Herbert Moraes
Herbert Moraes

Hamas admite negociar com Israel

Situação da população palestina é calamitosa e, para além da guerra, as pessoas precisam de ajuda humanitária. Há 700 milhões de dólares a caminho

Força Aérea de Israel bombardeia a Faixa de Gaza em resposta aos mais de 150 foguetes lançados pelo Hamas

Enquanto escrevo esta coluna, em Tel Aviv, a Faixa de Gaza — a 60 km de onde estou — está sendo bombardeada pela Força Aérea de Israel. Trata-se de uma resposta aos mais de 150 foguetes lançados pelo Hamas contra cidades e vilarejos que ficam próximos ao território palestino. Sderot, cidade que está a apenas 2 km de Gaza, é sempre a mais castigada, e desta vez não foi diferente. Onze pessoas ficaram feridas. Do lado palestino, uma mulher grávida, um bebê de 18 meses e um homem morreram nos bombardeios.

Foi mais uma escalada da violência que pode levar os dois lados à batalha. Desde a semana passada, o Egito faz mediação para tentar acalmar os ânimos e iniciar uma conversa produtiva de negociação.

Enquanto o Hamas divulga que um acordo de cessar-fogo permanente deverá ser assinado até o final de agosto, em Israel os militares pensam diferente dos políticos quando o assunto é a possibilidade de um tratado com o grupo terrorista que controla a Faixa de Gaza. O Ministério da Defesa recomenda, primeiramente, que a questão econômica no território faça parte das primeiras tratativas, antes que temas como a libertação de civis israelenses e a devolução de restos mortais de soldados entrem em discussão. Sob pressão da oposição, esse é um dos assuntos que o gabinete do primeiro-ministro Benjamin “Bibi” Netanyahu pretende solucionar se um acordo, de fato, sair.

Os militares acreditam que projetos humanitários poderiam ser desenvolvidos na Faixa de Gaza a ponto de retardar um futuro conflito em pelo menos dois anos, quando o projeto israelense de uma barreira de concreto subterrânea, ao longo de toda a fronteira com o território controlado pelo Hamas, estará pronto. Muitos oficiais vêm expressando preocupação não só de uma crise humanitária sem precedentes, mas de um confronto militar.
Apesar dos rounds de violência, desde que as negociações passaram a ser mediadas pelo Egito, a questão humanitária virou o ponto central das discussões entre Israel e o Hamas. A Autoridade Palestina, de Mahmoud Abbas, que controla a Cisjordânia, foi deixada de fora das conversas, que avançam. Segundo a proposta que vem do Cairo, a ONU ficaria com a responsabilidade pela reconstrução, enquanto os egípcios fariam o papel de fiscais e supervisores das obras que seriam financiadas pelos países do Golfo como o Catar, além da participação da União Europeia e os Estados Unidos. Um investimento que, ultrapassando 700 milhões de dólares, não será administrado nem pelo Hamas e nem pela Autoridade Palestina.

Desespero

O Hamas ainda não respondeu oficialmente à proposta, mas dá sinais de que vai aprová-la, já que a situação humanitária em seu território é realmente desastrosa. Gaza está à beira do abismo e pode entrar em colapso. Em parte, devido às restrições impostas pelo rival Mahmoud Abbas e seu partido, é o Fatah que paga, ou deveria pagar, os funcionários públicos que trabalham em Gaza. Mas isso há meses que não acontece, o que está levando a população ao desespero.

Na Cisjordânia, o Fatah de Abbas e a Frente Popular para a Libertação da Palestina criticam o Hamas por trabalhar por um acordo de cessar-fogo sem a aprovação nacional dos palestinos. Os dois partidos acreditam que uma trégua permanente vai beneficiar apenas Israel e os Estados Unidos, que, segundo eles, têm um plano para separar a Faixa de Gaza da Cisjordânia.

Se o plano existe ou não, ainda é um mistério. Mesmo com rodadas violentas como as das últimas semanas, os dois lados dão sinais que querem continuar negociando. Só que o Hamas enfrenta um dilema. Enquanto assinala que quer a paz (mesmo que temporária), já não consegue interromper os ataques que vêm acontecendo. Isto porque o governo central de Gaza não tem o controle das outras milícias que também atuam no território. São elas que mantêm a fronteira com Israel como um ponto de atrito permanente. As mesmas milícias, como a Jihad Islâmica, são capazes de mobilizar milhares de pessoas, como vem acontecendo há meses, para enfrentarem tropas israelenses na cerca que separa os dois territórios. O Hamas já não consegue controlar as manifestações populares de resistência. O grupo sabe que um longo cessar-fogo é uma oportunidade única para voltar a se fortalecer internamente. Se vai aceitar ou não a proposta que pode dar início a algo ainda maior, até o final de agosto saberemos.

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