Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

A misteriosa essência afrodisíaca que fez Cleópatra e Marilyn Monroe conquistarem os homens que quiseram

A essência de Vênus, que ninguém sabe o que é, leva algumas mulheres a serem conquistadoras incomparáveis. Os homens caem aos seus pés perdidamente

Terá o leitor ouvido falar da essência de Vênus? Pois bem, ouvirá (ou melhor, lerá) agora: algumas (poucas) mu­lheres vêm ao mundo dotadas de algo indefinível, que as torna irresistíveis, e por cujos favores os homens farão qualquer tipo de loucura ou concessão. Muitas vezes até a suprema delas: a da vida. A mulher nascida com esse sortilégio, que se convencionou chamar essência de Vênus, leva consigo, muitas vezes, a fatalidade. Os homens tomarão as mais desarrazoadas decisões: abandonarão carreira, família, amigos ou posição profissional segura, para estar ao lado de uma dessas venusianas. Deixarão sua cidade, seu Estado e mesmo seu país para acompanhá-la, se ela assim o exigir, sugerir, ou simplesmente abandonar o infeliz enfeitiçado e se mudar para lugar distante, onde ele por certo irá procurá-la. Se detentores de poder, vão dividi-lo com ela, ou mesmo a ela entregá-lo sem cuidados ou remorsos. Se possuidores de fortuna, a dissiparão para agradá-la, prover seu conforto e seus luxos. Chegarão ao extremo de matar ou morrer. Por isso mesmo, os franceses chamam essa superdotada pela natureza — detentora de poderes ignotos — “femme fatale”.

A mulher que porta a essência de Vênus, ainda que o não queira, conquistará, para sempre, o homem que escolher. Sabendo ou não de seus poderes, dele tudo obterá. Não será, jamais, abandonada. Será sua a iniciativa de um rompimento e sempre deixará lembranças e a esperança de um reatamento. O abandonado por uma dessas divas nunca a esquecerá e ficará, por tempos, quando não por toda a vida, desnorteado, mesmo que tocado por outra relação amorosa, enquanto ela pouco ou nada ficará sozinha, pois a essência de que é portadora atrairá de imediato, como um enxame de abelhas, outros pretendentes das circunvizinhanças.

A história mais remota já a menciona, a moderna a reporta e cada um dos leitores, se puxar pela memória, há de se lembrar de alguma dessas feiticeiras que ensandeceu um conhecido ou parente, infelicitou um amigo, destroçou alguma família da vizinhança ou provocou alguma tragédia passional. O próprio leitor — quem sabe — já terá encontrado, ao longo da vida, uma dessas capitosas mulheres, que o terá inebriado, e de quem nunca conseguiu se esquecer.

Cleópatra, Ana Bolena, Madame de Pompadour e Wallis Simpson: homens poderosos se tornaram verdadeiros e convictos servos seus

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Cléopatra

Tais são as filhas de Eva que portam a essência de Vênus. A história lista muitas delas, desde a Bíblia, como a rainha de Sabá, que fez do sábio Salomão, rei de Israel, um apaixonado, ainda que estrangeira, e teria dele gerado, mil anos antes de Cristo, um filho — o primeiro rei etíope. Outra, Salomé, que enlouqueceu Herodes Antipas, no início da era cristã, e dele obteve a cabeça de João Batista; Dalila, por quem se perdeu Sansão; e Raquel, que para estreitá-la em seus braços deu o pastor Jacó, neto de Abraão, quatorze anos de vida trabalhando em regime análogo ao da escravidão (como diriam os modernos procuradores do Ministério Público do Trabalho) ainda que tivesse outra esposa, Lea, irmã de Raquel, e duas concubinas.

Cleópatra fascinou Júlio Cesar e Marco Antônio, os dois homens mais poderosos de sua época. Os ingleses, como qualquer homem, perdem completamente a fleuma se provam da essência de Vênus, e se arrastam, como o fazem todos os outros tocados por esse elixir, ébrio e perdidamente apaixonado pela mulher que não lhe abandona o pensamento.

Bolena e Simpson

O rei Henrique VIII, para casar-se com sua amante Ana Bolena, anulou seu casamento com Catarina de Aragão, enfureceu o papa, rompeu com a Igreja Católica e criou a Igreja Anglicana. O rei Eduardo VIII abdicou do trono britânico para se casar com uma americana divorciada, Wallis Simpson, com quem viveu até a morte.

Yoko Ono teria sido o pivô da separação dos Beatles, tal o poder que exercia sobre o líder da banda, John Lennon. E mais recentemente, o príncipe Charles arriscou o trono que por direito lhe cabe, ao trocar a bela princesa Diana pela aparentemente desbotada Camilla Parker-Bowles, uma mulher mais velha, casada, sem pendores para vestimenta e apresentação, e até feia. Por certo, pendores mais atrativos, mas não tão visíveis, os terá, para fazer girar com tanta velocidade cabeça do príncipe, e que apenas podem ser atribuídos à essência de Afrodite.

Madame de Pompadour

Os franceses guardam as histórias de grandes amantes, como Madame de Pompadour, a amiga plebeia de Voltaire, que encantou perdidamente o rei Luís XV, e a nobre Diane de Poitiers, por quem Henrique II, vinte anos mais novo, se apaixonaria por toda a vida. A Bela Otero, plebeia espanhola, filha de uma cigana, bailarina do Follies Bergère parisiense, pôs de joelhos o czar Nicolau II, o rei Henrique VII da Inglaterra e o rei Leopoldo da Bélgica. Falam que seis poderosos, abandonados por ela, se suicidaram, inclusive um príncipe russo, pois nada mais insuportável que conhecer o amor de uma dessas feiticeiras e dele ser privado da noite para o dia.

Mécia e Leonor

Nosso querido Portugal é rico em histórias de mulheres poderosas, verdadeiras filhas de Vênus, dominadoras dos homens mais ilustres do reino, que donos de poder quase absoluto, se arriscavam a perdê-lo, desde que mantivessem em seu leito as suas mulheres ou amantes imprescindíveis. Mécia Lopes de Haro, viúva castelhana de um fidalgo português, D. Álvaro Perez de Castro, enfeitiçou o rei D. Sancho II, como diziam os nobres da corte, que com ela se casou. Embora não tivessem filhos, o rei nunca a repudiou, mesmo após uma bula papal anular seu casamento.

Leonor Teles dominava o rei D. Fernando I, seu amante, embora mulher de um dos homens da corte. O rei desistiu de um casamento com outra Leonor, a de Castela, para se casar com a amante, após anular o casamento desta e despertar a ira dos fidalgos e do povo português.
Carlota Joaquina se sobrepunha a qualquer ordem ou desejo de um D. João VI completamente dominado. Inês de Castro, a amante, foi o pivô de toda a rebeldia do Infante D. Pedro contra seu pai, o rei D. Afonso IV, que não a aceitava, de sua própria morte, e de cruenta vingança de D. Pedro contra os nobres que a assassinaram.

Yoko Ono, Ava Gardner, Rita Hayworth e Marilyn Monroe: seduziram homens ricos e famosos (como John Lennon e Sinatra)

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Marilyn Monroe

A indústria do entretenimento, em Hollywood, trouxe à tona algumas dessas mulheres fatais, que denominou de “vamps”, vampiras sugadoras da energia dos homens que encantavam. Rita Hayworth, Ava Gardner, Marilyn Monroe foram exemplos de artistas de cinema portadoras da essência de Vênus. Entre centenas de outras, essas três se destacaram por seu poder de atrair e encantar os homens, por mais poderosos que fossem.

Rita Hayworth casou-se cinco vezes: com Orson Welles, com o príncipe Aly Kahn, e outros três menos votados. Ava Gardner literalmente enfeitiçou homens poderosos, como o ator Mickey Rooney, o bilionário Howard Hughes e o cantor e ator Frank Sinatra, que abandonado, já famosíssimo, dela nunca se esqueceu. Custeou seu tratamento de saúde quando ela, muito enferma, não mais dispunha de recursos.

Marilyn Monroe seduziu o mais poderoso homem de sua época, o presidente John Kennedy, além de ter sido casada com um astro do futebol americano, Joe Di Maggio, e depois com o famoso dramaturgo Arthur Miller. A deusa do amor, contudo, não contemplou apenas as ricas e próximas do poder.

Pablo Neruda

Pablo Neruda, em sua autobiografia “Confesso que Vivi”, conta seu encontro com uma detentora da essência de Vênus: em 1927, estava em Paris, na companhia do também poeta, o espanhol Álvaro Vallejo, e foram levados a uma boate onde conheceram uma jovem recém-chegada à casa. A dupla terminou por levá-la ao hotel onde se hospedava, e lá foi ela passar a noite com Vallejo. Pelas tantas, Neruda é acordado por Vallejo, que sugere que troquem de quarto e vá Neruda dormir com a jovem. Diante da interrogação deste, Vallejo diz que ele deve fazer a inebriante experiência que ele acabara de experimentar, e não sabia explicar.
No dia seguinte, após confabularem, resolvem os dois poetas deixar imediatamente a moça, convencidos de que ela exercia tal encanto e atração sexual sobre eles, que seria de extremo perigo o alongamento da entontecedora e viciante experiência.

Lembro-me de uma jovem aqui do interior de Goiás, de nome bíblico por sinal, portadora sem dúvida da essência: mulher de um pequeno proprietário rural lá pelas bandas de Iporá, Sara fazia girar em torno de si dos mais guapos peões de rodeio aos mais prósperos coronéis latifundiários das vizinhanças. Dadivosa, era o terror das esposas do lugar, que tanto a amaldiçoavam quanto ao marido complacente, que tudo suportava para não perdê-la. Certo dia, foi encontrada morta, esfaqueada, em um milharal perto de sua casa. Nunca se soube quem foi o assassino, embora suspeitos houvessem muitos, o marido em primeiro lugar.

Cinco sentidos

Mas, perguntaria o leitor: em que consiste a tal essência de Vênus? Que sentidos impacta? Por que provoca tal dependência, maior mesmo que a produzida por qualquer droga traficada? O retraído escritor alemão Patrick Süskind, em seu maior sucesso, o livro de 1985, “O Perfume”, ficciona a essência de Vênus como um odor, um cheiro, um perfume exalado que conscientemente não se percebe, mas que atinge com tal poder o subconsciente e mesmo o inconsciente, que leva quem o prova aos maiores paroxismos de desejo e loucura. Mas tal é ficção, ou apenas parte da verdade.

A essência de Vênus, mais fácil é deduzir, porque conclusão não há, é algo mais profundo, que atinge todos os cinco sentidos, ou pelo menos vários deles a um só tempo. A mulher venusiana teria semblante, curvas, odor, gosto, voz e sensação ao tato diferentes. E mesmo algo mais, é forçoso concluir. Algo etéreo, impalpável e selvagem. Algo que vem, ao mesmo tempo, do mais íntimo e imediato de seu ser e do mais longínquo e primitivo apelo do sexo feminino, dos tempos imemoriais e das cavernas. A mulher dotada da essência de Vênus não será necessariamente bela, e ditado vulgar o atesta: as muito belas não são as melhores de cama. Mas será atraente, inebriante, capitosa, necessária, indispensável. Fatalmente indispensável, como convém a alguém tocado de maneira inexplicável, mas inegável, por um capricho divino.

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Adalberto De Queiroz

Excelente. Reproduzi em Literatura Goyaz: Contos & Crônicas, dr. Irapuan.

vasahiah

Gostei por demais do texto, muito bem colocado. Mas, essas fêmeas são desprovidas de sentimentos duradouros, volúveis e levianas, verdadeiras psicopatas. E é por isso que seduz tantos homens quanto queiram.

Roseli

Mais existe essa essência

Silvia Regina Soares de Andrade

Essa essencia existe mesmo ?

Elizeth rebouças

Gente alguém pode dizer onde encontrar essa essência, isto é incrível: Ou é apenas um conto de fadas?

Elaine

Onde comprar?