Herbert Moraes
Herbert Moraes

A Europa que é tomada por pessoas sem país

Livro de Nobel da Paz mostrou, em 1993, como a paz chegaria ao Oriente Médio. O mundo vê agora como ele estava errado

Em dezembro de 1993 o ex-presidente de Israel e ganhador do prêmio Nobel da Paz, Shimon Peres, lançou o livro “O novo Oriente Médio”, em que ele visionava o futuro da região. Na época, sob a mediação do então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat prometiam ao mundo, em frente à Casa Branca, que Israel e a OLP ( Organização para a Libertação da Palestina) trabalhariam juntos para alcançar a paz. Shimon Peres também participou do evento histórico. Na ocasião, ele era o Ministro de Relações Exteriores de Israel e foi o grande negociador do acordo. No livro que lançou em seguida, ele descreve o processo de paz que estava sendo “amarrado” e oferece ao leitor a possibilidade de olhar para o Oriente Médio com mais esperança. Um lugar em que as diferenças foram colocadas de lado para permitir o desenvolvimento. 22 anos depois, não há como negar que Shimon Peres estava errado.

Milhões de pessoas estão fugindo do “novo Oriente Mé­dio” para salvar suas vidas. Sem sa­ber se sairão vivos, colocam-se em risco, numa fuga perigosa, onde milhares já morreram no caminho, na esperança de se salvarem da brutalidade, da carnificina e da crueldade que hoje, caracteriza o “novo Oriente Médio”.

Eles não estão abandonando apenas suas casas, suas terras. A longa e desesperada jornada dos refugiados permite que levem apenas a roupa do corpo e documentos. Para os que marcham em direçao à Europa e outros cantos do mundo, o nacionalismo e ideologias já não cabem na bagagem, e tem pouca importância se comparadas com o perigo que ronda cada um deles e suas famílias.

É uma massa humana em busca de segurança. Os que partem do Oriente Médio, deixam para trás uma região consumida pelo fanatismo religioso, um lugar onde um ditador é capaz de usar todos os meios para se manter no poder. Numa entrevista para rede de TV americana CNN, um refugiado de Allepo, na Síria, que esperava a boa vontade do governo da Hungria para continuar a jornada, disse ao repórter que ele e todos os que ainda estão vindo “não tem mais país”. “Não podemos fazer nada, senão apenas aguardar novos passaportes para ir para algum lugar”.

Os países artificiais criados pelas grandes potências ao fim da Primeira Guerra Mundial estão desaparecendo. Lá se vão o Iraque e a Síria. E com eles desaparecem também as ideologias nacionalistas que foram impostas ao povo, tão artificiais como as linhas retas traçadas pela França e Reino Unido sobre os escombros do Império Turco-Otomano.

Num futuro bem próximo, talvez outros países árabes também vão se dissolver. E isso não é uma premonição. Não há como deter a onda de fanatismo islâmico que assola toda a região. Em breve, o “novo Oriente Médio” será uma realidade. E a Europa também estará de “cara nova” quando todos os xiitas e sunitas tiverem liquidado uns aos outros por aqui, além é claro das minorias que certamente já estarão massacradas. Shimon Peres estava errado quando previu um Oriente Médio de paz e prosperidade. Algo deu errado. Seria interessante que o autor, aos 92 anos e em plena atividade, revisasse a sua obra.

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