Herbert Moraes
Herbert Moraes

A anarquia e o caos no Iraque pós-Estado Islâmico

Listas negras incluem inocentes que pagam o preço do acerto de contas entre tribos

Soldados iraquianos festejam libertação de Ramadi: a maior preocupação agora é com a reconstrução das casas

Soldados iraquianos festejam libertação de Ramadi: a maior preocupação agora é com a reconstrução das casas

Pelas ruas de Ramadi, no Iraque, diariamente formam-se filas intermináveis de homens e adolescentes se alistando em milícias locais que surgiram na cidade logo depois de ter sido libertada das mãos do Estado Islâmico, há um ano, pelas tropas iraquianas. Os pequenos grupos paramilitares que estão surgindo alegam que o objetivo é garantir a segurança e prevenir o retorno dos jihadistas.

Ramadi, assim como dezenas de cidades iraquianas, possui uma sociedade tribal. A maioria dos moradores é sunita, e é comum que cada tribo tenha sua própria guerrilha. Estabelecer um exército particular no Iraque é tarefa bem simples. O líder tribal tem apenas que preencher uma ficha de inscrição que será submetida ao governo central do país. Uma vez aprovada, a tribo encaminha um segundo pedido. Dessa vez para conseguir financiamento e armas.

Por enquanto, a maior preocupação dos moradores de Ramadi que estão voltando para a cidade, é a reconstrução de suas casas. E isso também vai custar caro. Muitos não sabem de onde vão tirar dinheiro para erguer bairros inteiros. Ramadi, antes da invasão do Estado Islâmico, tinha meio milhão de habitantes. Restaram apenas 180 mil. Por isso, ao se alistar numa milícia, muitos moradores não estão apenas pensando em segurança, mas também num emprego. A esperança de muitos é que com o tempo as guerrilhas sejam integradas ao exército iraquiano e a partir daí os integrantes teriam a estabilidade e os benefícios de qualquer militar. Por enquanto, o que os ex-refugiados veem pelas ruas de Ramadi, quando voltam, são milícias usando uniformes diferentes e assumindo diversos papéis, desde o controle do trânsito à ações policiais.

Tantas guerrilhas juntas devem resultar em disputas que só não começaram porque Ramadi, assim como diversas outras cidades que foram libertadas, está em ruínas. A reconstrução vai levar tempo, mas quando a poeira de fato se assentar, uma luta por poder deverá se iniciar entre tribos e clãs, já que o poder de uma tribo no Iraque é medido pela capacidade militar de cada milícia.

Apesar de garantir as autorizações para a formação das guerrilhas, o governo iraquiano vê nesses grupos armados a maior dificuldade para o reestabelecimento do controle total das cidades que já foram liberadas. Ramadi, cuja libertação tornou-se o símbolo da luta contra o Estado Islâmico, muito antes da invasão do grupo terrorista, já era palco de disputas sangrentas entre tribos sunitas e forças governamentais. Nuri al Malik, quando era primeiro-ministro do Iraque, foi impedido de entrar na cidade por civis armados. O exército iraquiano é visto pela população inteira de Ramadi e da província de Anbar como inimigo. E foi justamente nessa desconfiança que o Estado Islâmico encontrou terreno que garantiu a cooperação de muitos residentes quando tomaram a cidade e a região.

Mais de meio milhão de pessoas deixou a província de Anbar desde que os jihadistas invadiram a área. Esta é maior dispersão provocada pelo grupo no Iraque que espalhou pelo mundo pelo menos 3 milhões de refugiados nos últimos quatro anos. A falta de perspectiva para uma rápida reabilitação econômica da província de Anbar, segundo as autoridades locais, pode levar ao caos na região e comprometer a segurança dos moradores.

A volta para casa também não é tão fácil. Os residentes que querem retornar à província de Anbar têm que passar por uma checagem geral antes de conseguirem a autorização do governo para reassentar. A primeira fase da triagem é realizada pelo exército iraquiano e milícias xiitas que recebem ordens do Irã. A segunda parte fica a cargo dos comitês locais, formados nos próprios bairros. São eles que dão a permissão final para que o morador possa voltar para casa ou para o que restou dela. Os comitês possuem “listas negras” que incluem centenas de nomes de pessoas suspeitas de terem colaborado com o Estado Islâmico. Se pegos, são presos e brutalmente interrogados. Nos últimos meses, muitos desses prisioneiros conseguiram a liberdade de volta pagando por ela. Às vezes cifras até inimagináveis para a região, como 1 milhão de dólares por pessoa. Acordos que divergem do que ficou acertado entre as milícias e o governo central: uma vez identificado, um ex- colaborador dificilmente deixaria a cadeia. Mas em tempos de guerra, a ganância de uns é liberdade certeira para outros. Por isso muitos saem livres, sem nenhum tipo de punição.

Os moradores de Ramadi afirmam que muitos nomes que estão na tal lista negra são, na verdade, vítimas inocentes, que acabam pagando o preço do acerto de contas entre tribos que sempre disputaram poder.

A falta de confiança entre os residentes locais e as forças de segurança além das disputas internas entre os clãs e as milícias xiitas, fazem da reconstrução um trabalho quase impossível. O governo iraquiano possui um ministério que trabalha exclusivamente para a reerguer as áreas que já foram recuperadas das mãos do Estado Islâmico e reassentar os moradores. Criado há pouco mais de um ano, o ministério recebeu, até agora, apenas 40% dos 108 milhões de dólares reservados pelo governo para a reconstrução. Comparado ao orçamento destinado à defesa a cifra é pífia, já que o governo iraquiano prevê gastos de pelo menos 20 bilhões de dólares com os militares no ano que vem, o que deixa claro que a recuperação de Ramadi poderá levar anos.

O retrato da atual situação em Ramadi é o que vai acontecer em Mosul assim que cidade for totalmente libertada. A segunda maior cidade do Iraque possui população três vezes maior que Ramadi e uma composição étnica muito mais complicada também. As forças que atualmente lutam por Mosul, entre elas os curdos, as milícias xiitas iranianas e o próprio exército iraquiano, veem a luta contra o Estado Islâmico apenas uma boa desculpa para a continuação de um conflito que pode (acredite) ficar ainda pior, que será a luta pelo controle da cidade mais rica do país. Aí então, os jihadistas terão concluído, com louvor, o ato final: mesmo expulsos deixam para trás um Iraque mergulhado em outra sangrenta guerra civil.

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Fran

Achei desonesta tuacolocação. Isso que descreves ocorre no Iraque desde 2003. Perseguição, humilhação, desaparecimento ,torturas e morte da população sunita.Promovidas por xiitas apoiados pelo Irã, EUA e Israel. Honestidade por favor.

O deslocamento das populações é devido às BOMBAS que o OCIDENTE jogou lá, não pelos jihadistas. Honestidade por favor. Senão a gente até pode pensar que vcs são pagos para desinformar