Herbert Moraes
Herbert Moraes

A maldição do Monte

Prevenir uma crise global e evitar que o que está acontecendo em Jerusalém se espalhe para outros países árabes e muçulmanos são o foco principal neste momento

Na quinta-feira, 27, quando os distúrbios em Jerusa­lém pareciam estar saindo do controle, o rei Salman, da Arábia Saudita, falou com vários líderes mundiais para tentar frear duas semanas de violência, desde que dois policiais israelenses foram mortos num dos portões de acesso à Mesquita de Al Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado do islamismo. Não foi divulgado com quem o rei conversou, mas foi depois que os sauditas entraram na disputa que os muçulmanos voltaram a rezar em Al Aqsa.

O Monte do Templo, como é chamado pelos judeus, ou Haram al-Sharif pelos muçulmanos, talvez seja um lugar santo, mas a solução para a tempestade que há duas semanas não sai dali é política. Aparen­temente foi uma luta por soberania e controle entre o Waqf (a entidade islâmica que administra as mesquitas sob a batuta da Jordânia) e o governo israelense, uma disputa centrada em preservar o status quo da Esplanada das Mesquitas estabelecido há mais de 50 anos também por decisão política e não religiosa.

Prevenir uma crise global e evitar que o que está acontecendo em Jerusalém se espalhe para outros países árabes e muçulmanos são o foco principal neste momento. O que chama a atenção, desta vez, é que não é só Israel que teme uma nova revolta palestina ou a terceira Intifada; outras lideranças árabes também estão preocupadas. A “primavera árabe” e suas consequências ainda estão bem frescas na memória do povo dessa região, e a possibilidade de que uma nova revolta contamine todo o Oriente Médio é real.

Não é preciso ser uma pessoa de fé para perceber que Jerusalém em geral, mas especificamente a Esplanada Sagrada (para usar uma terminologia mais neutra), tem uma simbologia central para o judaísmo, para o cristianismo e o islamismo. Não foi por uma mera coincidência que, primeiramente o cristianismo e depois o Islã, tenham estabelecido suas tradições sob os costumes de seus antecessores, e todos eles clamaram o feito de se sobrepor ao outro. E isso fico bem claro nas histórias que cada uma dessas religiões têm para contar sobre o Monte.

Foi o conflito infindável entre palestinos e israelenses que levou os dois lados a insistirem na ideia de que o monte só é sagrado para uma religião. Ninguém sabe, por exemplo, qual era o significado do mesmo Monte Moriá para os cananeus que habitavam Jerusa­lém bem antes dos hebreus chegarem. A Bíblia conta que o rei Davi, mil anos antes de Cristo, conquistou a cidade, mas insistiu em pagar pela área que compõe o monte ao rei Jebuseu Arauna. Foi ali que Deus teria instruído Davi a erguer um altar e realizar oferendas, a fim de acabar com uma praga que matou 70 mil pessoas de seu próprio povo. Com a morte de Davi, Salomão assume o trono e ergue o primeiro templo.

Já o Cristianismo estabelece que foi no Monte do Templo que Jesus teve uma das passagens mais importantes de sua vida. O Evangelho segundo Lucas diz que os pais de Jesus o levaram para o Templo logo após seu nascimento e que ele só retornou para casa quando tinha 12 anos. Tempos depois, já adulto, Jesus volta a reaparecer no Templo, dessa vez revoltado com o comércio e os sacrifícios que eram realizados no local santo. A Bíblia também conta, em João, capítulo 4, que Jesus se encontra com uma samaritana no Monte Gezerin e diz “é chegado o tempo que não será mais preciso orar ao pai dessa montanha ou de Jerusalém”. Os sacrifícios e o Templo onde eles aconteciam tornam-se desnecessários depois da morte e ressurreição de Cristo.

O Corão, a primeira escritura do Islã, não menciona Jerusalém pelo nome. Somente nos hadiths, os textos suplementares que contam as palavras e os atos do Profeta Maomé, que é estabelecida uma conexão entre a Mesquita de Al Aqsa ( “a mais longínqua”, em árabe) é mencionada na sura 17 do Corão. De acordo com as escrituras, Maomé fez a última viagem desde a “Sagrada Mesquita” em Meca, até a mais distante de todas: Al Aqsa, em Jerusalém. A viagem noturna de Maomé, segundo o Corão, foi feita no lombo do cavalo Buraq, que o levou de Meca a Jerusalém (numa viagem chamada Isra), onde ele rezou e depois ascendeu aos céus (a Miraj) para conversar com Alá antes de retornar a Terra. Tudo isso aconteceu em apenas uma noite.

De fato, o que o Corão faz ao contar essa versão, é estabelecer um gancho entre o Islã e Jerusalém, que rapidamente tornou-se o terceiro lugar mais sagrado para o islamismo depois de Meca e Medina. Maomé morreu no ano de 632, e foi sucedido pelo primeiro califa Abu Bakar e depois por Omar, que conquistou Jerusalém em 638 e construiu ali a Mesquita de al Aqsa e o Domo da Rocha. O reino de Omar em Jerusalém ficou conhecido pela tolerância, mas os próximos 1,5 mil anos foram marcados por uma sucessão de conquistas que destruíram e reconstruíram Jerusalém pelo menos 11 vezes.

A vez dos judeus veio em 1967, com a Guerra dos Seis Dias e a unificação da cidade sob a lei de Israel. Em geral, a política israelense para Jerusalém é de tolerância religiosa e abertura. Quando as forças de segurança fecharam o Monte do Templo por dois dias, impedindo o acesso de muçulmanos ao local logo depois do assassinato de dois policiais num dos portões de acesso, foi a primeira vez desde 1969. Desde então a questão sempre esteve no ar: quem de fato manda no Monte do Templo ou na Esplanada das Mesquitas? Desde 1967, quando forças israelenses hastearam uma bandeira de Israel no alto da Mesquita de al Aqsa e logo depois retirada a mando de Moshe Dayan que temia uma guerra mundial sem precedentes caso status quo do Monte não fosse mantido. Dayan estava certo.

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