Herbert Moraes
Herbert Moraes

A celebração da morte

Parece que as lideranças pa­lestinas e israelenses perpetuam o confronto porque é do inte­resse dos dois lados

Com bandeiras verdes do Hamas, jovens celebram na Faixa de Gaza acordo de cessar-fogo duradouro assinado por autoridades palestinas e de Israel no Cairo

Com bandeiras verdes do Hamas, jovens celebram na Faixa de Gaza acordo de cessar-fogo duradouro assinado por autoridades palestinas e de Israel no Cairo

Logo depois de anunciarem que um acordo havia sido alcançado no Egito, o Hamas convocou a população da Faixa de Gaza para sair às ruas e comemorar a “vitória da resistência”. Cercados por uma incrível devastação, milhares de pessoas celebraram, soltaram fogos de artifício, e entoaram canções que lembravam os mortos ou “shahids”, que eles preferem chamar de mártires.

Parece absurdo, senão obsceno, tanta alegria em meio a tanta destruição. Afinal a guerra causou a morte de pelo menos 2.100 palestinos, entre eles quase 500 crianças, bairros inteiros foram destruídos e os túneis do Hamas foram expostos e bombardeados. O grupo utilizou boa parte do arsenal de mísseis e foguetes (segundo o exército de Israel restam apenas 20%) durante as sete semanas de confronto, que mataram 70 israelenses entre eles cinco civis. Mas apesar das baixas, em nenhum momento houve qualquer tipo de ameaça existencial ao Estado judeu nesse período. Nada que pudesse ser comparado ao verão infernal que os palestinos de Gaza viveram durante 50 dias intermináveis.

Mas se o sofrimento foi tão grande, porque eles pareciam tão jubilantes ao final da guerra e os israelenses, ao contrário, estavam ansiosos e decepcionados. O que celebravam? A sobrevivência?

Milhares não tiveram a mesma sorte, e outras centenas de milhares estão desabrigados. Foi então a celebração da resistência? Talvez. Na Faixa de Gaza, com exceção dos líderes do grupo islamita radical, ninguém tinha para onde ir durante os bombardeios. E se se rendessem sabiam qual era o destino dos “fracos” em Gaza: o paredão do Hamas. Na verdade foi uma festa forçada, uma celebração de “araque”, imposta pelo grupo terrorista que sempre ao final de mais um round de violência como esse, determina que o povo vá para as ruas, celebrar a morte. Uma forma de passar a ideia de que são eles os vencedores, e a única maneira que os líderes encontram para manter a moral da população lá em cima, mesmo que às custas do sofrimento e da dor de quem ainda não teve tempo de chorar pelos que se foram ou de lamentar pelos que estão feridos. Com o fim do conflito, os palestinos de Gaza agora terão que lutar pela sobrevivência. Não há água, comida e nem teto. E para completar o triste quadro, doenças perigosas como meningite e cólera se espalham rapidamente.

E o que Israel conseguiu al­cançar nesses 50 dias de guerra? Ok, os túneis do Hamas foram expostos e destruídos. Eles seriam usados para provocar massacres e sequestros de moradores do sul do país. Esse é único motivo que líderes e população conseguem ter em comum para justificar tantas mortes até que o perigo fosse eliminado. Mas a sensação que os israelenses têm, assim como qualquer um que observe de longe os resultados do conflito, é que o final é sempre o mesmo. Uma sensação déja vu que se repetiu quatro vezes só na última década. Tantas mortes, tanta destruição e tão poucos resultados que pudessem levar a uma resolução de paz du­radoura. A impressão que se tem é que as lideranças, tanto pa­lestinas quanto israelenses, perpetuam o confronto porque é do in­te­resse dos dois lados que fique assim.

Ficou acertado que as delegações de negociadores do Hamas e de Israel vão se encontrar novamente no Egito daqui a um mês, para continuar as conversas de paz. Nos próximos 30 dias uma coisa é certa: os dois lados estarão preparando estratégias de ataque caso o cessar-fogo não vingue. Uma pena ter a certeza que nenhum deles vai utilizar os mesmo período para elaborar estratégias que tragam a paz.

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simone

As pessoas fazem acordos , comemoram mas quando acontece mais um incidente como foi o caso dos 3 rapazes mortes o acordo não servirá para nada .