Herbert Moraes
Herbert Moraes

Guerra pela sobrevivência

O Hezbollah entra em pânico, as tropas do regime sírio recuam e Bashar al-Assad pode ter que deixar Damasco. Com o avanço dos rebeldes e do Estado Islâmico, a realidade na Síria está prestes a mudar

No domingo passado, durante o discurso de comemoração dos 15 anos da retirada do exército israelense do sul do Líbano, o líder do grupo xiita Hezbollah, Hassam Nasrallah, classificou o Estado Islâmico como “o maior perigo de todos, jamais visto por aqui”. Um dia antes ele já havia afirmado que o Hezbollah estava lutando contra uma ameaça existencial ao Líbano e ao mundo árabe, e ainda alertou que se os rebeldes sunitas conseguirem derrubar o regime de Bahsar al-Assad, os libaneses certamente também serão vítimas de massacres, estupros e escravidão assim como os sírios. Nasrallah convocou uma mobilização nacional contra o Estado Islâmico, atestando que tanto o grupo xiita libanês quanto as forças de Assad não possuem mais homens suficientes para tantas batalhas.

Notícias ruins não param de chegar ao palácio de ditador sírio, e o tom alarmante do líder xiita é o reflexo disso, afinal no leste da Síria o Estado Islâmico, também conhecido por Isis ou Dash (como é chamado aqui no Oriente Médio), já capturou a cidade histórica de Palmyra, que foi erguida pelos romanos há mais de 2 mil anos e é chamada de a “joia do deserto”.Massacres já ocorreram no anfiteatro e há corpos espalhados por todos os lados, segundo testemunhas. Do outro lado do país, no noroeste da Síria os rebeldes sunitas continuam avançando; em Jisr al-Shugur, um vilarejo considerado reduto do ditador, foi tomado pelos insurgentes e centenas de pessoas morreram lutando durante quatro semanas. Bashar al- Assad havia prometido retirar os moradores de lá. Uma promessa em vão. O resgate nunca chegou. Em outro front, na região das montanhas de Qalamoun, bem na divisa da Síria com o Líbano, os combates são intensos e os rebeldes também estão levando a melhor.

Depois de quase um ano de “tranquilidade” para o ditador, que parecia rumo à vitória contra os re­beldes, o jogo virou, e aos poucos o regime de Assad vai recuando de múltiplos fronts. O avanço dos r­e­beldes no norte, onde são apoiados pe­la Frente Al Nusra, que representa a Al-Qaeda, deixou em perigo a região dominada pelos alauí­tas, uma vertente xiita da qual As­sad faz parte. A ameaça chegou também às cidades de Homs e Hama, que podem ser tomadas tanto pelos rebeldes como pelo Es­tado Islâmico, que dali bombardeia diariamente a capital Damasco.

A sucessão de falhas das forças de Bashar al-Assad tem explicação: depois de mais de quatro anos de uma sangrenta guerra civil a capacidade militar e a motivação dos soldados já não são mais as mesmas e pela primeira vez os rebeldes sírios estão recebendo assistência coordenada de países como a Arábia Saudita, Turquia e Catar.

Apesar da deterioração de seu exército, Assad ainda conta com o reforço do Hezbollah, a Guarda Revolucionária do Irã, além de navios de guerra russos que estão aportados em Tartus, no norte. Mas as ameaças são maiores, e os últimos avanços constituem de fato uma ameaça a sua sobrevivência. Nos próximos meses a previsão é que Assad tenha de abandonar Damasco e focar no que deve lhe restar do que um dia foi a Síria: um enclave no norte, onde estão os alauítas. Se vai conseguir sobreviver saberemos nos próximos meses. Mas como ficará a Síria um dia depois da queda do ditador? Os confrontos acabam aí? Pelo contrário, milícias rebeldes deverão tomar conta do país e uma outra guerra civil começa imediatamente, bem parecida com a que aconteceu no Afeganistão logo depois da retirada das tropas soviéticas em fevereiro de 1989.

Depois de quase meia década de confrontos a realidade na Síria está na iminência de mudar completamente. E o que virá depois ainda é especulação. O que está mesmo garantido é a continuação do caos.

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