Herbert Moraes
Herbert Moraes

Acordo de Singapura passa por Teerã e é justamente o que Trump esperava

Resultados do show que o mundo assistiu podem vir do Oriente Médio, e não da península coreana

Kim Jong-Un e Donald Trump selam a paz entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, mas o longo caminho passa também pelo Irã

Para o bem da humanidade, o encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong- Un, aparentemente, foi um sucesso. Afinal, poucos meses atrás, os dois se ameaçavam com um holocausto nuclear. Daí, tudo mudou e o que parecia impossível aconteceu: Kim e Donald se encontraram cara a cara em Singapura, e sob os olhos do mundo prometeram melhorar as relações entre os dois países, a desnuclearização da Coreia do Norte e o fim das hostilidades.

Apesar da torcida contra, nos bastidores, desde que a Coreia do Norte começou a dar sinais de que viraria o rumo a estibordo, diplomatas americanos, norte-coreanos, chineses, japoneses começaram as negociações. Outros personagens, como o governante de Singapura, também tiveram papel importante no contexto da cúpula. O palco do encontro do século foi a ilha asiática, considerada um paraíso para afortunados, e roteiro obrigatório de qualquer milionário que se preze. A China também investiu muito para que os dois líderes, outrora “sanguinários” e agora mansos, pudessem se encontrar, e emprestou jatinhos para que Kim e seu entourage se deslocassem, com estilo, até Singapura.

Mas, neste caso, o mundo diplomático prefere a cautela do que a comemoração antecipada. Nos dias que antecederam o encontro, Trump foi alertado por conselheiros de que qualquer acordo que resultasse no controle de armas nucleares na Coreia do Norte, devido à sensibilidade do assunto, levaria meses para ser elaborado. Só que o presidente americano optou pelo instinto, disse isso antes de partir para a cúpula, e, para o desespero de muitos, principalmente do Irã, o acordo saiu.

Se o documento assinado em Singapura pode ser chamado de “acordo do século”, ainda é cedo pra saber, mas em Teerã, capital da República Islâmica do Irã, é certo que o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, até agora deve estar se contorcendo de arrependimento por não ter previsto que um líder como Donald Trump chegaria ao poder nos Estados Unidos, e que um acordo assinado por ele poderia ter sido bem melhor do que o que foi com seu antecessor, Barack Obama.

O ponto central do que foi acertado entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte é a completa desnuclearização do país de Kim. No entanto, pelo menos por enquanto, não foi estipulado um prazo para que isso aconteça ou que tenha início. Tudo é ainda muito vago, e as críticas internas ao presidente americano são incontáveis, já que, para muitos, Trump cedeu mais do que o esperado e Kim, que não tinha nada a perder, voltou pra casa vitorioso.

Acontece que o ditador, que já matou um tio com artilharia pesada, possui armas atômicas (pelo menos 60 bombas, segundo relatório do Pentágono). Seus “brinquedos” são tão avançados que podem atingir a costa americana em apenas algumas horas — se ele quiser. Só assim o ditador e seu regime podem se manter no poder, e nenhum acordo, mesmo com todos os holofotes sobre ele, fará com que Kim abandone de vez o seu salvo-conduto. Trump está preocupado com isso? Nem um pouco. Por trás do “encontro do século” existe um outro alvo, um inimigo muito mais poderoso e perigoso: a República Islâmica do Irã.

Mas o Irã não é a Coreia do Norte e ainda não possui capacidade nuclear. O país está em conflito direto com os principais aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio — Israel e a Arábia Saudita —, além de estar envolvido em outros conflitos na Síria, Iêmen e Iraque.

O governo de Donald Trump acredita que os persas podem ser “interrompidos”. Com a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear, e o decorrente fracasso de negociações com os países europeus, que insistem em salvar o Irã (por enquanto), Trump deverá colocar o regime iraniano na parede, e, a partir daí, vai esperar que os aiatolás metam os pés pelas mãos, e cometam algum erro como acelerar o programa nuclear do país, aumentar a capacidade de mísseis de longa distância ou dar um passo a mais na Síria contra Israel. Qualquer uma dessas opções pode levar a uma guerra. O show que o mundo assistiu em Singapura tem prazo de validade. Até lá, os resultados podem não vir da península coreana, mas do Oriente Médio.

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