especialmente colonos, incendeiam mesquitas na Cisjordâ­nia, o governo israelense e muitos rabinos sempre condenam esse tipo de ação. Mas a fúria palestina parece ser ainda mais mortal. Com exceção do pre­sidente da Autoridade Pales­ti­na, Mahmoud Abbas, que ofici­almente condenou o ataque, o que se viu nas ruas de cidades e vi­larejos da Cisjordânia e de Gaza foi muita celebração. Por enquanto a onda terrorista ainda não se espalhou, mas o ritmo com que os ataques vem acontecendo, dois ou três por semana, já é suficiente para manter o conflito aceso e a sensação de insegurança que toma conta da população, principalmente dos moradores de Jerusalém.

Desde o dia do ataque à sinagoga, árabes-palestinos que trabalham em bairros judeus vêm sofrendo discriminação. Todos viraram suspeitos em potencial e estão sendo demitidos. E isso, certamente, vai levar ainda mais violência e revolta.

O que está acontecendo em Jerusalém nada mais é do que uma “guerra santa” na “cidade santa”. Não foi uma triste coincidência que judeus foram mortos enquanto se preparavam para rezar. O fundamentalismo religioso está mais do que intrínseco e escancarado na nova onda de violência. Mais perigosa e muito mais mortal do que vem ocorrendo nos últimos 66 anos nessa região, desde a criação do Estado judeu. l

Deixe um comentário