Herbert Moraes
Herbert Moraes

Não só Israel, mas o mundo todo deveria se preocupar com o Irã

O mundo festejou o chamado melhor acordo diplomático em 70 anos, mas se os iranianos estiverem blefando o futuro de Israel estará comprometido

Negociadores do Irã e de potências  mundiais se reúnem em Viena, na Áustria | Reuters

Negociadores do Irã e de potências
mundiais se reúnem em Viena, na Áustria | Reuters

Se o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, ti­ves­se em suas mãos um pe­que­no objeto com um botão vermelho, será que ele seria capaz de apertá-lo com o objetivo de eliminar todos os cidadãos israelenses? Ninguém sabe responder essa questão, mas é quase certo que sim. Se puxarmos a “ficha corrida” do líder máximo do Irã e observarmos o que ele fez desde que substituiu o fundador da República Is­lâ­mi­ca, o aiatolá Khomeini, então te­re­mos a resposta para a questão acima.

Este é o mesmo Khamenei que assinou em 1994 a autorização de uma operação terrorista que teve como saldo a morte de 85 pessoas, quase todos judeus, no atentado à um centro de cultura judaica em Buenos Aires. O líder iraniano, há quatro anos, financia e protege o ditador Bashar al Assad na guerra na Síria que já matou mais de 300 mil pessoas e deixou milhões de refugiados.

Se havia motivos para os israelenses se preocuparem com o Irã, agora eles têm de sobra. Mas a ameaça não se restringe apenas ao Oriente Médio. Há diversas razões para todos se inquietarem com o acordo que foi assinado em Viena, entre o Irã e as potências mundiais. A primeira delas é o risco da proliferação nuclear.

A comunidade internacional comemorou e ainda comemora o que chama de melhor acordo diplomático dos últimos 70 anos, aquele que foi capaz de conter a besta nuclear. Aqui em Israel, todos sabem que diplomaticamente o país foi eficaz em manter o monopólio de Dimona (a usina nuclear do país) na região, nos últimos 50 anos. Se o que foi assinado em Viena for respeitado, então nos próximos 10 anos, como está previsto no acordo, o mundo poderá respirar aliviado. Mas se os iranianos, que têm fama de traidores, estiverem blefando, se o documento assinado em Viena for vago (o conteúdo principal do acordo não foi revelado) e se os mecanismos de monitoramento falharem, então o mundo vai se tornar um lugar diferente — e o futuro de Israel estará, sim, comprometido.

Outro motivo de preocupação é a expansão do poder militar do Irã e sua indústria bélica. Pelo menos 50 mil iranianos estão preparados e eles sabem construir satélites, mísseis, navios sofisticados e aviões não tripulados, os famosos drones. O país, mesmo quando estava à beira da falência, manteve o financiamento de sua indústria de armamentos. Com a injeção de bilhões de dólares em sua economia, que deverá acontecer assim que as sanções forem suspensas, a questão das armas convencionais do Irã volta à mesa de discussão do gabinete de segurança israelense, que vê o avanço como uma questão semi-existencial.

Outra razão para levantar a sobrancelha quando o assunto é o Irã e seu programa nuclear, é o plano de hegemonia regional que o país tem para o Oriente Médio. Há quatro anos que o mundo árabe está se esfacelando. Com o colapso, já não há mais Iraque, Síria, Iêmen, Líbia e Sudão. O mínimo de estabilidade que dava à região uma sensação de ordem, desmoronou. Não existe mais. O Irã, mesmo nos tempos difíceis, soube tirar vantagem do caos árabe, e já tomou Bei­rute, Damasco, Bagdá e Sa­naa. Com a legitimidade alcançada em Viena, agora, Teerã vai, sim, cantar vitórias sobre o acordo, e impor o medo no Oriente Médio.

Mas, como ansiedade pode provocar estragos em qualquer estratégia, é hora de Israel parar de bancar o profeta do fim do mundo. Ninguém está interessado em ouvir isso. Os países mais poderosos do planeta fizeram uma escolha e já tomaram a decisão. Então, só resta aos israelenses ampliarem a participação diplomática no jogo em que, por enquanto, o aiatolá está levando a melhor. Este é o momento de Israel retomar o diálogo com as grandes potências, entre elas os Estados Unidos. Sim, a relação entre os dois parceiros de longa data está abalada, por mais que tentem disfarçar. O papel de Israel nesse momento é o de garantir que o acordo de Viena não provoque riscos e se torne uma repetição do que foi assinado em Munique, em 1938, quando os líderes da França e Reino Unido fixaram um pacto com a Alemanha nazista, aceitando a imposição de Hitler na anexação de parte da Checoslováquia à Alemanha, em troca de paz. Mas em 1939, os alemães marcharam sobre a Checoslováquia e tornaram a maior parte do país um protetorado, anulando o Pacto de Munique. A 2ª Guerra Mundial começou logo depois e o resto é história. Mas se a história é uma repetição de fatos, então é bom que não só Israel, mas o mundo inteiro fique de olho no Irã, para que Viena não se torne a Munique do século 21.

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Allegro Manontroppo

Não se pode deixar que esse tipo de “governos” fanáticos e assassinos tenha o poder atômico.