Herbert Moraes
Herbert Moraes

Colinas do Golã, o próximo front da sangrenta guerra na Síria

Mísseis sírios continuam a cair do lado israelense “acidentalmente”, e o exército de Israel tem de responder

Colinas de Golã: até o começo da guerra civil na Síria, a área viveu 50 anos de tranquilidade | Foto: Divulgação

Colinas de Golã: até o começo da guerra civil na Síria, a área viveu 50 anos de tranquilidade | Foto: Divulgação

Desde que Israel conquistou e anexou as Colinas do Golã da Síria, em 1967, a região acabou se tornando uma ilha de sossego cercada de minas terrestres por todos os lados. Há poucas cidades e a população local é predominantemente druza. Até o começo da guerra civil na Síria, a área disputada entre os dois países viveu 50 anos de tranquilidade. Seus habitantes, apesar de se considerarem sírios-druzos, raramente entram em atrito com o governo de Israel e se adaptaram à nova nacionalidade ao ponto de servirem o exército.

Há menos de uma semana, Estados Unidos e Rússia declaram cessar-fogo na Síria. Paradoxal­mente, a fronteira com Israel onde fica o Golã, a área mais negligenciada pelo governo sírio e pelos rebeldes em meia década de conflito, foi o local da primeira violação significativa —outras já aconteceram desde então — que pode levar ao fim da trégua.

A resposta das forças de Israel para o que exército prefere chamar de “respingos da guerra”, já virou rotina. Quase que diariamente mísseis e foguetes lançados durante os combates entre milícias rebeldes e as forças do ditador caem, por engano, no território israelense. Na segunda-feira à noite, assim que trégua começou oficialmente, as tropas de Bashar al-Assad atiraram mísseis terra-ar contra caças de Israel. Mas eles erraram o alvo e os aviões militares não foram novamente ameçados. No entanto, a mídia síria, controlada pelo governo, não hesitou em afirmar que um caça e um drone israelenses foram abatidos. Uma grande mentira que foi desmerecida até mesmo pelo mundo árabe.

O governo de Israel, que conta com milhares de soldados e bases militares na região das Colinas do Golã, depois do ataque foi cobrado, e em breve será obrigado a mudar a tática adotada pelo país no conflito na Síria. Há o receio de que o míssil foi uma mensagem do ditador, e veio, justamente, no dia em que a Rússia fechou um acordo que garante a manutenção de Bashar al-Assad no poder.

Também há duas semanas, milícias rebeldes iniciaram uma ofensiva na região do Golã com o objetivo de retirar a presença das tropas de Assad e do Hezbolá afim de se posicionarem na cidade druza de Khader, bem próximo à fronteira de Israel. O ditador respondeu com artilharia e mísseis que vieram da terra e do ar. Armas imprecisas que cada vez mais terminam sua rota dentro de Israel. Com a proximidade, agora elas começam a chegar nas cidades druzas, que ficam bem perto da fronteira com a Síria. Incidentes como esses recebem respostas imediatas do exército israelense, que só na semana passada teve que reagir diversas vezes porque as posições sírias não paravam de atirar, e o fogo não era contra os rebeldes, a direção era Israel. Foi uma provocação do regime de Assad, mas isso não significa ainda que a situação na fronteira entre os dois países tornou-se crítica ou até mesmo que Assad tenha resolvido enfrentar de vez os israelenses. A intenção foi de aquecer os músculos com propósito de propaganda, afinal dizer que Assad derrubou um jato de Israel é uma forma de defender a honra do ditador, tão “humilhado” pelos vizinhos judeus.

As Colinas do Golã são, sem dúvida, o segundo front da guerra civil na Síria. Há anos que os rebeldes tentam unir suas forças de combate no sul e centro do Golã sírio através do enclave que conquistaram a leste do bíblico Monte Hermon. A região é estratégica para Assad porque liga a passagem de Quneitra que leva à Israel e a estrada que vai para Damasco, a capital Síria, que fica a menos de 150 km dali. O regime sírio quer manter esse corredor livre e prevenir que os rebeldes avancem rumo à fronteira sírio-libanesa, e assim evitar que ameacem o Hezbolá em casa.

O fogo cruzado que acontece no Golã pode simplesmente indicar que os lados que lutam entre si precisam de um tempo para que a trégua se torne efetiva e permanente depois de tantos anos de luta. Os detalhes do acordo entre russos e americanos não foram divulgados, e pouco que se sabe é que as duas potências vão aguardar alguns dias e observar se a trégua será ou não violada (até o momento já houve dezenas de violações), se realmente funcionar, lançarão uma ação militar conjunta contra as organizações mais radicais do conflito: o al Nusra, que é o braço da Al Qaeda na Síria, e o Estado Islâmico. E só isso é combustível suficiente para manter os grupos extremistas lutando por um bom tempo, e certamente outras facções também se juntarão a eles nessa batalha que pode levar meses, senão anos.

A guerra na Síria por pouco não virou uma escalada no conflito com a ação de Assad no Golã. Se os mísseis do regime continuarem a atingir a região controlada por Israel ou se os alvos forem os caças israelenses, o país será obrigado a eliminar a ameaça, e daí o caminho para um conflito direto com Bashar al-Assad não é muito longo, e o que era uma guerra civil poderá se tranformar no maior conflito do Oriente Médio.

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