Herbert Moraes
Herbert Moraes

A guerra que todos temiam no Oriente Médio está mais próxima do que se pensa

Renúncia do primeiro-ministro libanês Saad Hariri desestabilizou o Líbano e põe a região à beira de um conflito sem precedentes

Príncipe Mohamed bin Salman, futuro rei da Arábia Saudita, manda prender 11 políticos rivais, entre eles alguns príncipes

A inesperada renúncia do primeiro-ministro libanês, Saad Hariri,na semana passada, desestabilizou o Líbano e colocou Oriente Médio à beira de uma guerra sem precedentes.
Hariri deixou o cargo durante uma viagem aos Emirados Árabes e ao Reino Saudita, na semana passada. Foi forçado, pelo regime de Riad, que nesse momento passa por um profundo processo de transformação. Durante décadas, a Arábia Saudita sempre demonstrou cautela à um confronto. O país e a família que o dirige, eram tidos como inabaláveis. Um oásis de estabilidade econômica e um parceiro estratégico para os Estados Unidos. Mas esse país não existe mais.

O terremoto que abala as estruturas do feudo real saudita tem nome: príncipe Mohamed bin Salman. Dias antes da renúncia do premiê libanês, ele determinou a prisão de 11 políticos rivais , entre eles alguns príncipes. O futuro rei da Arábia Saudita acusa os membros da realeza de corrupção. Ao mesmo tempo que autorizou a prisão de nobres, ele também nomeou pessoas que considera leais para cargos estratégicos.

Ainda não é possível prever os resultados dessa “sacudida” que o futuro rei saudita está provocando no reino. O processo de mudança de rumo na condução do país começou em 2015, quando o rei Salman, pai de Mohamed bin Salman foi coroado. Assim que assumiu o trono ele determinou a saída de homens leais ao rei anterior, Abdulla, de cargos de confiança. O rei Salman bin Abdulla al Saud, que tem 82 anos, se prepara para entregar a coroa à nova geração, que forma uma longa lista de candidatos ao trono. Alguns deles são rivais do príncipe Mohammed Bin Salman, que deverá ser o escolhido. Em junho desse ano, o rei Salman retirou da lista a principal ameaça à sucessão de pai para filho. Mohamed bin Nayef, que em 2015 tornou-se príncipe herdeiro, foi destronado, e no lugar dele o rei colocou seu filho mais novo, Moahamed bin Salman, como o herdeiro da coroa. Apesar do governo saudita negar, há rumores que o príncipe bin Nayef está em prisão domiciliar. E com ele fora do tabuleiro, a família real saudita acredita que a transição de poder de pai para filho deverá acontecer naturalmente, sem sobressaltos.

A lista, dos homens que foram presos, demonstra que houve uma seleção cuidadosa dos rivais do príncipe herdeiro. Todos eles fazem parte da alta esfera econômica e política do país, como o príncipe Al-Waleed bin Talal, que é considerado um dos homens mais ricos da Arábia Saudita e do mundo. Outro ilustre preso é o príncipe Mutaib bin Abdullah, que também é filho do atual rei e foi chefe da Guarda Nacional, além dele, seu irmão, o príncipe Turki bin Abdulla, que já foi governador de Ryaad, também foi encarcerado.

Muitas dessas figuras não hesitaram em críticar o rei e seu filho pela desastrada política internacional da Arábia Saudita. A guerra no Iêmen está longe do fim e deixou o exército saudita numa armadilha que parece não ter saída. O reino perdeu o controle da crise que gerenciava na Síria, e apesar de ter investido milhões de dólares para armar dezenas de milícias, foi incapaz de derrubar o ditador Bashar al Assad. A disputa direta com o Catar levou o país a adotar sanções contra o vizinho, que foram acompanhadas pelos Estados Unidos, Bahrein, Egito e Emirados Árabes. Mas a tática não deu certo e já aparece como um grande erro diplomático que apneas provocou um racha no Conselho de Cooperação dos países do Golfo, mas não obteve o resultado que queria, e o Catar continuou sua dúbia política para a região. A intervenção do príncipe Mohamed na questão entre palestinos e israelenses também não deu frutos. Agora ao forçar a saída do primeiro-ministro do Líbano, o príncipe e casa real saudita demonstram desespero e despreparo. A intenção é provocar o caos no país vizinho afim de que o Irã tenha que intervir. Uma das teorias sobre a saída de Hariri do poder é de que uma vez fora do alcance do Hezbolá ( grupo xiita libanês que tem o apoio do Irã), o grupo teria que entrar em guerra com Israel, o que provocaria a entrada do Irã. Os sauditas iriam adorar colocar seu arquiinimigo numa disputa direta com o Estado judeu.

Aparentemente todos os caminhos deverão levar a um conflito entre Irã, Israel e a Arábia Saudita. A renúncia do premiê libanês, as transformações internas no reino saudita e o fim da guerra contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque são os ventos da mudança que já começam a soprar por aqui. Mas agora a briga é de “cachorro grande”, e todos os lados já falam abertamente em guerra. Se ela virá ou não, os próximos dias dirão.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.