Herbert Moraes
Herbert Moraes

Como os refugiados sírios mudaram a paisagem do Líbano e se tornaram o maior problema do país.

Chanceler libanês chama o problema dos refugiados de “bomba-relógio que poderá destruir seu país”

Refugiados sírios chegam à  fronteira com o Líbano, que não  está preparado para recebê-los | Foto: EFE

Refugiados sírios chegam à fronteira com o Líbano, que não está preparado para recebê-los | Foto: EFE

Entre tantas tragédias provocadas pela guerra civil na Síria, que em março completa quatro anos, a situação dos milhões de refugiados que estão alojados em países vizinhos é uma das mais preocupantes, e parece que chegou ao limite. Só no Líbano estão mais de 1,2 milhão de sírios, o que corresponde a um quarto da po­pulação original do país.

Tec­ni­camente, os refugiados sírios não têm autorização para trabalharem no Líbano, mas isso não impede que maioria procure um emprego violando a lei. Os refugiados geralmente aceitam os serviços oferecidos para ganharem metade do que um libanês ganharia. Com tantos sírios num país como o Líbano onde o balanço étnico e religioso é tão frágil, o governo local, que nunca funcionou bem, agora se vê rodeado por uma população pela qual não é responsável, enfurecendo seus próprios cidadãos que já se sentem ameaçados.

Recentemente, o jornal libanês Al-Nahar” perguntou aos seus leitores do que eles se lembravam da rua Hamra, um clássico de Beirute tanto para turistas como para moradores locais. “Você se lembra da Champs Élysées de Beirute? Da multidão de pessoas dentro e fora dos cafés? Os teatros e as festas intermináveis? Não restou nada daquilo, tudo acabou. Hoje, os irmãos estrangeiros (forma como os libaneses chamam os refugiados sírios) transformaram a rua Hamra num ponto de turismo, trabalho e pedintes”, disse um leitor que também é morador da famosa via.

Na reportagem escrita pelo jornalista libanês Hussein Hazuri, ele também reclama, e fala da transformação do que um dia foi o símbolo da vida cultural e da boemia de Beirute, e que agora foi tomada por estabalecimentos cujos donos e funcionários são sírios. “Até mesmo os carros que passam pela rua têm placas da Síria. Não falta mais nada para que você se sinta realmente lá quando passa pela rua Hamra”, lamenta o repórter.

Ele ainda entrevista donos de restaurantes e cafés que afirmam que o público original que frequentava a Hamra desapareceu porque ela se tornou síria demais. “Você ouve o sotaque sírio por toda a cidade. O dono de um conhecido resturante de Damasco, o Al Farouk, abriu uma filial na Hamra e os 20 funcionários são sírios. A rua Hamra se tornou um reduto dos refugiados dentro do Líbano”, conta Ahmed Al-Hafar, dono de um outro restaurante, ao jornalista libanês.

Mas não foi só a rua Hamra que mudou. Jovens sírias estão trabalhando nos bares e casas noturnas de Beirute como recepcionistas, substituindo as iraquianas, russas e as próprias libanesas. A maioria vive em grupos em apartamentos alugados onde cada uma paga 150 dólares por mês. O salário que elas ganham nas boites não chega a 500 dólares por mês.

Os pais dessas meninas não sabem extamente o que elas fazem para sobreviver, mas também não perguntam muito, pelo menos enquanto o dinheiro estiver entrado em casa. Muitas são universitárias, e trabalham durante o dia em outros serviços. Elas contam ao jornal libanês que o que faturam durante a noite chega a ser cinco vezes mais do que ganhariam como secretárias ou como caixas de supermercado. Mas também sabem que sua escolha traz uma péssima reputação para a diáspora síria no Líbano, que já ganhou o nome “o estoque da prostituição”. “Isso é o que os sírios nos trouxeram”, reclama outro leitor.

O Líbano não estava preparado pa­ra receber essa “tsunami” de refugiados, o que tornou o atendimento decente a essa população, quase impossível e inapropriado. Ao contrário da Turquia e da Jordânia, que montou campos de refugiados ao longo de suas fronteiras para receber milhares de pessoas, monitoradas e trancadas em acampamentos onde recebem serviços médicos, educacional, água tratada e eletricidade. O Líbano não montou nenhum campo de refugiados, os que entraram no país se espalharam sem nenhuma forma de controle. E a razão é política.

Os libaneses tiveram a experiência em abrigar milhares de palestinos em campos de refugiados, que, com o passar dos anos, acabaram se tornando redutos armados dentro do país comandados pela OLP, a Organização para a Libertação da Palestina. Depois que a OLP foi expulsa do Líbano pelo exército israelense, os campos de refugiados acabaram virando enclaves onde os residentes foram excluídos da vida socioeconômica do Líbano.

O Hezbolá, grupo xiita libanês que controla o sul do país e que é aliado de Bashar al-Assad na guerra na Síria, também impôs condições à respeito dos refugiados: a primeira delas é que nenhum campo fosse aberto para receber os sírios; a garantia do retorno de todos os refugiados para a Síria quando a guerra terminar; e coordenação da forma de como assentá-los temporiamente no país, obviamente sob o crivo do grupo xiita.

A maior preocupação do Hezbolá é que os campos de refugiados tornem-se centros de grupos armados que poderiam desafiar o controle da milícia xiita, principalmente em áreas estratégicas para grupo como o Vale do Bekah, na fronteira com a Síria. Nessa região há pelo menos 130 mil refugiados espalhados em 830 localidades, onde aos sírios foram dadas tendas, que recentemente foram destruídas pelo inverno rigoroso que assola o Oriente Médio.

Caixas d’água congelaram e dezenas de crianças morreram devido ao frio. Os aquecedores que foram doados não chegaram para essa população e muitas famílias reclamam que estão sendo expulsas pelos donos dos terrenos onde estão acampadas ou dos apartamentos que foram cedidos para relocarem por preços mais altos para os refugiados que estão chegando e têm mais dinheiro.

Com o número excessivo de refugiados no Líbano, o atrito que primeiramente acontecia somente entre os libaneses e os “irmãos estrangeiros”, agora também é um fenômeno que se espalhou por todo país. Sem querer, os libaneses passaram a disputar não só com os sírios mas entre eles, questões como moradia e trabalho. O chanceler libanês Gebran Bassil recentemente chamou o problema dos refugiados de “bomba-relógio que poderá destruir o Líbano.”

A declaração, um pouco exagerada, não deixa dúvida do grau de preocupação das autoridades libanesas em conseguir manter o país nos trilhos. O Líbano, que encerrou sua própria guerra civil em 1990, está mais unido do que nunca, mas corre o risco de viver um déjà vu se a questão dos refugiados não for resolvida em breve.

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juarez orsi

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