Afonso Lopes
Afonso Lopes

PMDB: saga de vitórias e decadência

Durante cerca de duas décadas, o partido foi hegemonicamente dono do panorama político no Estado, mas as guerras internas sangraram o partido

Júnior Friboi e Frederico Jayme vivem um processo nada novo no PMDB: o fratricídio iniciado ainda nos anos 80 / Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Júnior Friboi e Frederico Jayme vivem um processo nada novo no PMDB: o fratricídio iniciado ainda nos anos 80 / Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Na recente história política de Goiás, nenhum partido, nem mesmo o PSDB do governador Marconi Perillo, somou individualmente tantas vitórias quanto o PMDB. Desde a redemocratização no país, em 1982, até o final do século, em 1998, os peemedebistas ganharam quase tudo o que esteve em disputa, do governo estadual às prefeituras, das câmaras municipais à maioria absoluta na Assembleia Legislativa, do Senado à Câmara dos Deputados. Mas também nesse período, jamais outro partido passou por tantas e tamanhas guerras fratricidas. E esse processo de autofagia ainda não chegou ao fim, apesar de cinco derrotas consecutivas na disputa pelo inquilinato na praça Cívica.

Agora mesmo, o partido está mais uma vez “se depurando”, como gostam de dizer aqueles que defendem a ideia. Ou sangrando, como se deve ver as coisas na prática. Duas de suas lideranças, uma delas histórica, estão no banco dos réus, sob o cadafalso da forca partidária. Júnior Friboi, é certo, não tem história para contar. Nem no PMDB e nem fora dele. Pelo menos, não tem história enquanto político embora tenha invejável currículo como empresário. Já Frederico Jay­me tem muito o que falar e re­lembrar. Ele sempre foi filiado ao PMDB. Desde os tempos em que o partido era conhecido como “Manda Brasa”.

Pois ambos estão sob julgamento e podem engrossar ainda mais a extensa lista de degolas internas, que começou ainda no início dos anos 1980 com o então senador e ex-governador Mauro Borges. Uma rápida olhada na relação dos que foram enxotados do PMDB ao longo de todos esses anos revela claramente a exata dimensão da retração que o partido experimentou. A Mauro Borges se juntam Henrique e Ademar Santillo, Irapuan Costa Júnior, Lúcia Vânia, Nion Albernaz e o próprio Marconi Perillo, entre tantos outros. Foram tantos que poderiam juntos formar um partido inteiro, bastante forte e representativo. Aliás, formaram, sim, e venceram sucessivas eleições.

Consta que o velho Pedro Ludovico Teixeira, em uma de suas últimas entrevistas, ainda sob a euforia da memorável vitória do PMDB em 1982, profetizou que o partido jamais perderia eleições enquanto o trio Iris, Mauro e Henrique estivesse unido. Bastaram quatro anos de poder para o PMDB começar a desintegrar já nas eleições de 1986.

O processo atual contra Friboi e Frederico, portanto, não é exceção no histórico do PMDB goiano. Ao contrário, é rotina. Em 2012, toda a cúpula do partido em Goiânia foi despachada porque defendia a tese de candidatura própria, contra a natural manutenção da coligação com PT de Paulo Garcia. Isso sem falar em inúmeros outros casos nos diretórios do interior ao longo do tempo.

Qual é a principal acusação contra Friboi e Frederico? Não terem apoiado a candidatura de Iris Rezende em 2014. Como se esse fato tivesse sido absolutamente decisivo na derrota. Aliás, mais uma derrota. Iris não vence uma só eleição estadual desde 1994. E não foi por falta de empenho. Ele disputou o governo em 1998, uma das duas vagas para o Senado em 2002, e novamente o governo em 2010 e em 2014. Ou seja, se há algo errado nessa sucessão de fracassos, principalmente por se tratar de um político da grandiosidade de Iris Rezende, talvez não sejam Frederico e Friboi.

A explicação para a decadência do PMDB está exatamente no fa­to de que o partido está cada vez me­nor, com alcance muito mais limitado, sem renovar a mesmice. É o mesmo de sempre, e sempre do mesmo. Por mais incrível que possa parecer, nestes anos todos a maior esperança dos que restaram no PMDB é Ronaldo Caiado, remanescente de um antigo braço político historicamente rival dos peemedebistas. Nem a estrela ascendente criado no próprio partido, o deputado federal Daniel Vi­lela, consegue minimamente empolgar as apostas futuras do PMDB.

Por falar em Daniel, seu pai, o prefeito Maguito Vilela, de Apa­recida de Goiânia, ex-governador e ex-senador, já se posicionou contra a expulsão de Frederico e Friboi. E daí? Daí, nada. Sua voz mal é ouvida nos corredores da decadente Bastilha peemedebista. Ao contrário, Maguito consegue repercussão muito maior fora do que dentro. É como se ele fosse um indesejado que não tem como ser retirado das entranhas do PMDB. E Maguito só não foi defenestrado pelo partido há vários anos porque é um dos políticos que mais conseguem engolir sapos como se fosse manjar dos deuses. Só o desaforo de 1998, quando foi impedido de disputar uma absolutamente tranquila reeleição, seria motivo mais do que suficiente para qualquer outro político. Mas não para Maguito, que suporta inclusive acusações internas o tempo todo, inclusive de peemedebistas que, do ponto de vista histórico, acabaram de chegar.

O que está em julgamento no PMDB não é as meras expulsões ou não de Frederico e Friboi. O que está em jogo é a manutenção de uma eterna sangria interna, que tem levado o PMDB a um estado anêmico de fazer pena, ou uma reconciliação que indique novos rumos para as discussões internas. A manutenção da decadente Bastilha ou a derrubada dela. O que está diante do PMDB goiano é uma revolução dos costumes internos ou a preservação deles com todas as consequências que a história mostrou serem inevitáveis.

É ruim para a política goiana ver um PMDB enfraquecido, esmagado pelos seus próprios erros e pelo fortalecimento de seus adversários. É muito ruim. Perdem todos os peemedebistas, e perde ainda mais o contraponto das discussões políticas sobre o futuro de Goiás e dos goianos. l

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Caio Maior

A análise do articulista deixou de considerar um aspecto: à época das eleições Frederico Jayme (pessoalmente) e Junior Friboi (representado por seus articuladores) preferiram apoiar Marconi Perillo. E foram explicitos ao repudiar Iris Rezende. É óbvio que não se opõem ao “marconismo” e que são contra o “irismo”. Mais: ao longo dos anos, dos Bittencourt aos Peixoto, todos aqueles que se declararam “desprestigiados” no PMDB oposicionista marcharam rumo ao PSDB governista. Por que não se mantiveram na oposição aos Tucanos? O problema era Iris ou Marconi era a solução? Alguém explica ou os atos por si se justificam?