Herbert Moraes
Herbert Moraes

A vitória, a solidão e o problemão de Bashar al Assad

Ditador não será punido por seus crimes. Analistas e políticos garantem que continuará no poder por tempo indeterminado, só que com uma missão complicada: reconstruir um país em ruínas

Baschar al Assad: o ditador pode se considerar vitorioso, mas é dono de um país destroçado que ninguém — nem mesmo os refugiados — quer ajudar a reconstruir

A guerra civil na Síria caminha para seus momentos finais depois de oito anos de um conflito que destruiu o país e matou milhares. O ditador Bashar al Assad, o criminoso do século, venceu a disputa sangrenta. Acusado de crimes contra a humanidade, pelo menos por enquanto, não será julgado. Apesar de mais de 90% do país já estar sob o controle do regime, Rússia, Estados Unidos e Turquia ainda discutem como dividir a Síria pós-guerra.

Os bolsões de resistência são motivos de preocupação de muitos líderes mundiais, que querem impedir o massacre final em Idlib, o último reduto dos rebeldes, onde moram 3 milhões de pessoas. Para assegurar sua vitória, Assad ajudou a incubar o extremismo no país que permitiu a chegada do Estado Islâmico. O grupo espalhou o jihadismo por toda a Síria. Espertamente, o ditador diz que combate o extremismo e por isso, na sua concepção, Idlib deve ser destruída.

Engana-se quem pensa que Bashar al Assad será punido por qualquer um de seus crimes. Analistas e políticos locais garantem que continuará no poder por tempo indeterminado, só que com um problemão pela frente: reconstruir um país em ruínas. Para tanto, o ditador vai precisar de dinheiro.

Os aliados, Rússia e Irã, que o ajudaram a combater os rebeldes, avisaram que não poderão cooperar, pois em casa as contas também não batem. Muitos acreditam que o ditador terá de se virar sozinho e que será a falta de dinheiro — e não a guerra — que vai derrubá-lo.

Mas para quem, há oito anos, era considerado um defunto andante, dada a certeza de que não sobreviveria há tantos anos de confronto, Assad surpreendeu a todos e continua no poder.

A “Primavera Árabe” derrubou outros ditadores, como Hosni Mubarak, no Egito, e Muammar Kadafi, na Líbia, mas Assad permanece. Até mesmo os líderes mundiais do início da guerra civil já não são mais os mesmos. O americano Barack Obama e o inglês David Cameron — que um dia ameaçaram tirá-lo do poder — já deixaram o poder. Pior: voltaram atrás na decisão de lutar na Síria quando perceberam que teriam que enfrentar a Al Qaeda e outros grupos jihadistas espalhados por todo o país.

No final, foi Assad quem conseguiu convencer os países ocidentais de que ainda era a melhor opção, até mesmo que os rebeldes, para ajudar o Ocidente a combater o Estado Islâmico e o jihadismo na Síria — que àquela altura já havia sido parcialmente tomada pelo grupo radical.

O plano do ditador foi muito bem calculado. Em 2011, logo nos primeiros meses da guerra civil, seu regime libertou, de vários presídios, milhares de jihadistas que se espalharam pelo país e se misturaram aos rebeldes. A partir daí, o caos se instalou em todas as províncias e Assad utilizou isso a seu favor, manchando a imagem dos grupos rebeldes que passaram a ser vistos como terroristas que tinham que ser combatidos, assegurando, assim, um salvo-conduto junto às potências ocidentais que optaram, em princípio, por não intervir diretamente na guerra civil.

Ao longo dos primeiros anos da guerra civil, Assad foi hábil em construir uma narrativa que transformou a oposição em violenta, estrangeira e sectária, e assim fez com que seu regime e os jihadistas fossem o que restavam para o mundo escolher. E o mundo preferiu mantê-lo no poder a ter que lidar com extremismos como o Estado Islâmico.

Nos anos seguintes, o Hezbollah do Líbano, o Irã e a Rússia entraram no conflito para ajudar Assad. O resto é história. O ditador venceu a guerra e agora?

Para sobreviver, Assad teve de destruir o país que herdou do pai. Depois de oito anos de guerra civil, a Síria está enfraquecida, mais pobre e muito menos influente na região.

Rússia quer mostrar que a guerra acabou

A ajuda que vem da Rússia foi suficiente para mantê-lo no poder, mas Moscou não tem como sustentar a reconstrução do país. Por enquanto, o presidente Vladimir Putin ajuda como pode, e vem angariando fundos para o trabalho que deverá levar anos e vai custar bilhões de dólares.

A Rússia quer mostrar para o mundo que a guerra na Síria acabou. A volta dos refugiados seria o maior indicador de que o regime de Assad venceu, e, com o fim da disputa, o país está pronto para negociar sua reconstrução.

No entanto, vai ser difícil atrair investidores para um lugar que virou um monte de entulho.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse abertamente que Washington não vai ajudar nos esforços de reconstrução da Síria. As sanções econômicas contra o regime do ditador tornam os investimentos internacionais praticamente impossíveis de acontecer.

O problema está justamente aí: sem infraestrutura como os refugiados poderão voltar para casa, se não há mais casa? Segundo estimativas, serão necessários no mínimo 400 bilhões de dólares para reconstruir o país e parece que ninguém está disposto a ser tão condescendente com Assad.

O ditador pode se considerar vitorioso, mas agora é dono de um país destroçado que ninguém — nem mesmo os refugiados — quer ajudar a reconstruir.

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