Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

A história de Isabel dos Santos, a mulher mais rica da África e de Portugal

Filha de ex-ditador, que negociou dinheiro do BNDES com os governos do PT, ela é empresária e banqueira

Já falei nesta coluna da filha mais velha de José Eduardo dos Santos — que foi “presidente” de Angola por quase quarenta anos — e de sua fortuna, que passa os 3 bilhões de dólares.

Tenho, de um livro lançado recentemente em Portugal, mais informações para os leitores, sobre Isabel dos Santos. Mas qual interesse para nós na história dessa ricaça, que vive a milhares de quilômetros daqui? — pode alguém perguntar. Há vinculações, e profundas, entre Angola e Brasil. Ou melhor, entre os governos petistas e o governo de José Eduardo dos Santos, o que, por si só, já justifica estas linhas.

Isabel dos Santos e o pai, José Eduardo dos Santos, que governou Angola por quase 40 anos | Foto: Reprodução

Além disso, a história de Isabel dos Santos é inusitada. Afinal, é a história de uma menina pobre, que vendia quitutes com a avó nas feiras de Luanda, aos 9 anos de idade e hoje, aos 46, é dona de um império, com propriedades e empresas em Angola, Portugal, Reino Unido, Suíça e sabe-se lá onde mais.

Isabel dos Santos quase estendeu seus tentáculos até o Brasil, mas não chegou (ao menos até onde se sabe) a investir por aqui. Sua vida será um conto de fadas? Parece, embora não se afirme que sua fada madrinha seja uma fada boa. O livro de que falo é “Isabel dos Santos — Segredos e Poder do Dinheiro” (Casa das Letras, 208 páginas), do jornalista português Filipe S. Fernandes. O saiu em Portugal em 2015. O jornalista (e escritor) tem vários livros publicados sobre economia, fortunas e negócios portugueses.

José Eduardo dos Santos mandou construiu uma mansão, que é cercada por favelas | Foto: Reprodução

O livro retrata Isabel dos Santos com muita condescendência. Detalha seu controle e suas participações empresariais, o que pode significar tratar-se de obra consentida. Não é uma biografia, mas a trajetória aparente dos negócios da retratada, com algumas passagens pessoais.

Para que os leitores se situem, um brevíssimo resumo sobre Angola: país costeiro ocidental africano, foi por quase um século colônia portuguesa. Em 1975, ano da |Independência, lutavam pela libertação da colônia, três grupos guerrilheiros, todos de origem marxista, e cada um mais ou menos dominado por uma etnia tribal: Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de António Agostinho Neto, apoiado pela URSS;  União pela Libertação Total de Angola (Unita), de Jonas Savimbi, com apoio chinês, a princípio; Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), de Holden Roberto, apoiada pelo Zaire.

Lula da Silva e José Eduardo dos Santos: amigos… mas com o dinheiro do BNDES na jogada

Os portugueses, após a Revolução dos Cravos, em 1974, em vez de descolonizar Angola (como a Inglaterra fizera com Índia e Paquistão, evitando uma guerra), apenas abandonaram o país, após algumas tentativas modestas de acordo. Todo o exército de ocupação português e cerca de 300 mil civis (alguns grandes empresários) voltaram a Portugal.

Uma guerra violenta tomou conta do país, e se prolongou de 1975 até 2002. Lutavam MPLA, que tomou o governo (com a ajuda de 60 mil soldados cubanos, enviados por Fidel Castro) e Unita, que recebia apoio da África do Sul (ainda em regime de apartheid) e dos EUA, que logo abandonaram esse apoio.

Angola tem área (1.246.700 km²) igual a Goiás, Tocantins e Bahia juntos, mas é populosa: mais de 26 milhões de habitantes. Rica em petróleo (segundo maior produtor da África e tendo a China como seu principal comprador) e diamantes (quinto produtor mundial). Agostinho Neto foi o primeiro presidente, morreu em 1979 e foi substituído por José Eduardo dos Santos.

Dilma Rousseff e José Eduardo dos Santos: o capitalismo de compadrio continuou com a gestora do PT | Foto: Reprodução

Capitalismo de compadrio

O governo se financiava com o petróleo e os rebeldes da Unita com os diamantes, pois dominavam a área de maior produção das pedras. José Eduardo dos Santos governou metade de seu “reinado” (de 1979 a 2017) dentro do figurino comunista: estatização dos meios de produção, esmagamento da oposição, continuidade no poder e … fracasso econômico.

Com as mudanças no regime soviético e as dificuldades de país pobre, destroçado pela guerra, o governo angolano resolveu fazer uma abertura aos capitais estrangeiros. A abertura mostrou-se, como assinala Felipe S. Fernandes, um “capitalismo de compadrio”, onde campeou a corrupção, principalmente nos campos do petróleo e dos diamantes, beneficiando a cúpula governante e militares.

Os capitais de fora eram bem-vindos, mas pagavam “pedágios”. E foi assim que José Eduardo dos Santos permaneceu quase 40 anos no poder, passando a presidência para João Lourenço, em fins de 2017.

Isabel dos Santos casou-se com o congolês Sindika Dokolo

A trajetória de José Eduardo dos Santos tem suas particularidades e não resisto a apontar algumas aos leitores: estudou na União Soviética, de 1963 a 1969, se casou com a geóloga russa Tatiana Kukanova, com quem teve a filha Isabel. Separou-se de Tatiana ao assumir a Presidência de Angola, alegando que não ficaria bem um presidente angolano ter uma mulher branca. Teve mais cinco filhos com outras três mulheres, antes de se casar com a atual, Ana Paula Santos, com quem teve uma filha e três filhos. Conheceu Ana Paula como aeromoça no avião presidencial, casou-se com ela em 1991 e a nomeou brigadeiro das Forças Aéreas Angolanas. José Eduardo teve, pois, pelo menos dez filhos com cinco mulheres diferentes, todos colocados em altas posições governamentais, enquanto exerceu a Presidência.

Lula da Silva, Dilma Rousseff, Odebrecht e moratória

Nos governos Lula da Silva e Dilma Rousseff, houve uma enorme aproximação entre Brasil e Angola, e, ao que parece, o cupido desse caso de amor chama-se … Odebrecht. A megaempresa brasileira já tinha alguns interesses em Angola, desde 1984. Nada importante, mas já farejando o que, na religião das empreiteiras, representa o paraíso: grandes obras sem concorrência, superfaturadas e financiadas pelo BNDES.

Lula da Silva, Dilma Rousseff e Odebrecht — de Emilio e Marcelo Odebrecht — chegaram lá. E além de nossos dólares, levaram o marqueteiro João Santana de presente para José Eduardo dos Santos. Afinal, não se fica quase 40 anos na Presidência de um país sem remendos na legislação e arremedos de eleição.

Taiguara Rodrigues, sobrinho de Lula, que virou “sócio” da Odebrecht em Angola | Foto: Reprodução

Segundo a revista “Infomoney”, o BNDES destinou a Angola quase 3,5 bilhões de dólares, para obras naquele país a serem executadas por quatro empreiteiras — Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Correia e Queiroz Galvão. Hidrelétricas linhas de transmissão, estradas, aeroporto, metrô e outras obras foram construídas lá, com nosso dinheiro, que tanta falta faz aqui. Quanto foi desviado, para um lado e para outro, nunca saberemos.

Todos nos lembramos de Taiguara Rodrigues, sobrinho de Lula da Silva, que, de assentador de esquadrias no Brasil, transformou-se em subempreiteiro internacional em Angola, via Odebrecht.

O governo angolano, como já aconteceu em Cuba e na Venezuela, também com financiamentos do BNDES, avisou que deverá entrar em moratória e não honrará seus compromissos internacionais. Nesses quase 40 anos de reinado de José Eduardo Santos, sua família e as famílias de alguns próceres do regime ficaram ricas, muito ricas. O exemplo maior é justamente Isabel dos Santos.

Sugere Felipe S. Fernandes ser Isabel dos Santos uma tremenda empresária. Não se nega. Ela mantém suas empresas ativas e lucrativas. É firme nos negócios. Quanto à origem de seus capitais, não há como ser benevolente.

Como explicar com apenas competência empresarial a formação de uma fortuna que não é qualquer, mas a de mulher mais rica da África e de Portugal, aos 40 anos de idade? Com origem num país riquíssimo, mas que está entre os últimos vinte lugares do mundo em Índice de Desenvolvimento Humano, e que tem mais de 70 por cento da população abaixo da linha da pobreza, vivendo com menos de 2 dólares por dia? País este tido pelos organismos internacionais como um dos dez mais corruptos do mundo?

Contando mais um pouquinho de Isabel dos Santos: os jornais e revistas falam dela como uma mulher dinâmica e discreta. Em parte, é verdade. Ela costuma frequentar o carnaval carioca, mas sem badalações. Trouxe 600 convidados para a Copa do Mundo no Brasil, mas pouca gente soube disso. Mas seu casamento com Sindika Dokolo, um congolês de família também rica, em 2002, foi um exemplo de ostentação. Estiveram presentes os presidentes do Congo e da Namíbia, e teriam as festividades em Luanda custado 1 milhão de dólares.

Embora nas ditaduras — e mesmo com a abertura econômica não se pode chamar democracia um regime em que um presidente reine por 40 anos — seja quase impossível levantar informações sobre os ganhos dos poderosos, a voz corrente é que a fortuna de Isabel dos Santos começa com os pedágios governamentais sobre petróleo e diamantes e a mistura entre o que é do governo e o que é da família Santos.

Oficialmente, boa parte teria vindo da concessão da exploração da telefonia móvel de Angola, a ela conferida, como uma “campeã nacional”. Já conhecemos essa história aqui no Brasil, com JBS e Eike Batista.

Num processo negocial nunca bem esclarecido, houve tratativas de nosso conhecido Otávio Azevedo, da Andrade Gutierrez, preso na Operação Lava-Jato, com Isabel do Santos para que ela adquirisse parte da Oi, mas a negociação não foi adiante. Hoje, com a saída de José Eduardo dos Santos da Presidência de Angola, caiu a influência de Isabel dos Santos no governo.

Mas sua fortuna está consolidada em Angola, onde detém controle ou participação expressiva na telefonia, no banco BIC, em petroleira, em fábrica de cimento, em distribuição de energia, em imobiliária e na indústria cervejeira, entre outros.

Em Portugal, Isabel tem participação acionária expressiva no banco BIC Portugal e no banco BPI. Também na empresa Amorim Energia, e controla várias “holdings” de investimento. Na Suíça, Isabel é dona de uma tradicional indústria joalheira, a De Grisogono, voltada — é claro — para joias de diamante. Uma Eike Batista que prosperou, pois teve mais tempo e competência para esse ofício de enriquecer por caminhos tortuosos.

Em tempo: a Odebrecht continua trabalhando em Angola, agora com dinheiro local, pois não se joga mais fora dinheiro do BNDES, dinheiro do pobre brasileiro que paga impostos. E não foi incomodada ali, ao contrário dos processos que responde pelo mundo afora (Peru, Argentina, Colômbia, México). Em Angola, como no Brasil da era petista, a corrupção não assusta.

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Mortadela Maria

Sem.comentários!É demasiado chocante…