Herbert Moraes
Herbert Moraes

A decadência do cinema egípcio e o fim de uma era

Houve um tempo que mulheres comandavam o cinema no Egito: eram atrizes, produtoras, diretoras, editoras, sonoplastas

Atriz Faten Hamama morreu na semana passada, aos 83 anos: ela era a “grande dama” do cinema árabe | Foto: Scanpix/AFP­

Atriz Faten Hamama morreu na semana passada, aos 83 anos: ela era a “grande dama” do cinema árabe | Foto: Scanpix/AFP­

Na semana passada, faleceu aos 83 anos, no Cairo, a maior atriz do ci­ne­ma egípcio: Faten Hamama. Conhecida como a “grande da­ma do cinema árabe”, Hamama atuou em mais de cem filmes de 1940 até o ano 2000. Ela nasceu em 1931, no vilarejo de Sanbla­win, na província de de Dakha­lia, no nordeste do país. Na década de 50, considerada a era de ouro do cinema egípcio, Hamama interpretou mulheres que lutavam por seus direitos na sociedade patriarcal egípcia. Uma das personagens, bem jovem, saia da área rural e rumava ao Cairo quebrando todos os tipos de preconceitos da época. Mulheres urbanas que iam para as ruas protestar contra a discriminação, também fizeram parte do extenso rol de personagens interpretadas pela atriz.

Para se ter uma ideia da im­por­tância e presença de Faten Hamama na sétima arte do mundo árabe, no final dos anos 90, ela apareceu em 18 dos 150 filmes clássicos do cinema egípcio, selecionados pelo Festival Internacio­nal do Cairo, entre eles “A Luta no vale”, quando conheceu, durante as filmagens, seu segundo marido, o ator Omar Sharif.

Faten Hamama era uma atriz premiada tanto no Egito quanto internacionalmente. Há um ano, quando o presidente egípcio Adel Fattah al-Sissi fazia um discurso durante encontro com artistas de seus país, ao notar que Hamama estava presente, ele interrompeu a fala, desceu do palco e foi até ela para lhe dar as boas-vindas, em sinal de respeito ao mito. A morte de Hamama é uma oportunidade para o Egito olhar para trás, e rever a quantidade de mulheres, pioneiras do cinema egípcio, que bem antes de Faten, na primeira metade do século 20, já ditavam as regras na indústria cinematográfica do país. Um retrato oposto ao que se vê hoje, em que é raríssimo a presença de mulheres produzindo ou filmando. Em 1920, por exemplo, acredite se quiser, eram elas que negociavam tudo, absolutamente tudo, por trás das telas.

Mulheres, em cargos poderosos, comandavam o cinema no Egito. Elas eram atrizes, produtoras, diretoras, editoras, sonoplastas, compositoras e distribuidoras. Em certa época, chegaram a ser muito mais fortes do que homens, num mercado já competitivo. Entre elas, seis egípcias tiveram um grande destaque como pioneiras dessa área: Aziza Amir (1901-1952); Behidja Hafez (1908-1983); Assia Dagher (1908-1986): Amina Mohamed (1908-1985); Fatma Rouchidi (1908-1996) e Mary Queeny (1916-2003).

Cada uma delas veio de origens diferentes, tanto econômica quanto geográfica. Algumas eram cristãs, outras muçulmanas. Mas todas tinham algo em comum: não havia interferência de homens em suas vidas. Nem pai, irmão ou marido que pudessem impor restrições, afastá-las do trabalho ou até mesmo ficar com parte do dinheiro que ganhavam.

Outro fator significativo que deu um impulso para que elas se tornassem mulheres bem-sucedidas, foi a época em que viveram. Nos anos 10 e 20 do século passado, o mundo vivia um turbilhão de acontecimentos, entre eles a Primeira Guerra Mundial, que levou os homens para os campos de batalha. As mulheres tiveram que sair para trabalhar, e isso mudou tudo. Bem antes, na segunda metade do século 19, as ideias feministas já tinham alcançado o Egito, que foi influenciado pela cultura europeia, principalmente a partir da ocupação britânica em 1882. Viajantes egípcios que vistavam a Europa nessa época, em suas cartas pediam a emancipação das mulheres no Egito. Até que em 1919 elas foram para as ruas protestar, ao lado de muitos homens (uma audácia naquele tempo) contra o fim da discriminação e por direitos iguais.

O cinema egípcio, sob o comando das mulheres, floresceu e tornou-se um dos mercados de trabalho onde outras poderiam se integrar rapidamente. Mas não foi fácil. No teatro por exemplo, onde não havia vagas para atrizes muçulmanas, eram os homens (geralmente jovens) que interpretavam as personagens femininas. Bem mais tarde, graças a um jornalista e escritor de peças teatrais, o judeu Yaqub Sanu também conhecido como James Sanua — considerado o fundador do teatro moderno egípcio — mulheres cristãs e judias que falavam árabe começaram a aparecer no palco.

Foram as atrizes judias que abriram o caminho para que as muçulmanas também emergissem no teatro e no cinema já durante a Primeira Guerra. O que diferenciava as seis atrizes citadas antes, é que elas resolveram não apenas interpretar. Preferiram assumir o risco profissional e se permitiram aventurar também em outras áreas que garantissem sua independência. Algumas continuaram ativas até o fim da década de 60, mas com o passar dos anos foram esquecidas e quase todas morreram na miséria.

Há várias razões para o fim de vida bucólico dessas mulheres, e é bem possível que a decadência do cinema egípcio, que começou a afundar na década de 60 e chegou à lona nos anos 80 e 90, esteja diretamente relacionado, afinal foi nesse período que o papel da mulher, não só na indústria do cinema mas em todo Egito, voltou à estaca zero, e elas foram perdendo espaço. O retorno do país às tradiçoes religiosas tirou delas o direito de atuarem nos palcos ou nas telas. As egípcias já não ocupam mais o lugar de honra na sociedade que um dia foi delas.

A depreciação feminina nas artes foi tema do documentário “Mulheres que amaram o cinema”, da diretora Marianne Khoury, gravado em 2002. Ela entrevistou jovens atrizes e fez um contraponto com as pioneiras do começo do século, e conseguiu mostrar que atual ausência das mulheres no cinema em seu país é apenas mais um sintoma do retrocesso que transformou o Egito.

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