Herbert Moraes
Herbert Moraes

Diálogo Israel-Hamas

A fim de evitar mais uma guerra, inimigos conversam secretamente e estabelecem uma estranha parceria para combater um inimigo ainda maior: o Estado Islâmico

Parece um encontro com hora marcada. Há um ano, Israel e Hamas se enfrentavam na Faixa de Gaza. Para os palestinos que moram no enclave, o conflito foi devastador. Mais de 2 mil pessoas morreram, centenas ficaram feridas e o território foi parcialmente destruído. Do lado israelense, o medo tomou conta da população. O número de mortes foi bem menor, apesar da chuva de mísseis lançados pelo Hamas (mais de 8 mil) durante 50 dias de guerra.

Nas últimas três semanas os foguetes voltaram a voar sob o céu de Israel. A Força Aérea revidou a todos os lançamentos, mas houve contenção nos ataques. O governo israelense preferiu qualificar o reinício da guerra de atrito como “incidentes esporádicos”. E aparentemente foram mesmo casos isolados de disputas entre facções islâmicas e o Hamas dentro da Faixa de Gaza. A ação partiu de extremistas salafistas que entraram na disputa pelo poder no território palestino depois que o Hamas prendeu e matou vários militantes da facção.

Parece inacreditável, mas o Hamas, para sobreviver no poder, está cooperando com Israel, ao tentar impedir que outros grupos extremistas que atuam na Faixa de Gaza lancem mísseis contra o território israelense, a fim de prevenir uma escalada ainda maior que pode levar a mais uma guerra, que seria fatal para o grupo palestino. Ciente do problema interno, Israel está dando o devido tempo ao Hamas para que resolva a questão.

Na cobertura feita pelos jornais israelenses, os salafistas foram descritos como representantes do grupo Estado islâmico (Isis) na Faixa de Gaza, mas a afirmação ainda é duvidosa. O “sucesso” alcançado pelos extremistas na Síria e no Iraque vem provocando a afiliação de diversos grupos jihadistas espalhados pelo mundo árabe e consequentemente a expansão da “marca” Estado Islâmico. Em lugares como a Península do Sinai, no Egito, uma facção local que há anos luta contra o governo egípcio, juntou-se ao Estado Islâmico e mudou até de nome — de Bait al-Maqdis para apenas Província do Sinai ou simplesmente Isis. Até dinheiro já foi enviado para os novos aliados. Em Gaza, por enquanto, a ligação com o Estado Islâmico parece ser apenas simbólica; mesmo assim o gabinete de segurança israelense está utilizando a informação a seu favor de duas maneiras: fortalecer o discurso do primeiro-ministro Benyamin Netanyahu que, já não é de hoje, vem alertando para a chegada do terror islâmico às fronteiras de Israel. Além disso, com ameaça dos extremistas a conduta de Israel em futuros conflitos fica livre de desculpas a cada ataque realizado. No ano passado, durante o conflito entre Israel e o Hamas, o premiê afirmou que o grupo era o Isis e vice-versa. Agora, com a ameaça um pouco mais perto, se Netanyahu pudesse escolher entre Isis e o Hamas, a preferência certamente seria o último. E é por isso que Israel não tem pressa em tirar o grupo palestino do poder na Faixa de Gaza.

O Egito é hoje, sem dúvidas, o maior parceiro regional de Israel. Os dois países juntaram forças para lidar com o Isis e outras organizações salafistas no Sinai, e vem trocando informações e coordenando suas posições e atividades. Mas quando o assunto é a Faixa de Gaza os dois países não se entendem. O Egito cortou, definitivamente, qualquer tipo de relação com o Hamas desde que o novo governo declarou a Irmandade Muçulmana um grupo terrorista (o Hamas é considerado um braço da Irmandade) e, desde então, fechou a fronteira com o enclave palestino e ainda exige uma maior participação da Autoridade Palestina nas fronteiras. Israel suspeita que a AP não quer se envolver nas questões de Gaza, por isso, estabelecer laços secretos com o Hamas parece ser mais conveniente para os israelenses.

O Catar e a Turquia também estão envolvidos nas questões da Faixa de Gaza. Outros países também atuam por trás das cortinas. Mas nesse momento, é a rebelião dos salafitas contra o Hamas que coloca em risco a estabilidade relativa entre Gaza e Israel. Entre tantas disputas, há ainda a situação de catástrofe humanitária em que vivem os palestinos de Gaza desde o último conflito. A economia praticamente não existe, a infraestrutura do território foi pulverizada, o desemprego ultrapassa 70%, água potável é raridade e os habitantes do enclave se tornaram prisioneiros, já que as fronteiras tanto do lado egípcio quanto do israelense estão fechadas. Difícil esperar qualquer tipo de estabilidade interna ou externa, diante de tanto sofrimento.

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