Herbert Moraes
Herbert Moraes

Faltou combinar com os russos

Israel terá que agir com mais cautela e sabedoria nas condutas militar e diplomática quando o assunto for Rússia

Em um tom mais amigável, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse que Israel não foi responsável pela queda de avião militar | Foto: reprodução

Aqui em Israel e, certamente, em muitos outros países com alta capacidade militar, seja por questões históricas ou poder de guerra, uma das lições que são passadas de comandante para comandante é que, em caso de conflito, não se deve mexer com os russos. Mas, caso seja inevitável, é bom, pelo menos, combinar com eles.

Na noite de segunda-feira, 16, não aconteceu nem uma coisa e nem outra. Um caça israelense bombardeou um depósito de armas que pertencia ao Irã e era guardado por militares iranianos estacionados no Porto de Latakia, na Síria. O local é um dos lugares mais protegidos em território sírio, já que ali também estão as principais bases militares russas, incluindo o próprio porto de Latakia. Na hora do ataque, o sistema antimissel do exército sírio foi ativado. Para desviar da artilharia, o caça israelense fez uma retirada que colocou, bem no meio do caminho, um avião da inteligência russa que sobrevoava a região. A aeronave, com 15 pessoas à bordo, foi atingida e caiu no Mar Mediterrâneo. Não houve sobreviventes e menos de uma hora depois do incidente, o Ministro da Defesa da Rússia, Sergey Shogun, acusou e, categoricamente, ameaçou Israel. Disse que a Russia se reservava ao direito de retaliação “quando e como quiser”. O clima pesou por aqui. Era véspera de Yom Kippur, a data mais importante do calendário judaico, mesmo assim o gabinete do premiê israelense iniciou uma corrida diplomática que, aparentemente, deu resultado.

Na terça-feira, 17, o presidente Vladimir Putin disse que Israel não foi responsável pela queda do avião militar. “Me parece mais uma corrente de circunstâncias que levaram a essa tragédia. O caça israelense não atingiu o nosso avião”, afirmou o líder russo, que, num tom mais amigável, colocou um fim em possíveis especulações sobre o incidente. Mesmo assim, apesar da absolvição de Putin, o fato em si, e, principalmente, a rapidez da condenação inicial, são causas, genuínas, de preocupação para o governo israelense que, a partir de agora, terá que agir com mais cautela e sabedoria tanto na conduta diplomática quanto militar quando o assunto for a Rússia.

Ainda é cedo para dizer se o incidente vai ou não minar as relações entre Jerusalém e Moscou, ou se o assunto vai simplesmente desaparecer do noticiário e permanecer na memória apenas como um episódio que poderia ter sido evitado. Ninguém sabe, também, se a morte dos 15 militares russos, que, de certa forma, constrangeu o Kremlin, vai gerar algum tipo de reação russa na Síria, como por exemplo restringir a capacidade de Israel sobrevoar o território sírio para bombardear alvos iranianos. E, se fizer, até que ponto essas restrições poderiam impedir Israel de conter o avanço dos iranianos na Síria? Com a ausência dos Estados Unidos no front sírio, a Rússia é um parceiro essencial na batalha contra essa consolidação.

Israel deverá continuar o que chama de “ataques cirúrgicos” na Síria. Desde janeiro de 2012, menos de um ano depois do começo da guerra civil, os militares israelenses iniciaram esse tipo ação em território sírio. Até duas semanas atrás, assim que revelados pela imprensa, os ataques eram desmentidos pelos israelenses, que, não se sabe o porquê, mudaram a tática, e revelaram que somente em 2017 a Força Aérea de Israel bombardeou mais de 200 alvos iranianos na Síria. A partir de agora, vai ficar mais difícil, até porque Israel não pode se esquecer que um ataque na Síria, como qualquer outra ação beligerante, não está isento de riscos.

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