Herbert Moraes
Herbert Moraes

Malala levou , mas Edward Snowden também merecia um Nobel da Paz

Adolescente foi reconhecida pelo comitê norueguês também porque atua ativamente contra o governo de seu país

Malala Yousafzai, a menina paquistanesa condecorada com o Prêmio Nobel por sua luta em favor dos direitos das mulheres de seu país

Malala Yousafzai, a menina paquistanesa condecorada com o Prêmio Nobel por sua luta em favor dos direitos das mulheres de seu país

Há poucos dias, o mundo inteiro assistiu uma adolescente receber o prêmio Nobel da Paz. A honraria, o maior reconhecimento que os países ocidentais fazem anualmente para destacar pessoas que, de alguma forma, contribuem para a humanidade, dessa vez foi parar nas mãos de Malala Yousafzai. Uma menina de apenas 17 anos, que desde já, é a pessoa mais jovem a ser condecorada com o prêmio Nobel, que foi criado em 1895 pelo inventor sueco Alfred Nobel.

Mas para conhecer Malala, é preciso entender de onde ela vem. Yousafzai nasceu no Paquistão. No dia em que um terrorista talebã atirou duas vezes contra ela, a adolescente estava a caminho da escola. O sistema educacional paquistanês encontra-se em estado tão lastimável, que o mero ato de ir à escola, principalmente para as meninas, demonstra extrema coragem.

Ela estava na sala de aula, numa escola para garotas, em Birmin­gham, na Inglaterra, quando foi informada que havia sido escolhida para receber o Prêmio Nobel da Paz, pela sua luta heróica pelo direito das meninas paquistanesas de estudar.

Imagino que Malala ficou feliz com a notícia, mas não surpresa. Sua relação com o Ocidente começou há bem mais tempo. Aos 11 anos ela começou a escrever em um blog que era divulgado pela BBC, a TV estatal britânica. Diaria­mente descrevia como era a vida de uma pré-adolescente sob as re­gras do Talibã. Na época, Malala so­nhava em se tornar médica, e para isso sabia que precisava estudar. Filha de Ziauddin Yousa­fa­zai, que dirigia uma rede de escolas no Paquistão, Malala queria muito ter o direito de uma educação digna. Ela foi milagrosamente salva do atentado que mudou sua vida em 2012, quando voltava da escola e um militante talibã atirou à queima-roupa atingindo seu rosto. A partir daí virou um símbolo da luta das mulheres pela educação. Nos últimos anos foi agraciada com diversos prêmios, e recentemente teve a data de seu aniversário transformada em “o Dia de Malala” pela ONU, em reconhecimento pelo trabalho realizado.

Não podemos negar que a jovem paquistanesa tem uma história expecional de vida, mas está bem claro que seus valores se encaixam com os do Ocidente, e funcionam perfeitamente como mensagem aos grupos fanáticos que assolam a região de onde ela vem. A paquistanesa não foi reconhecida pelo comitê norueguês apenas por lutar pelo direito de estudar, mas também porque atua ativamente contra o governo de seu país colocando em risco sua liberdade e a própria vida.

Outro que merecia, mas não levou, é o analista de sistemas Edward Snowden, que trabalhava para a CIA e para NSA, as duas maiores agências de segurança dos Estados Unidos, e tornou público detalhes de vários programas que constituem o sistema de vigilância global da NSA. Ele ficou conhecido por expor as injustiças praticadas pelo governo de seu país mundo afora.

Considerado um gênio da computação, seu futuro profissional e financeiro estava garantido, e se tivesse escolhido utlizar todos os seus conhecimentos em tecnologia para conseguir um bom emprego na iniciativa privada, certamente estaria em uma colocação confortável no mercado. Mas Snowden preferiu entregar aos jornais “Washin­gton Post” e “The Guardian” tudo aquilo que sabia e tinha em mãos: informações sobre um sistema de vigilância conhecido como PRISM, um programa que auxiliava o governo americano a bisbilhotar qualquer usuário das nove maiores empresas de comunicação da internet. A revelação expôs a estreita relação do governo de Barack Obama com companhias como a Google, Facebook e a Apple, que disponibilizavam, ou ainda dispõe, informações que ajudavam o governo a supervisionar cidadãos americanos. Snowden foi acusado de roubo de propriedade pelos Estado Unidos e fugiu do país.

Os jornalistas que publicaram o material fornecido por ele, tiveram o trabalho reconhecido pelo Prêmio Pulitzer, enquanto a fonte, que foi exposta, mora em algum lugar na Rússia, onde ganhou asilo temporário e vive como um fantasma.

A essência do Prêmio Nobel deveria ser definida por traçar novos caminhos e não apenas por perpetuar valores já existentes. Se o comitê norueguês tivesse premiado Snowden com o Nobel da Paz estaria estabelecendo um confronto direto com o governo americano, mas ao mesmo tempo estaria sinalizando aos países ocidentais que aos poucos eles estão se tornando sociedades vigiadas, onde populações inteiras ou indivíduos são monitorados a todo tempo. Bem diferente do discurso de liberdade, infestado pelo espirito democrático que esses mesmos governos, inclusive o da Noruega, tentam nos vender.

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