Herbert Moraes
Herbert Moraes

Não há vitoriosos em Aleppo

Até 2011, antes da guerra civil, a população da principal cidade da Síria passava de 2 milhões e meio. Ho­je estima-se que pouco mais de 1 décimo desse número ainda está no local

Civis resgatam vítimas de um bombardeamento em Alepo | Foto: George Ourfalian/ AFP

Civis resgatam vítimas de um bombardeamento em Alepo | Foto: George Ourfalian/ AFP

Os ataques brutais na cidade de Aleppo, na Síria conflagrada, que o mundo vem assitindo nas últimas semanas, provocaram revolta e exigiram dos Estados Unidos uma posição mais beligerante na guerra civil naquele país. O que já foi a maior cidade do país, Aleppo, desde o início do conflito tornou-se o principal reduto de rebeldes que lutam contra o regime de Bashar al-Assad. Os vários bairros controlados pelas milícias vêm sendo bombardeados diariamente. A região está cercada, e os milhares de civis que ainda estão por ali, se não morrem sobre escombros de suas casas, têm de conviver com a fome e com a sede. Os caças da força aérea russa e a artilharia síria submetem 350 mil pessoas a um novo Holocausto. Hospitais foram destruídos, a ajuda humanitária foi cortada, e as crianças já são metade das vítimas.

Se o regime de Bashar al-Assad tomar Aleppo, como já declarou, vai controlar boa parte do deserto habitado do país. A ação deverá fortalecer ainda mais sua ambição de se tornar o homem forte da Rússia e do Irã na região. O fracasso da diplomacia americana, liderada pelo secretário de Estado John Kerry, que não conseguiu levar ajuda a Aleppo, parece confirmar o que todos já sabem: os americanos não querem se envolver de fato na questão síria. O problema é que o conflito chegou a um ponto que, seja por razões humanitárias ou medição de forças, a Casa Branca terá que agir. Mas a essa altura, o que pode ser feito?

Veja Aleppo, o “prêmio” que As­sad e seus aliados estão determinados a levar. Até 2011, antes da guerra civil, a população passava de 2 milhões e meio. Ho­je estima-se que pouco mais de 1 décimo desse número ainda está na cidade. Casas, bairros inteiros, fábricas, infraestrutura e todo centro histórico milenar foram pulverizados.Mesmo que os rebeldes abandonem Aleppo, Assad não tem homens suficiente para ocupar e controlar todos os bairros. E os russos já deixaram claro que não estão dispostos a colocar suas tropas para esse serviço. O grau de destruição é tão grande em Aleppo que é difícil acreditar que os ex-moradores, hoje refugiados, estejam dispostos a voltar e reerguer tudo de novo.

Não há vitoriosos na batalha de Aleppo, simplesmente porque não há mais nada. Só ruínas. E o que vale para Aleppo, vale para toda Síria. Assim como sua principal cidade, o país está reduzido a escombros. Antes da guerra, a população era de 22 milhões de habitantes. As Nações Unidas estimam que 5 milhões estão vivendo como refugiados, e outros 6 milhões foram forçados a se deslocar dentro do próprio país. A economia também encolheu drásticamente. Imagens de satélite, que mostram os clarões das cidades pelo mundo, e que serve de medidor da atividae econômica de cada país, mostra 80% da Síria, literalmente nas trevas.

“Senhores da guerra”

Nas áreas controladas por Assad, sua presença é praticamente fictícia.Há muito tempo que o exército sírio deixou de ser uma força de combate. O regime tem que contar com os famosos “senhores da guerra” e milícias que são incapazes de agir de forma coordenada já que cada um tem seus interesses. Teoricamente eles respondem às ordens de Assad. O Irã participa do caos e da anarquia com suas próprias milícias, além do Hezbolá, e a Rússia por enquanto garante o poder aéreo mas também estuda o envio de tropas.

Quando a guerra civil na Síria terminar, a situação do país será catastrófica. Nos bons tempos, quando estava realmente no poder, a família Assad administrava uma economia fossilizada e corrupta. Não há razões para acreditar que os dois países que o apoiam, cujas economias também estão na lona, terão caridade e irão promover o milagre sírio. Nem a Rússia e muito menos o Irã têm dinheiro suficiente para ajudar nos esforços de reconstrução. Os refugiados provavelmente ficarão onde estão. Mas as milícias que ajudam Assad vão cobrar seu preço e está estabelecido o caos político, assim como aconteceu na Líbia, no Iraque e no Iêmen.

Sim, o sofrimento de Aleppo e da Síria é terrível, mas as soluções que vêm sendo apresentadas para solucionar o problema, na verdade, garantem a continuação do martírio. O governo americano gastou trilhões de dólares no Iraque e na Síria, e isso não trouxe a paz, muito menos prosperidade ou democracia a estes países. O caos na Síria também é motivo para desalento. O sofrimento em Aleppo pode ser resovido rapidamente com uma ação americana, mas o problema certamente se instalaria em outras cidades.

Não há razões para os Estados Unidos de fato se preocuparem com eventual vitória russa na Síria. A intervenção militar de Putin foi uma campanha de marketing para fazer a “nova” Rússia parecer uma superpotência. Mas tudo isso é show. E ao contrário da ex-União Soviética durante a guerra fria, a Rússia de hoje não tem ideologia e muito menos disposição de cimentar alianças. Por isso, manter Assad no poder, depois, pode ser carta na manga que Putin tem nas mãos. Assad fica no poder somente enquanto o presidente russo quiser. Ele sabe disso e sabe também que é tudo que tem.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.