Herbert Moraes
Herbert Moraes

Assassinato de Jamal Khashoggi “esconde” rearranjo geopolítico do Oriente Médio

O crime em Istambul é apenas a ponta do iceberg de uma conjunção de forças que lutam entre si para controlar o novo Oriente Médio

Jamal Ahmad Khashoggi: assassinado por agentes sauditas, na Turquia

A Turquia, país “campeão mundial dos direitos humanos” sob o governo de Recep Taype Erdogan, acusa a Arábia Saudita, outro “campeão mundial dos direitos humanos”, de ser responsável pelo assassinato do jornalista Jamal Ahmad Khashoggi (1958-2018) — que, há pouco mais de três semanas, entrou na cova dos leões (Consulado da Arábia Saudita) em Istambul, e saiu de lá, literalmente, em pedaços. No prédio da representação saudita, antes de morrer, Khashoggi viveu momentos de horror, com enredo típico de países como a Síria, Irã, China, Rússia e Coreia do Norte.

O jornalista era crítico do regime saudita, tinha cidadania americana e escrevia uma coluna no jornal “Washington Post”, mas as razões para o fim trágico, com ares de filme de ação de quinta categoria, ainda não estão claras. Todos sabem e até Khashoggi sabia que a casa real saudita, assim como Vladimir Putin, na Rússia, não tolera críticas. Talvez tenha sido este o motivo que levou ao assassinato. O crime foi tão brutal que as autoridades em Ankara não descartam a possibilidade de que os restos mortais do jornalista tenham sido dissolvidos em ácido.

Recep Erdogan: no ataque contra nova aliança política | AP Photo/Ali Unal

É claro que Erdogan aproveitou o momento e colocou as garras pra fora contra o inimigo histórico: a Arábia Saudita. O quase ditador da Turquia busca status global, e nada melhor que um escândalo internacional para colocar seu país no radar de Donald Trump que, juntamente com o príncipe herdeiro Mohamed bin Salman, tenta formar uma aliança regional para interromper a influência do Irã no Oriente Médio. Erdogan quer sujar a imagem do monarca saudita e humilhá-lo, mas seu principal objetivo é boicotar a tentativa do governo americano de formar essa aliança que, sob a coordenação de Washington, contaria também com outros países da região como Israel, Jordânia, Arábia Saudita, Egito e, possivelmente, Iraque, além dos países do Golfo. Juntos eles tentarão bloquear o Irã que, com seus planos expansionistas, tornou-se uma ameaça a todos eles.

A Turquia, que não faz parte do mundo árabe e há séculos tenta se impor como líder das nações sunitas, vai fazer de tudo para que o plano não dê certo. Ao colocar o reino saudita na berlinda, acredita que poderá alcançar o tão sonhado posto. Mas os turcos, sob a batuta de Erdogan, e assim como o Irã, querem, também, eliminar Israel do mapa. Os turcos consideram o Estado judeu um apêndice colonialista que deve ser extirpado. Por isso, qualquer tentativa de uma aliança do mundo árabe com Israel seria negativo para o presidente turco. No entanto, o destino tem senso de humor.

Mohamed bin Salman: príncipe da Arábia Saudita

A morte do jornalista saudita, que trouxe à tona a velha rivalidade entre a Turquia e a Arábia Saudita, aconteceu bem no momento em que o presidente americano e seu partido estão em campanha para as eleições legislativas nos Estados Unidos. Como Mohamed bin Salman é, sem dúvida, um dos principais aliados internacionais de Donald Trump, principalmente por razões econômicas, os democratas encontraram no caso do jornalista um caminho para nocautear Trump e seu grande aliado ao mesmo tempo. A ideia é humilhar a Arábia Saudita a ponto de implodir os planos econômicos do presidente americano que conta com Bin Salman e seus bilhões de petrodólares para implantá-lo como quer.

De acordo com a revista “Time”, Trump conta, hoje, com o apoio de 43% da população americana. Barack Obama, Bill Clinton e Ronald Reagan tinham o mesmo número quando estavam no meio do mandato, assim como Trump. Após tantas tentativas frustradas da esquerda americana em colar algum fato que pudesse atrapalhar a atual administração, os democratas acreditam que o caso do assassinato de Jamal Khashoggi pode ser a oportunidade que esperavam para mais uma vez tentar enxovalhar seu inimigo número um.

O que poucos sabem é que a aliança regional maquiada como iniciativa de paz foi uma ideia que veio da Arábia Saudita. O príncipe saudita, Mohamed bin Salman, que tem apenas 36 anos e em breve deverá se tornar rei e chefe da casa sunita, pretende legitimar e reconhecer Israel antes de embarcar numa aliança com o país que por enquanto é considerado inimigo. Por isso, o esclarecimento da morte do jornalista saudita é necessário para que o plano possa ter continuidade.

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