Herbert Moraes
Herbert Moraes

No Oriente Médio quem dá as cartas agora é a Rússia

Israel prometeu a Putin que não iria interferir na retomada final de Assad na Síria e a Rússia garantiu ao país que bloqueará qualquer tentativa de forças iranianas de se aproximarem de Golã

Vladimir Putin, presidente da Rússia, e Benyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel: reformatando a geopolítica do Oriente Médico de acordo o espírito absoluto da realpolitik

Divulgado na semana passada, o relatório de uma pesquisa do US News & World Report pôs Israel como oitava nação mais poderosa do planeta. A classificação de poder mede diferentes atributos, como influência política e econômica e a força das alianças internacionais e militares.

A pesquisa classifica os países em diversas categorias, como cidadania, qualidade de vida, influência cultural, herança cultural, empreendedorismo e inovação. No mesmo relatório, os Estados Unidos ficaram em primeiro lugar, seguidos pela Rússia em segundo e pela China em terceiro. À frente de Israel, além das três superpotências, estão a Alemanha, o Reino Unido, a França e o Japão. Ressalte-se que, de todas nações citadas, apenas Israel tem uma população de menos de 10 milhões de habitantes, o que indica que o país, apesar de pequeno, tem a grandeza de uma potência mundial.

No entanto, mesmo sendo tão forte como aparenta ser, Israel é apenas mais um jogador na arena internacional, e o Oriente Médio está longe de ser a região mais importante no mapa mundial neste momento, por isso os movimentos tem que ser estratégicos, e eles dependem das relações do Estado judeu com os outros sete países que estão à sua frente na lista dos mais poderosos do mundo.

Para o premiê israelense, entre tantas arenas, a mais crítica é a luta contra o Irã. Nos últimos meses, a batalha teve seu front expandido. Até o ano passado, Israel focava os esforços para apenas conter o projeto nuclear iraniano com hackers e espionagem. Mas, desde março a Força Aérea israelense passou a bombardear bases militares iranianas na Síria, com a intenção de reduzir a presença do Irã em suas fronteiras.

Israel pode agir sozinho, e sabe disso. Mesmo quando o assunto é o Irã ou a Síria, as decisões finais passam pelo Kremlin. O plano russo para a Síria é bem claro: o presidente Bashar al Assad volta a ter o controle total do país (atualmente, já controla 90%) — incluindo a parte síria das colinas de Golã, onde suas forças, com a ajuda da aviação russa, avançam diariamente, sem muitas batalhas, já que boa parte dos rebeldes se rendeu. Israel prometeu ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, que não iria interferir na retomada final de Assad. Em contrapartida, Moscou garantiu ao primeiro-ministro Benyamin Netanyahu que irá bloquear qualquer tentativa de forças iranianas ou de qualquer milícia xiita de se aproximarem da região do Golã.

O premiê israelense acredita que os russos manterão a palavra. Ele sabe que é do interesse de Vladimir Putin manter o Irã afastado, já que a guerra na Síria deve acabar nos próximos meses. O Kremlin já conseguiu o que queria dos iranianos. O presidente russo não é do tipo que gosta de parceiros para compartilhar os dividendos do sucesso. Até mesmo Assad, quando voltar a governar a Síria de fato, não vai querer o Irã tão perto.

Se os planos de expansão hegemônica regional parecem ter sido interrompidos, em outro front as coisas também não andam como os aiatolás imaginavam. Neste momento, o que restou do acordo nuclear, abandonado pelos Estados Unidos em maio, aparentemente vai para o ralo. Em Viena, os rumores é de que há um corpo na sala, e que o que restou do acordo é insustentável tanto para o Irã como para os países europeus. E não é só isso.

O regime iraniano vive um de seus piores momentos internamente. Protestos diários contra o governo acontecem não só nas ruas de Teerã, mas em várias cidades do país persa. Os iranianos reclamam dos gastos exagerados com questões externas e do investimento em conflitos como o da Síria às custas da própria população. Calcula-se que o Irã, nos últimos sete anos, tenha gasto entre 12 e 14 bilhões de dólares com o regime de Assad. Com a economia doméstica praticamente na lona, os israelenses e os americanos apostam numa revolta popular no Irã, assim como em 2009. A pressão internacional e as sanções podem quebrar de vez o país, e isso poderia levar ao colapso do regime em menos de um ano.

Deixe um comentário